TENSÃO DIPLOMÁTICA

Polícia Federal retalia EUA em Brasília

Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, fala sobre a decisão de reciprocidade com os EUA.
Diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante coletiva de imprensa.

Agente norte-americano perde acesso a instalações da corporação, acirrando crise com Washington.

A Polícia Federal retirou as credenciais de um agente dos Estados Unidos em Brasília, nesta quarta-feira, 22 de abril de 2026. A decisão, confirmada pela corporação, é uma resposta baseada no princípio da reciprocidade ao caso envolvendo o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, que foi solicitado a deixar os EUA. A medida sinaliza um endurecimento na postura do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante de um incidente que ele classificou como uma afronta à soberania brasileira, marcando um momento de tensão diplomática entre as duas nações.

A ação da PF limita as atividades do agente norte-americano no Brasil, impedindo seu acesso às dependências da corporação e aos sistemas utilizados em suas operações. Embora a data exata da formalização não tenha sido detalhada, a Polícia Federal reiterou que a iniciativa partiu da própria instituição e não do governo federal, ressaltando o caráter técnico da resposta.

Este movimento brasileiro surge no rastro da solicitação de saída do delegado Marcelo Ivo de Carvalho dos Estados Unidos. Marcelo Ivo atuava como oficial de ligação no ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas) em Miami desde 2023. O governo dos EUA, sob a administração do presidente Donald Trump (Partido Republicano), comunicou a decisão por meio do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, que publicou no X: “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso”.

O governo brasileiro, por sua vez, afirma não ter recebido comunicação oficial de Washington sobre o caso. Na ausência de um aviso formal, o retorno de Marcelo Ivo pode ser interpretado, na prática, como uma expulsão, mesmo sem o rito oficial que afastaria a hipótese de extradição. Esta lacuna na comunicação oficial gerou uma forte reação em Brasília, com o Ministério das Relações Exteriores convocando a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos EUA, Kimberly Kelly, para prestar explicações. A reunião ocorreu na tarde de 21 de abril de 2026, mas os detalhes do encontro não foram divulgados.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, expressou pesar pela decisão em entrevista à GloboNews, mas defendeu a medida como necessária. “Eu retirei com pesar as credenciais de um servidor dos EUA pelo princípio da reciprocidade”, afirmou Rodrigues, enfatizando que nem o delegado Marcelo Ivo foi expulso dos Estados Unidos, nem a Polícia Federal planeja expulsar qualquer um do Brasil. “Não é nosso papel”, completou, contradizendo a declaração do Departamento de Estado dos EUA, que havia afirmado, na segunda-feira, 20 de abril de 2026, que um funcionário do governo brasileiro foi expulso por tentar realizar “perseguição política”.

A reação dentro do governo brasileiro não mostra total uniformidade. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala em possível revide e evoca a “reciprocidade” diante do que considera um abuso, o presidente interino Geraldo Alckmin (PSB) defende uma abordagem mais cautelosa, sugerindo que o Brasil aguarde os desdobramentos antes de tomar novas providências. Este dissenso reflete a complexidade da crise diplomática e a busca por um equilíbrio entre a firmeza na defesa da soberania e a manutenção das relações internacionais.

Marcelo Ivo de Carvalho, natural de Santos (SP), ingressou na PF em 2003 e possui formação em direito. Antes de sua atuação em Miami, ele comandou a Delegacia da PF no aeroporto de Guarulhos em 2016 e foi delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado em São Paulo de 2018 a 2021. Em 2016, Marcelo Ivo se envolveu em um acidente que resultou na morte de um motociclista, ocasião em que sua CNH estava vencida. A Justiça de São Paulo o absolveu por falta de provas em setembro de 2020.

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