FIM DO TABU BALTICO
Lituânia decide permitir armas nucleares em seu território após veto de décadas
Decisão encerra política vigente desde o fim da União Soviética e visa conter ameaças geopolíticas na região.
A Lituânia confirmou nesta quinta-feira, 02, que removerá o veto constitucional à presença de armas nucleares em seu território. A decisão encerra uma política que vigorava desde o fim da União Soviética, da qual o país fez parte até 1991, e representa uma mudança significativa em sua estratégia de segurança diante do deteriorado cenário geopolítico.
O presidente Gitanas Nauseda anunciou que a medida será implementada até o final do ano, alinhado à intenção previamente declarada pelo novo primeiro-ministro, Mindaugas Sinkevicius, que assumiu o posto em 30 de junho. A alteração constitucional reflete a percepção de que a Carta Magna, redigida em 1992, não condiz mais com a realidade atual.
A Lituânia se posiciona como um dos países mais expostos na região, contando com apoio da aliança militar Otan, incluindo a presença da primeira base militar germânica fora do território alemão desde a Segunda Guerra Mundial. A decisão lituana segue movimentos semelhantes de outros países da região.
A Finlândia, por exemplo, derrubou um veto semelhante em forma de lei em 1º de julho. Anteriormente, a Polônia manifestou o desejo de sediar armas nucleares americanas como forma de conter a ameaça percebida com a instalação de ogivas táticas por Vladimir Putin na vizinha Belarus. A mudança por parte dos países do flanco leste da Otan encerra um tabu de décadas.
Após o colapso do império comunista, havia um entendimento implícito de que essas nações não abrigariam forças ofensivas nucleares próximas às fronteiras russas. A Finlândia, que era neutra desde que perdeu parte de seu território para Moscou na Segunda Guerra Mundial, e a Lituânia, que chegou a abrigar uma base de mísseis voltados para a Europa durante a Guerra Fria, agora reavaliam suas políticas de defesa.
A invasão da Ucrânia em 2022 intensificou a percepção de risco na região, levando a Finlândia a integrar a Otan em 2023, seguida pela Suécia, que abandonou 200 anos de neutralidade. A Ucrânia, por sua vez, frequentemente relembra que a devolução de seu arsenal nuclear nos anos 1990, em troca de garantias de fronteiras, pode ter contribuído para o conflito atual.
Apesar de Putin comandar o maior arsenal nuclear do mundo, o Kremlin já sinalizou que a presença de armas nucleares em países vizinhos pode levar a medidas políticas e militares. A Rússia tem construído novas instalações militares próximas à fronteira com a Finlândia.
No contexto lituano, o contato direto com o território russo se dá através do exclave de Kaliningrado, uma área altamente militarizada entre a Lituânia e a Polônia, onde análises indicam a presença de mísseis com ogivas táticas. A decisão de permitir armas nucleares no país, embora ainda sem planos concretos para sua instalação, reflete a busca por maior segurança em um ambiente de crescentes tensões.
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