RÚSSIA EM ALERTA

Finlândia e Lituânia quebram tabu e abrem portas para armas nucleares da Otan

Fronteira militar entre Finlândia e Rússia com simbolismo de tensão.
Instalações militares na fronteira entre a Finlândia e a Rússia.

Países nórdicos e bálticos alteram política de décadas e desafiam Moscou em meio a escalada de tensões na Europa Oriental. Decisão eleva o nível de risco na região.

A Finlândia passou a admitir, nesta quarta-feira, 01/07/2026, a presença em seu território de armas nucleares da Otan, a aliança militar ocidental na qual ingressou em 2023 após sete décadas de neutralidade ante Moscou. A decisão representa o abandono de um veto assumido em 1987 e mantido como regra não escrita pelas nações vizinhas do antigo império comunista.

O novo premiê da ex-república soviética da Lituânia, Mindaugas Sinkevicius, assumiu nesta terça (30) com promessa semelhante. A Polônia, também ex-comunista, já havia solicitado aos Estados Unidos o estacionamento de ogivas nucleares táticas em seu território, em resposta à movimentação dessas armas de menor potência por parte de Vladimir Putin na aliada Belarus em 2023.

No dia 17 passado, o Parlamento finlandês aprovou a decisão por 125 a 61 votos. A chancelaria russa respondeu na segunda (29), afirmando que a medida seria respondida de forma política e com o que Moscou chama de "medidas técnico-militares". Na prática, isso sugere o posicionamento de unidades ofensivas russas que já estão sendo instaladas perto da fronteira finlandesa. Imagens de satélite indicam que a construção dessas instalações foi acelerada após a entrada de Helsinque na Otan.

Em meio à escalada de tensões no Leste Europeu, o governo russo determinou o fechamento das cinco conexões ferroviárias entre seu território e a Finlândia, por tempo indeterminado a partir desta quarta-feira. Também foram fechadas uma passagem para a Letônia e outra para a Lituânia, embora o efeito prático seja baixo, dado que sanções já cortaram praticamente todo o comércio e o tráfego de passageiros.

A tensão é elevada pela renovada campanha de ataques ucranianos a refinarias russas, que levou o Kremlin a cogitar uma importação de derivados de petróleo. Putin admitiu, no domingo (29), que o país enfrenta desabastecimento devido às ações. Analistas apontam que a situação aberta na Rússia sobre a escalada da guerra, com o risco de emprego de armas nucleares táticas contra a Ucrânia ou contra os frágeis Estados Bálticos, afeta a credibilidade do governo Putin.

A questão nuclear é considerada fundamental por analistas como George Friedman, da Geopolitical Futures. Ele acredita que Putin pensará duas vezes antes de escalar o conflito, devido ao risco de trazer a Otan e os Estados Unidos de vez para a guerra. Friedman lembra que, para os EUA, um ataque nuclear é nuclear, independentemente de ser tático ou não, uma linha que não foi cruzada desde Hiroshima e Nagasaki.

Desde o início do conflito, Putin tem usado a retórica nuclear para tentar deter o apoio à Ucrânia. Em 2024, usou por três vezes um míssil desenhado para guerras nucleares, o Orechnik, sem cargas explosivas sobre o vizinho, em um ato simbólico para mostrar ao Ocidente o funcionamento e a dificuldade de interceptação dessas armas. A Rússia possui o maior arsenal atômico do mundo, estimado em 5.420 ogivas segundo a Federação dos Cientistas Americanos.

A nova regra finlandesa, como signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear, não significa o desenvolvimento de armas nucleares, mas abre a porta para o posicionamento delas na maior fronteira da Otan com a Rússia. Atualmente, os Estados Unidos possuem um arsenal de cerca de cem bombas táticas sendo incrementado na Europa, operado por caças como o F-35A que a Finlândia encomendou.

O movimento da Finlândia dá corpo a um desafio coletivo aos russos. Ao fim da União Soviética, em 1991, os países que a integravam concordaram em devolver as armas nucleares à Rússia em troca de reconhecimento de soberania. Especialistas em armas nucleares denunciam essa lógica como perversa, pois valida a ideia de que elas são essenciais para a defesa de um país na era de incertezas políticas.

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