EX-PRESOS

Egressos do sistema prisional integram consultoria global para reformar segurança pública

Mulher sorrindo em um ambiente profissional, com um fundo neutro.
Ex-presos defendem políticas de segurança pública baseadas em experiências reais.

ONG lança agência formada por 34 consultores de 19 países para propor políticas de justiça e segurança baseadas em experiências reais. Brasileiros Dandara Zainabo e Rodrigo Sabiah integram o time.

Em uma iniciativa inédita para reformar a segurança pública globalmente, a educadora Dandara Zainabo, 28 anos, transformou seus cinco anos de experiência traumática no sistema prisional do Rio de Janeiro em uma atuação política de impacto internacional. Atualmente, ela se dedica à elaboração de propostas inovadoras para a área, voltadas a líderes de diversos países. A decisão de criar esta consultoria foi apresentada em abril na Cidade do Cabo, África do Sul, um local escolhido simbolicamente devido ao seu histórico de segregação. A agência, batizada de Global Freedom Consulting Agency, é a primeira do mundo em segurança pública composta inteiramente por pessoas que vivenciaram o encarceramento.

Reunindo 34 egressos do sistema prisional de 19 países, a consultoria conta com a participação de dois brasileiros, selecionados por seus projetos de destaque em justiça e segurança. Baz Dreisinger, fundadora da ONG Incarceration Nations Network (INN) e professora na Escola John Jay de Justiça Criminal da Universidade da Cidade de Nova York, idealizou o projeto após 25 anos de trabalho em prisões. "Esses profissionais poderão atuar junto a governos interessados em desenvolver políticas públicas de justiça com base em lideranças que conhecem, na prática, os efeitos do encarceramento," explica Dreisinger. "Isso nunca foi feito antes, em nenhum país, e esperamos que a consultoria transforme vidas, atravessando muros e fronteiras." A INN é financiada por organizações filantrópicas, e os consultores podem ser contratados por fundações, think tanks, instituições acadêmicas, agências governamentais e administrações prisionais.

A consultoria abordará áreas como a justiça restaurativa, que foca na reparação de danos e envolve vítimas, autores e comunidade em processos de diálogo. Dandara argumenta que o debate sobre segurança pública frequentemente se concentra em punição, ignorando critérios cruciais como raça, gênero e desigualdade. "Quando a gente fala sobre sistema prisional, a gente está falando, sim, de uma máquina mortífera," afirma, comparando a situação a unidades como o Cecot em El Salvador, onde a desumanização é palpável. "A gente tem as palavras certas, isso eu posso te dizer. A gente tem soluções concretas. Sabe por quê? Porque a gente viu de dentro. E aí não há nada melhor do que destruir a violência quando você é alguém que sentiu ela."

No Brasil, Dandara concentra sua atuação na construção de políticas de apoio para pessoas trans dentro e fora das prisões, propondo a criação de um censo penitenciário específico para essa minoria, a fim de planejar espaços mais acolhedores. Atualmente, dados sobre a população LGBTQIA+ encarcerada são divulgados pela Secretaria Nacional de Políticas Penais, mas ativistas consideram os números incompletos e subnotificados, em parte devido a registros que ainda utilizam categorias binárias de gênero. Dandara, ao focar no olhar humanizado, defende um sistema prisional menos punitivo e mais voltado à correção, educação e reintegração social. Após sua liberdade, ela fundou a Associação Mama Thula, que oferece apoio jurídico a mulheres cis e trans em conflito com a lei.

O outro brasileiro na agência, Rodrigo Sabiah, fundou em 2012 uma cooperativa de reciclagem para gerar trabalho para ex-detentos e o projeto Reciclando Vidas. Sua iniciativa promove ações em comunidades, escolas e prisões focadas em empreendedorismo social, reintegração e justiça restaurativa, além de palestras sobre sua trajetória. A INN destaca que cerca de 11 milhões de pessoas estão encarceradas globalmente, com um crescimento contínuo. Desse total, mais de 3,2 milhões aguardam julgamento e cerca de 20% cumprem pena por crimes relacionados a drogas, frequentemente por posse. A consultoria Global Freedom Consulting Agency surge como um divisor de águas, oferecendo perspectivas únicas para a construção de um futuro mais justo e seguro.

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