CONFLITO

Trump desafia Irã e bloqueia Estreito de Hormuz

Estreito de Hormuz com navio petroleiro, simbolizando a rota de petróleo do Golfo Pérsico e a tensão entre EUA e Irã.
Navio petroleiro atravessa o Estreito de Hormuz, rota marítima vital no Golfo Pérsico. A região foi palco de tensões geopolíticas intensificadas pelo governo Trump.

Decisão envolveu 5.000 fuzileiros navais e risco de invasão a ilhas estratégicas; Alerta para guerra de desgaste.

Em um período de alta tensão no Oriente Médio, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou o bloqueio do estratégico Estreito de Hormuz nesta segunda-feira, 22. A controversa medida, anunciada mesmo após um cessar-fogo e em meio a um reforço significativo das forças militares americanas na região – com mais de 5.000 fuzileiros navais, paraquedistas e membros das forças especiais – visava reabrir a crucial via marítima e intensificar a pressão econômica sobre o Irã. No entanto, a decisão gerou um alerta global para o risco iminente de uma escalada militar sem precedentes, capaz de desestabilizar o fornecimento mundial de petróleo e gás e desencadear um conflito de consequências imprevisíveis para a dignidade e a vida na região.

A intensificação militar americana no Oriente Médio marcou as últimas semanas daquele período, com o governo Trump oscilando entre discursos de paz e ameaças de guerra contra o Irã. Antes mesmo da declaração de um cessar-fogo, mais de 5.000 fuzileiros navais, paraquedistas e membros das forças especiais foram enviados à região. Esse movimento amplificou a possibilidade de uma invasão terrestre, cenário já aventado pelo então presidente republicano.

Em momentos anteriores, Trump já havia ameaçado invadir Kharg, a principal ilha de exportação de petróleo do Irã, prometendo "destruir" suas instalações se o país persa não permitisse o fluxo de tráfego marítimo pelo Estreito de Hormuz. O Irã, por sua vez, havia restringido a passagem após ataques dos EUA e de Israel e, mesmo depois da trégua, a via foi bloqueada por ordem do ex-presidente americano nesta segunda-feira, 22.

Uma eventual ordem para invadir a ilha de Kharg exigiria que as forças anfíbias dos EUA – peças-chave em qualquer operação terrestre, segundo analistas – avançassem cerca de 800 quilômetros no Golfo Pérsico. "Isso seria muito arriscado", alertou Mark Cancian, consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e coronel aposentado da Marinha. "Por essa razão, acredito que a abertura do estreito seria a primeira ação."

Relatos de autoridades americanas indicam que Trump também considerou a tomada de ilhas estratégicas no estreito e em suas imediações. O objetivo seria forçar a reabertura dessa via navegável, essencial para o transporte de uma parcela considerável do petróleo e gás mundial em condições normais.

O Irã, com seus postos militares avançados em diversas ilhas e ao longo da costa, possui a capacidade de dominar rapidamente as estreitas rotas marítimas, utilizando drones, mísseis antinavio e lanchas de ataque rápido.

Diante do considerável poder de fogo iraniano, os Estados Unidos precisariam capturar todo o arquipélago para tentar reabrir o estreito, explicou Farzin Nadimi, pesquisador sênior do Instituto de Washington. Isso incluiria ilhas cruciais como Qeshm, Larak, Abu Musa e Tunb. "Eles necessitam tomar todas elas", afirmou Nadimi.

As forças americanas enviaram 2.000 paraquedistas e unidades de operações especiais para a área. Em um cenário de desembarque nas ilhas, essas tropas poderiam desarticular redes de túneis e bases de mísseis subterrâneas, descritas por Nadimi como "inacessíveis até mesmo para bombas antibunker".

Comandantes americanos enfrentariam a difícil decisão de destruir as instalações e recuar, ou manter o controle das ilhas por um período mais longo, garantindo assim a proteção do estreito. Essa segunda opção poderia, inclusive, conferir aos EUA uma posição de vantagem em futuras negociações com o Irã.

Contudo, a permanência prolongada exigiria um contingente de fuzileiros navais robustamente equipados e defesas aéreas para resguardá-los contra drones, mísseis e foguetes iranianos lançados do continente. "Seria uma operação de alto risco e com muitas baixas", pontuou Nadimi, ressaltando o custo humano e material de tal empreitada.

Ainda assim, uma operação terrestre isolada não asseguraria o retorno do tráfego de embarcações ao estreito em volume expressivo.

"É fundamental garantir a tranquilidade de marinheiros, empresas de navegação e seguradoras, de modo que se sintam seguros para retomar a travessia", salientou Andreas Krieg, professor sênior da Escola de Estudos de Segurança do King’s College London.

Mesmo na hipótese de conquista de uma ou mais ilhas no entorno ou dentro do estreito, a Ilha de Kharg manteria um valor estratégico substancial para o governo Trump.

Cerca de 90% do petróleo iraniano é exportado dessa ilha. Os intensos ataques dos EUA em março, entretanto, não foram suficientes para interromper os embarques. Imagens de satélite revelaram que petroleiros continuaram a abastecer-se nos terminais de exportação nos dias posteriores aos ataques.

Analistas concordam que a tomada da Ilha de Kharg pelas forças americanas exerceria uma pressão significativa sobre a economia iraniana. "É o calcanhar de Aquiles da infraestrutura de exportação de petróleo do regime", pontuou Behnam Ben Taleblu, diretor sênior do Programa Irã da Fundação para a Defesa das Democracias.

No entanto, qualquer tentativa de desembarque de tropas americanas na ilha seria extremamente perigosa. O terreno montanhoso e a robusta presença militar iraniana, somados ao petróleo inflamável armazenado, criariam um cenário de alto risco para as tropas.

Especialistas alertam para a possibilidade de o Irã adotar uma política de terra arrasada, optando por destruir as instalações petrolíferas na ilha a permitir que as forças americanas as capturassem. Para o governo Trump, essa seria uma manobra com sérios riscos políticos e de imagem.

Caso os fuzileiros navais ocupassem uma ilha, mas falhassem em forçar a rendição iraniana, uma eventual retirada seria percebida como uma derrota estratégica. Ademais, se os EUA tentassem manter o controle de qualquer ilha, o Irã provavelmente os engajaria em uma prolongada guerra de desgaste.

"O objetivo iraniano seria causar o máximo de baixas entre as tropas americanas, pois isso geraria uma imagem capaz de alterar a opinião pública nos EUA", explicou Krieg, reforçando a dimensão política do conflito.

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