ORÇAMENTO EM ALERTA
Rússia supera em US$ 28 bilhões gastos previstos na Guerra da Ucrânia, aponta documento
Documento obtido pelo Financial Times revela que o Ministério das Finanças pediu congelamento de outros gastos para cobrir custos excedentes do conflito, evidenciando dificuldades financeiras do Kremlin.
Os gastos da Rússia com a Guerra da Ucrânia estão prestes a ultrapassar o orçamento em pelo menos 2 trilhões de rublos, o equivalente a US$ 28 bilhões (aproximadamente R$ 157,4 bilhões), conforme um documento interno obtido pelo Financial Times. Essa escalada de despesas adiciona pressão às finanças do Kremlin, que enfrenta um déficit crescente.
Um documento do Ministério das Finanças, datado de fevereiro, já projetava um gasto excedente de até 4 trilhões de rublos no conflito para este ano, considerado um "cenário negativo". Para 2027 e 2028, o mesmo gasto excedente de 4 trilhões de rublos é esperado.
Para contornar o aumento dos custos da guerra, o Ministério das Finanças solicitou ao gabinete o congelamento de 2,9 trilhões de rublos em gastos planejados fora do conflito para este ano. Adicionalmente, foram pedidos congelamentos de 5,4 trilhões de rublos para 2027 e 7,1 trilhões de rublos para 2028.
O pedido expõe as dificuldades enfrentadas pela Rússia para custear a guerra, mesmo com uma alocação de 16,84 trilhões de rublos (US$ 238 bilhões) para defesa e segurança neste ano, o que representa quase 40% do orçamento total.
Embora o Kremlin tenha planejado um déficit orçamentário de 3,8 trilhões de rublos para todo o ano de 2026, os primeiros quatro meses de 2026 já registraram um déficit de 5,9 trilhões de rublos, equivalente a 2,5% do PIB. Este é o maior déficit desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia em 2022.
A recente alta nos preços do petróleo, impulsionada pelo conflito no Irã e elevando o valor do barril acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022, trouxe um alívio temporário às finanças russas. No entanto, a receita adicional proveniente da energia pode não ser suficiente para cobrir todas as despesas crescentes com a guerra.
Em entrevista recente ao jornal Kommersant, o ministro das Finanças, Anton Siluanov, confirmou que o ministério está revisando o orçamento para acomodar as "mudanças nas condições macroeconômicas" e a necessidade de concentrar recursos em áreas prioritárias. Ele também sinalizou a possibilidade de mais cortes orçamentários, alertando que "as reservas não são infinitas" e que é preciso manter a estabilidade financeira.
Siluanov detalhou que, em abril de 2026, a Rússia obteve 200 bilhões de rublos em receita excedente de exportações de energia. Contudo, as receitas de março ficaram aquém do esperado pelo mesmo valor. A força do rublo e os pagamentos a empresas petrolíferas para controlar o aumento dos preços domésticos da gasolina têm atenuado o impacto positivo dos preços mais altos de energia.
A escalada dos gastos com a Guerra da Ucrânia, agora em seu quinto ano, agrava um cenário econômico já desafiador na Rússia. O Ministério da Economia já reduziu sua previsão de crescimento para 2026 em quase um ponto percentual, para 0,4%. As projeções para os anos seguintes também foram ajustadas para baixo.
Sofya Donets, economista-chefe da T-Investments, ressaltou que o orçamento é a principal preocupação na Rússia, influenciando discussões sobre juros, impostos e investimentos. "As pessoas estão olhando para o orçamento para entender: quem é o próximo?", questionou.
Embora alguns funcionários reconheçam os desequilíbrios econômicos, outros começam a atribuir os problemas aos gastos de guerra. Renat Suleimanov, membro do parlamento russo, defendeu o fim "o mais rápido possível" da guerra devido às suas consequências econômicas, argumentando que o foco em defesa e segurança, que consomem 40% do orçamento, impulsiona a inflação e reduz investimentos em áreas sociais.
Alexandra Prokopenko, ex-funcionária do banco central, observou que a carta de Siluanov demonstra a priorização dos gastos com a guerra em detrimento de outras áreas. Ela explicou que "o Ministério das Finanças precisa de dinheiro para a guerra, então aconteça o que acontecer, não é defesa e segurança que sofre cortes, mas compras, subsídios a empresas e financiamento de instituições públicas".
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