CRIME organizado

Fórum revela: 41% dos brasileiros convivem com o crime organizado

Mapa da atuação do crime organizado no Brasil, mostrando a capilarização de facções como PCC e Comando Vermelho
Representação de confronto entre facções criminosas. O Comando Vermelho atua em 10 estados, segundo o estudo.

Relatório inédito expõe realidade de 68,7 milhões de pessoas e seu impacto direto na vida diária.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou, neste domingo, 10 de maio de 2026, o relatório "Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança", revelando um cenário alarmante: 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam conviver com a presença de grupos criminosos organizados, como facções ou milícias, em seus bairros. Este dado impactante, que representa cerca de 68,7 milhões de pessoas, expõe a disseminação do poder territorial dessas organizações, transformando a vida cotidiana de milhões e impondo um cenário de medo e controle social em diversas comunidades.

Embora a percepção da atuação desses grupos seja mais acentuada nas capitais, atingindo 55,9% da população, o fenômeno do crime organizado já se capilarizou por todo o país. Nos municípios da região metropolitana, o índice é de 46,0%, e nas cidades do interior, mais de um terço da população (34,1%) identifica a presença de facções em sua vizinhança. Essa expansão reflete um processo de difusão territorial e a nacionalização de grupos como o PCC e o Comando Vermelho, que transformaram o interior em entrepostos logísticos e palcos de disputas armadas.

Para a maioria dos entrevistados que reconhecem a presença do crime, a atuação não é invisível: 61,4% (o que equivale a 42,2 milhões de pessoas) afirmam que o crime organizado influencia muito ou moderadamente as decisões e as regras de convivência local. Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro da Segurança Pública, descreve essa regulação do cotidiano como "governança criminal". "Você tem o poder do Estado, mas também tem o poder do crime, que se coloca como um regulador da vida das pessoas que vivem nesses territórios e que, enfim, impõe uma série de regras e normas sobre o que pode e o que não pode ser feito nesses lugares", explica Bueno.

Este cenário cria um "duopólio de violência", onde o Estado e o crime coexistem na ordenação da vida diária, gerando uma disciplina social baseada no medo. Os resultados do estudo ilustram esse impacto direto na dignidade e na liberdade dos cidadãos. A maioria teme ficar no meio de confrontos armados (81,0%) ou que um familiar se envolva com o tráfico (71,1%). A vida social é restringida, com 74,9% evitando frequentar certos locais e 65,2% mudando seus horários de circulação. O receio de sofrer represálias por denunciar crimes atinge 64,4% da população, e 59,5% evitam falar sobre política em seus bairros. Além disso, a interferência econômica é notável, com 12,5% sentindo-se obrigados a contratar serviços indicados por grupos criminosos e 9,4% compelidos a comprar produtos ou marcas impostas nos comércios locais.

O relatório também aponta um salto significativo na vitimização para aqueles que residem em territórios sob influência do crime organizado. Enquanto a média nacional de vitimização é de 40,1%, nos bairros dominados por facções, esse índice sobe para 51,1%, um aumento de 11 pontos percentuais. Nesses locais, a frequência de diversas modalidades criminosas se eleva: a proporção de pessoas que tiveram um familiar ou conhecido assassinado salta de 13,1% para 17,6%; as vítimas de golpes financeiros digitais crescem de 15,8% para 21,4%; o roubo de celular aumenta de 8,3% para 12,1%; e o roubo à mão armada passa de 3,8% para 6,5%.

A pesquisa "Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança" foi conduzida pelo Instituto Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os dias 9 e 10 de março de 2026. O estudo abrangeu 137 municípios, com uma amostra de 2.004 entrevistas. A margem de erro geral para a amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com um nível de confiança de 95%.

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