GEOPOLÍTICA GLOBAL
Xi Jinping alerta Trump sobre Taiwan em cúpula crucial
Líderes dos Estados Unidos e China discutem parcerias e "linha vermelha" que pode gerar conflito, em encontros de 14 e 15 de maio de 2026. Acordos econômicos e desafios à dignidade humana marcam as tensões entre as maiores potências.
Líderes das duas maiores potências mundiais, Xi Jinping e Donald Trump, debateram o futuro das relações bilaterais e globais em encontros de alto nível nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, e sexta-feira, 15 de maio de 2026, em Pequim. Os chefes de Estado dialogaram sobre parcerias econômicas, segurança regional e, crucialmente, as tensões em torno de Taiwan. A busca por estabilidade em um cenário de transformações globais rápidas, com a China reafirmando sua ascensão e os Estados Unidos buscando redefinir sua estratégia, define o tom dessas conversas que moldarão o panorama geopolítico e econômico mundial nas próximas décadas, influenciando a vida de bilhões de pessoas e o delicado equilíbrio de poder entre grandes potências.
Os correspondentes da Globo, Felipe Santana e Lucas Louis, acompanharam de perto o "encontro histórico" entre Donald Trump e Xi Jinping, que descreveram a relação entre China e Estados Unidos como a mais importante para o planeta.
A diplomacia entre os líderes foi um jogo de alto simbolismo. A ida de Donald Trump, na quarta-feira, 13 de maio de 2026, a lugares históricos na China, como a Cidade Proibida, foi vista como uma "benesse", um privilégio reservado a poucos. As discussões ocorreram tanto a portas abertas quanto a portas fechadas, e as informações divulgadas à imprensa chinesa e americana apresentaram algumas contradições. Por exemplo, Trump afirmou que a China se ofereceu para mediar um acordo com o Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, enquanto o secretário de Estado Marco Rubio negou ter solicitado tal ajuda, indicando que os Estados Unidos não precisavam dela.
Antes dos anúncios oficiais esperados para depois dos encontros, que incluíram um chá e um almoço com a comitiva de 30 empresários que acompanhavam Donald Trump, o foco estava nos detalhes dos debates que "explicam o mundo que se vive".
Frente a frente na grande mesa oval, o presidente chinês, Xi Jinping, e o americano Donald Trump, iniciaram a conversa sob os olhos do mundo. Xi enfatizou que o planeta atravessa uma encruzilhada de transformações rápidas, algo não visto há mais de um século. Para o líder chinês, a solução reside no fim das disputas e no reconhecimento da China como uma nova potência global, buscando "sucesso mútuo e prosperidade" para "abrir um novo caminho para a coexistência entre grandes potências nesta nova era".
Contudo, após a saída dos jornalistas, Xi Jinping traçou uma "linha vermelha", retomando a questão de Taiwan. A ilha possui um governo autônomo, mas a China a considera uma província rebelde e parte inseparável de seu território. Os Estados Unidos, por sua vez, armam os taiwaneses há décadas para defesa contra uma possível invasão. A China nega intenção de invadir, buscando que Taiwan decida por sua reanexação – um objetivo que Xi Jinping almeja como seu grande legado: a unificação.
Xi Jinping afirmou a Trump que Taiwan é a questão mais importante na relação com os americanos e alertou que, se "tratado de forma inadequada, China e Estados Unidos vão colidir ou até mesmo entrar em conflito, levando a relação para um terreno muito perigoso". O líder chinês pediu cautela, um lembrete indireto da exigência chinesa de diminuir o repasse de armamentos para Taiwan. Donald Trump, ao tomar a palavra, agradeceu pela recepção no Grande Salão do Povo, onde o Congresso costuma se reunir.
Chegando ao Centro de Pequim minutos antes do encontro, Trump cumprimentou Xi com um longo aperto de mão, descrevendo a recepção como uma "honra como poucos viram antes", elogiando "as crianças" e "o Exército". A presença militar, embora de praxe, ganhou carga simbólica, dado que Xi Jinping demitiu generais do alto escalão em 2026, gerando suspeitas sobre a prontidão das Forças Armadas. Ao mesmo tempo, a China moderniza intensamente suas tropas, revisadas pelos dois presidentes ao som do hino americano, com 21 tiros ecoando pela Praça da Paz Celestial vazia.
Trump também elogiou sua comitiva, afirmando ter "os maiores empresários do mundo", "pessoas incríveis" que estavam ali "para prestar respeito" à China. Bilionários como Elon Musk, Tim Cook, da Apple, e Jensen Huang, CEO da Nvidia, a maior empresa do mundo em valor de mercado, observavam da segunda fila enquanto Xi cumprimentava o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Guerra Pete Hegseth.
A Casa Branca divulgou que, na reunião a portas fechadas, os presidentes concordaram que o Estreito de Ormuz deveria ser aberto para garantir a passagem de petróleo e gás, e que o Irã não pode cobrar um pedágio na rota. O correspondente Felipe Santana também destacou a importância do Grande Salão do Povo, prédio construído na Revolução Comunista. O local, onde o Congresso se reúne e se reserva para ocasiões especiais, recebeu o presidente Lula um ano antes, durante sua visita ao presidente chinês, Xi Jinping.
Elon Musk, acompanhado do filho, evitou a imprensa. Seu interesse primordial reside em sua fábrica de robôs humanoides, cujo desenvolvimento depende de ímãs produzidos na China. Jensen Huang, por sua vez, afirmou que seu único objetivo era representar o presidente Donald Trump. A Nvidia, sua empresa, lidera o mercado de chips que impulsionam a inteligência artificial, essencial para tecnologias como ChatGPT, Claude, Gemini e a IA chinesa DeepSeek.
Um momento crucial foi o encontro do primeiro-ministro chinês, Li Qiang, responsável pela política macroeconômica, com os grandes bilionários da indústria tech americana. Essa reunião, que incluiu o CEO da Nvidia, o CEO da Apple e Elon Musk (que participou do governo Trump, mas brigou publicamente com ele em junho de 2025, e agora estava sentado à frente da cadeira do primeiro-ministro chinês), tem o potencial de "mudar a história" e "selar o futuro da humanidade". A mesa formada nessa reunião a portas fechadas escancara que Estados Unidos e China têm uns aos outros nas mãos, e essa disputa definirá como o mundo será daqui a cinco, 50, 100 anos.
Para selar o dia histórico, Donald Trump foi convidado para uma visita não agendada ao Templo do Céu, onde imperadores chineses pediam por prosperidade. Um gesto de grandiosidade histórica, que posiciona a China não apenas como parceira comercial, mas como civilização milenar acolhendo o líder do Ocidente.
Nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, veio o primeiro anúncio que pode ser desfavorável ao Brasil: Pequim renovou a licença de centenas de frigoríficos americanos para vender carne bovina à China. Essas licenças estavam vencidas. Embora o Brasil seja o maior exportador de carne para os chineses, essa medida não significa venda imediata para os americanos, pois a compra de carne é controlada pelo Estado, que tende a favorecer seus aliados geopolíticos.
O banquete de encerramento foi digno de tempos imperiais, com Trump e Xi entrando lado a lado, aplaudidos de pé. Xi Jinping reiterou que seu lema de "rejuvenescer a nação chinesa" e o de Trump de "fazer a América grande de novo" podem coexistir. Donald Trump, por sua vez, afirmou que o vínculo entre China e Estados Unidos é "dos mais importantes da história mundial", com 250 anos de respeito e trocas comerciais. Ele mencionou aspectos culturais compartilhados e convidou Xi Jinping para visitar a Casa Branca no dia 24 de setembro.
Até o centro da mesa no banquete tinha simbolismo: a água, na cultura chinesa, representa prosperidade, e os cisnes, fidelidade. Uma metáfora de que a colaboração traria mais benefícios. Contudo, em uma "disputa global em seu ápice", a imagem velada é de que "a água do lago está fervendo", com presidentes, bilionários e generais atuando como personagens em um quadro histórico de complexas relações internacionais.
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