DIREITOS DA INFÂNCIA
Violência contra crianças persiste no Brasil entre o discurso e a prática
Estudo aponta que, apesar de 90% defenderem o diálogo na educação, 49% admitem o uso de castigos físicos; dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelam alta nas denúncias.
A contradição entre o discurso pedagógico e a realidade cotidiana marca a educação de crianças no Brasil, onde a violência física e verbal ainda se mantém enraizada. O fenômeno foi mapeado em um levantamento realizado pelo instituto Quaest, a pedido do Instituto Infinis, cujos resultados detalhados foram conhecidos neste domingo, 19/07/2026, evidenciando que a convicção sobre a eficácia do diálogo não impede a reincidência de práticas agressivas.
O cenário de vulnerabilidade é agravado pelos números oficiais: somente nos quatro primeiros meses de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania contabilizou 115.814 denúncias de violações contra menores de 18 anos. Atualmente, o país abriga uma população de 55 milhões de crianças e adolescentes.
Embora 9 em cada 10 entrevistados apontem o diálogo como o caminho ideal para a educação, a prática revela um cenário distinto: 62% admitiram já ter gritado com uma criança, 49% confirmaram ter desferido tapas e 27% relataram o uso de objetos como forma de punição. Para Márcia Kalvon, diretora-executiva do Instituto Infinis, entender essas nuances é vital para romper o ciclo intergeracional de agressões e fortalecer políticas públicas preventivas.
A 2ª edição da pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes” indica, porém, uma leve redução nas agressões com objetos em comparação ao primeiro levantamento, realizado em 2023. O estudo ouviu 2.202 adultos entre maio e junho de 2026 e trouxe à tona outra preocupação: dois terços dos entrevistados (62%) afirmaram não intervir ao presenciar atos de violência, sob a justificativa de que a educação familiar seria uma questão de esfera privada.
O levantamento aponta ainda uma contradição sobre o trabalho infantil: enquanto 93% priorizam os estudos, 61% consideram aceitável que crianças trabalhem. Além disso, 71% dos participantes não souberam identificar leis de proteção, como as contempladas pelo ECA Digital. O conteúdo integral do estudo será apresentado em setembro durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância.
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