CLIMA E SAÚDE

Por que o calor na Europa pode ser mais severo do que no Brasil

Asfalto derretido devido ao calor extremo em Leipzig
Calor extremo causa derretimento de asfalto em Leipzig, na Alemanha - Foto: Heiko Rebsch/dpa via AP

Especialistas explicam como a radiação solar, as características das construções e a umidade do ar tornam as ondas de calor europeias um risco crescente à saúde pública.

A sensação de calor extremo enfrentada durante o verão europeu tem levantado questionamentos sobre a comparação com as temperaturas registradas no Brasil. Embora o senso comum sugira uma maior resistência dos brasileiros ao clima quente, evidências técnicas apontam que o cenário na Europa possui particularidades perigosas que impactam diretamente a saúde humana.

Um fator determinante é a geografia. Enquanto no Brasil o solstício de verão ocorre em dezembro com uma duração de dia específica, em cidades como Berlim, na Alemanha, o solstício de junho garante horas adicionais de luz solar, mantendo a incidência de radiação por períodos prolongados ao longo de várias semanas.

A estrutura das moradias também desempenha um papel crítico. Projetadas originalmente para reter o calor devido aos longos períodos de inverno, as construções locais impedem a dissipação térmica. O resultado é o aprisionamento do ar quente dentro dos ambientes, agravado pela escassez de sistemas de ar-condicionado em diversas regiões.

Nelson Gouveia, professor da Faculdade de Medicina da USP, destaca que a interação entre a temperatura e a umidade do ar é vital para o funcionamento do corpo. O desequilíbrio na troca térmica pode levar rapidamente à desidratação e, em situações graves, à falência de órgãos. O impacto dessas condições foi evidenciado por uma onda de calor histórica em junho, que resultou em mais de 10 mil óbitos no continente.

O cenário é de alerta para a habitabilidade de certas regiões. Segundo Ana Ávila, meteorologista do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp, não se trata de uma simples variabilidade climática, mas de uma mudança estrutural. A especialista reforça que medidas de adaptação são fundamentais para garantir a sobrevivência, especialmente para grupos vulneráveis, como a população idosa.

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