ALERTA DIGITAL PAIS
Uso excessivo de telas pode prejudicar fala, aprendizagem e habilidades sociais de crianças e adolescentes
Especialista da UFRN explica os impactos do tempo de tela no desenvolvimento infantil e as semelhanças de sintomas com transtornos do neurodesenvolvimento.
O uso excessivo de telas pode comprometer o desenvolvimento da fala, da linguagem, da aprendizagem, da atenção e das habilidades sociais de crianças e adolescentes. O alerta é da fonoaudióloga e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Cíntia Salgado, em entrevista ao programa Band Saúde, da Band RN. Esses prejuízos, observados desde a infância, variam conforme a faixa etária e aprofundam-se com o desenvolvimento infantil.
Segundo a especialista, os impactos iniciais impactam diretamente a comunicação. "Vai interferir muito na aprendizagem da fala, da linguagem, que é a comunicação, a interação, olhar para o outro, para a criança aprender a falar as frases, para dialogar. Nas crianças pequenas, esse é o primeiro prejuízo que a gente já pode identificar", explicou Cíntia Salgado.
Com o avanço da idade, surgem alterações comportamentais. "Quando elas vão crescendo um pouco mais, a gente já consegue identificar, além das questões da comunicação, questões comportamentais. Então a criança já vai ficar mais irritada, vai ter aqueles sintomas como se ela estivesse dependente daquilo. Quando você tira, ela pode ficar agressiva", detalhou a professora.
Na adolescência, comportamentos que geram preocupação podem persistir e associar-se a problemas emocionais e sociais. "O adolescente tende a não contar para os pais, então ele pode estar envolvido em jogos, em vícios, em jogos dos quais os pais podem nem saber o que está acontecendo. Ao longo da vida isso vai piorando", alertou Cíntia Salgado.
A fonoaudióloga ressalta que o cenário é complexo, visto que o uso de telas está intrinsecamente ligado à sociedade contemporânea. "Costumo dizer que é muito difícil para os pais. Eu sou mãe também e eu sei das dificuldades que a gente tem, porque a nossa cultura hoje, a nossa geração, a nossa sociedade, praticamente tudo envolve o uso de telas", reconheceu.
Ela enfatiza a responsabilidade de pais e profissionais na definição de limites. "Os pais muitas vezes acham que a culpa é da criança que está excessivamente na tela porque ela quer. Mas nós, pais, e nós, profissionais, temos a responsabilidade de orientar", afirmou. Além do tempo de exposição, a qualidade do conteúdo consumido também é um fator crucial. "Para além do tempo de tela, também a qualidade do que eles estão assistindo. Isso é importante também", ponderou.
Cíntia Salgado aconselha os responsáveis a supervisionarem os conteúdos acessados pelas crianças. "A gente tem que ter domínio, saber exatamente o que está sendo feito e tomar muito cuidado com tipos de filmes, seriados e jogos que as crianças estão envolvidas", alertou.
Um ponto de atenção é a semelhança entre sintomas da dependência de telas e características de transtornos do neurodesenvolvimento. "Muitas crianças que são viciadas em telas vão apresentar sintomas parecidos com alguns transtornos, como o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade", explicou. Essa similaridade exige cautela dos profissionais. "É preciso que os profissionais avaliem essa criança com muita cautela e cuidado, porque hoje a gente vive uma geração em que os diagnósticos se sobressaem", afirmou.
Crianças com transtornos preexistentes, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou o TDAH, podem ter seus quadros agravados pela exposição excessiva a telas. "As crianças que têm algum transtorno, como o transtorno do espectro autista ou o TDAH, a exposição também pode agravar o quadro", disse. No entanto, a especialista ressalta que o excesso de telas não causa o surgimento desses transtornos, que são congênitos. "Ele não vai causar um diagnóstico, porque os transtornos que a gente chama do neurodesenvolvimento, a criança nasce com ele", explicou, ao mesmo tempo em que alertou para os sérios prejuízos cerebrais que podem ocorrer sem intervenção adequada.
No ambiente escolar, os prejuízos podem manifestar-se em dificuldades de atenção, memória e aprendizagem. "Essa criança vai ter um tempo de atenção muito curto para prestar atenção no que o professor está dizendo. Ele não vai guardar informações daquilo que está sendo ensinado", afirmou. O desempenho acadêmico pode ser diretamente afetado, com possíveis dificuldades em leitura, escrita e matemática.
Educadores desempenham um papel vital na identificação desses sinais. "O professor passa grande parte do dia com essa criança. Então ele vai observar o comportamento", disse. Embora a legislação restrinja o uso de celulares nas escolas, irritabilidade em sala de aula pode ser um sintoma de abstinência de telas.
O "desmame digital" como alternativa
Para mitigar os efeitos negativos, Cíntia Salgado propõe o estabelecimento de limites e a substituição gradual do tempo de tela por outras atividades. "Eu acho que o limite é o caminho", afirmou.
Controlar os horários de uso, especialmente à noite, é fundamental para não prejudicar o sono. "A gente sabe que a tela à noite acelera muito a criança. Por isso o sono da criança vai ficar prejudicado. Pelo menos duas horas antes da criança dormir, é preciso retirar essa tela", orientou.
A especialista compara a redução do uso de telas a um processo de "chupeta digital", onde a retirada pode gerar sintomas semelhantes à abstinência. Por isso, em alguns casos, o acompanhamento profissional é recomendado para distinguir os sintomas. Como alternativas, Cíntia sugere aumentar atividades presenciais e experiências fora do ambiente digital. "Brincar mais com a criança, oferecer brincadeiras, jogos mais analógicos. Eu gosto muito de jogos de tabuleiro", disse, além de incentivar esportes e atividades artísticas e culturais.
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