UE BUSCA DIVERSIFICAR

União Europeia firma parceria estratégica com o Brasil em minerais críticos

Comissário Europeu Jozef Síkela em evento da Viridis Mining.
Comissário Europeu Jozef Síkela visita centro de processamento de terras raras em Poços de Caldas (MG).

Comissário Europeu Jozef Síkela anuncia proposta "benéfica" para o Brasil na disputa por matérias-primas, focando em sustentabilidade e processamento local.

A União Europeia (UE) oficializou, nesta segunda-feira, 22/06/2026, sua intenção de firmar uma parceria estratégica com o Brasil para o fornecimento de minerais críticos. A decisão, comunicada pelo comissário europeu para Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, à Reuters, visa diversificar as fontes de suprimento e posiciona o bloco como um parceiro com uma proposta mais "benéfica" em comparação a outros atores internacionais na disputa por matérias-primas brasileiras. A iniciativa é crucial para garantir o acesso da Europa a insumos essenciais e promover o desenvolvimento sustentável de cadeias produtivas no Brasil.

A declaração ocorreu durante a visita de Síkela a Poços de Caldas (MG), no sábado (20), onde ele inspecionou o centro de pesquisa e processamento de terras raras da mineradora australiana Viridis Mining and Minerals. Este local é um dos quatro projetos prioritários selecionados para acelerar a colaboração entre a UE e o Brasil. A abordagem europeia, segundo Síkela, destaca-se por priorizar a sustentabilidade e o incentivo ao processamento local de terras raras, alinhando-se com a diretriz brasileira de agregar tecnologia e valor à cadeia produtiva de um setor em expansão, que já conta com a segunda maior reserva global desses minerais críticos.

"É extremamente importante que o Brasil também avance além de negócios de baixa margem, ou seja, que o valor seja criado aqui no país", ressaltou o comissário, enfatizando que o Brasil é atualmente o parceiro mais estratégico da UE na América Latina e uma economia em franca expansão. A expectativa é que acordos de compra permitam à UE cobrir suas necessidades, enquanto o Brasil desenvolverá capacidade de refino e novas tecnologias, avançando na cadeia de suprimentos para gerar margens mais altas.

O projeto piloto da Viridis em Minas Gerais, inaugurado em maio, já processa 100 kg de minério por hora, com potencial para produzir até 2,92 kg de carbonato misto de terras raras (MREC) anualmente. A empresa planeja um investimento de US$ 360 milhões para uma planta comercial a partir de 2028, capaz de produzir 15 mil toneladas de MREC por ano. "E é por isso que gosto tanto deste projeto (da Viridis) em particular, porque ele basicamente entrega objetivos: ele cria empregos, cria novas parcerias, traz novas tecnologias, educação e transferência de conhecimento, tudo com base nos padrões ambientais, sociais e técnicos mais avançados", afirmou Síkela.

A parceria também conta com uma carta de intenções não vinculante entre a Viridis e a Solvay, gigante química belga, que prevê o fornecimento de MREC e pode evoluir para um suporte tecnológico mais amplo. O presidente-executivo da Viridis, Rafael Moreno, indicou à Reuters que as discussões com a UE sobre apoio ao projeto estão avançadas e que um acordo com a Solvay pode ser fechado até o fim de julho. A UE poderá auxiliar com financiamento e mecanismos de proteção de preços para mitigar riscos e garantir a competitividade. "Um preço mínimo é importante, então concluir todos esses detalhes será importante para nós, e isso não está longe de acontecer", disse Moreno.

Síkela reiterou que o papel da UE é oferecer suporte político e instrumentos de mitigação de riscos, sem substituir o capital privado. "Não estamos vindo para substituir o financiamento privado nem como provedores de capital próprio, mas nosso papel é ajudar a mobilizar investimentos privados", declarou. Essa iniciativa se insere em um contexto de corrida global por minerais críticos, essencial para a transição energética e a defesa, com a Europa e os Estados Unidos buscando reduzir a dependência da China, principal produtora mundial.

A estratégia europeia visa reduzir "dependências" nas cadeias de suprimentos globais, uma lição aprendida com eventos como a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia. Além das terras raras, a UE vê projetos envolvendo níquel e lítio como prioritários no Brasil, e planos para um memorando de entendimento entre o bloco e o governo brasileiro estão em negociação. Sobre a concorrência de Estados Unidos e China, Síkela defendeu que a proposta europeia é mais benéfica por ser mais sustentável e focar na criação de empregos e educação. Ele também destacou a importância de alinhar as práticas ambientais e sociais do Brasil, um "ator ambiental global", com os padrões da UE, dada a influência desses recursos na dinâmica climática mundial.

Rafael Moreno, da Viridis, confirmou o alinhamento da empresa com as orientações europeias e a busca por um mercado diversificado. "Estamos adotando uma abordagem em que queremos que todos tenham direitos, seja na Argentina, no Paraguai, na Europa ou na Austrália... Portanto, estamos satisfeitos em manter uma mentalidade europeia ou ocidental - ou, mais importante ainda, uma mentalidade ocidental", afirmou. No final de maio, Moreno já havia revelado à Reuters que a Viridis estava em negociações avançadas com potenciais compradores europeus e americanos, descartando explicitamente compradores chineses.

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