ENSINO SUPERIOR GLOBAL
Unesco lança relatório inédito sobre ensino superior em 150 países e debate papel da universidade no século 21
Estudo da Unesco aponta avanços e desafios, com foco em acesso, desigualdade e função social da universidade. Professora da USP critica vieses e defende humanidades.
Um estudo inédito da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgado em 04 de julho de 2026, mapeia o ensino superior em cerca de 150 países, cobrindo todos os continentes. Diferentemente de relatórios anteriores, o documento consolida dados comparáveis de dezenas de sistemas nacionais, apresentando um panorama global sobre os avanços e impasses do setor. A principal questão em debate é a função social da universidade no século 21, além da formação profissional, frente a crises globais complexas.
O levantamento aponta que, entre 2000 e 2024, o número de estudantes universitários no mundo saltou de 100 milhões para 269 milhões. Contudo, essa expansão não resultou em redução das desigualdades regionais nem em maior permanência dos alunos até a conclusão dos cursos. A professora Carlota Boto, da Faculdade de Educação da USP, em leitura crítica publicada no Jornal da USP, destaca que, apesar de o relatório reconhecer o ensino superior como um bem comum, não se aprofunda o significado desse direito à educação. A ampliação do acesso, se não se traduz em trajetórias acadêmicas bem-sucedidas, revela um descompasso evidente.
O relatório da Unesco identifica disparidades significativas: enquanto os Estados Unidos apresentam taxa de escolarização no ensino superior de 80% e a média mundial é de 43%, a África subsaariana alcança apenas 9% da população nesse nível educacional. Segundo a professora Carlota Boto, falta no documento uma análise mais densa sobre as causas dessas diferenças e o que elas revelam sobre o direito à educação.
Por outro lado, o estudo detalha modelos financeiros para sustentar ensino, pesquisa e políticas de permanência, e aborda a crescente internacionalização, com mais de sete milhões de estudantes cursando o ensino superior fora de seus países de origem. As cotas raciais e sociais são adotadas por apenas um terço das regiões pesquisadas. No Brasil, Boto ressalta que essas políticas não comprometeram a qualidade do ensino, mantendo-a estável mesmo com uma população universitária mais diversa.
A professora da USP critica a ausência de um recorte étnico-racial no documento, questionando a igualdade de acesso e permanência de negros em sistemas de ensino superior mundiais em comparação com pessoas brancas. Além disso, alerta que a priorização de métricas ligadas à economia, inovação e empregabilidade, com referências em Europa e EUA, pode relegar o papel das Humanidades a um plano secundário para o restante do mundo.
O impacto da inteligência artificial no ensino superior também é abordado, com destaque para a falta de protocolos éticos e a desigualdade no acesso à internet — 83% nas zonas urbanas contra 48% nas zonas rurais. Para a realidade brasileira, Boto aponta o financiamento como desafio primordial, defendendo a garantia de uma fatia fixa do orçamento estatal para universidades públicas, mesmo em cenários de restrição fiscal, como no Estado de São Paulo.
Condições como permanência estudantil, bolsas sociais e de mérito, auxílio-moradia e apoio à saúde mental são essenciais para sustentar a democratização do acesso às universidades públicas. Como proposta de adaptação às mudanças tecnológicas, Boto sugere novos currículos e avaliações diante da inteligência artificial, sem desconsiderar a formação humanística. Em suma, a professora define a boa universidade como aquela que oferece acesso ao legado cultural acumulado e mantém um compromisso social e com a formação cidadã.
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