DESCONHECIMENTO SOBRE CÂNCER
Um em cada quatro brasileiros desconhece prevenção de câncer, aponta pesquisa
Levantamento aponta que mais da metade da população ignora o sedentarismo como fator de risco. Estudo abrangeu 6.500 pessoas em todos os Estados.
Um em cada quatro brasileiros desconhece que o câncer é uma doença que pode ser prevenida. A informação consta do relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, divulgado nesta quarta-feira, 3 de junho de 2026. O levantamento, que investigou como a população brasileira percebe e se relaciona com fatores de risco para o câncer, como tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e sedentarismo, revela uma lacuna significativa no conhecimento sobre a prevenção da doença. Essa falta de informação compromete a adoção de medidas preventivas e impacta diretamente a saúde pública, uma vez que o Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima 781 mil novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028, um aumento de 10,9% impulsionado pelo envelhecimento da população e por hábitos de vida.
A pesquisa, inédita em abrangência nacional por avaliar o conhecimento da população brasileira sobre prevenção do câncer, incluindo percepções e comportamentos, foi realizada pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Inca. Foram entrevistadas 6.500 pessoas em todos os Estados e no Distrito Federal. O estudo aponta que, enquanto hábitos como fumar e se expor ao sol sem proteção são amplamente reconhecidos como prejudiciais, outros fatores de risco ainda são pouco associados ao câncer. É o caso do sedentarismo, citado por menos da metade dos entrevistados (48,3%) como fator que favorece o desenvolvimento da doença.
Percepções sobre Fatores de Risco
A chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, Luciana Grucci Moreira, ressaltou que houve avanço na percepção da população brasileira, especialmente quando comparada a estudos internacionais. O tabagismo, por exemplo, é reconhecido como causa de câncer por 90,5% dos entrevistados. Outros fatores bem lembrados foram herança genética (89,4%) e exposição excessiva ao sol (88,3%). No entanto, a percepção sobre outros riscos ainda é baixa: bebidas alcoólicas foram apontadas como fator de risco por 71,3% dos entrevistados; alimentos embutidos (presunto, salsicha) por 70,7%; e ultraprocessados (macarrão instantâneo, salgadinhos) por 65,6%.
Luciana explicou que a diferença nos níveis de percepção está ligada a políticas públicas e campanhas de conscientização consolidadas ao longo de décadas, como advertências em embalagens, impostos sobre tabaco e restrições a ambientes fechados. Ela defende iniciativas semelhantes para ampliar a conscientização sobre outros fatores de risco, como o sedentarismo e a dieta. O estudo também revelou que quatro em cada dez entrevistados desconhecem que o aleitamento materno ajuda a reduzir o risco de câncer de mama, uma informação crucial para a saúde feminina.
Obesidade e Hábitos Alimentares em Foco
O sobrepeso e a obesidade são reconhecidos como fatores de risco para o câncer por apenas 54,1% da população. O consumo de bebidas adoçadas é associado ao risco por 55,3%, a baixa ingestão de frutas e verduras por 53,3%, e o sedentarismo, conforme já mencionado, por 48,3%. A carne vermelha é associada ao aumento do risco por apenas 27,5% dos entrevistados. Luciana Moreira enfatizou que a informação de qualidade, por si só, não garante mudanças de comportamento, sendo essencial avançar em políticas públicas que promovam acesso a alimentos saudáveis e incentivem a prática de atividade física, garantindo ruas seguras e iluminadas.
Comportamentos e Jovens na Mirela
A pesquisa analisou também os hábitos e a disposição da população para mudar comportamentos de risco. Quarenta e cinco por cento dos entrevistados consomem alimentos ultraprocessados e já tentaram reduzir o consumo, mas 15% relatam consumir e não ter intenção de mudar. No caso de bebidas adoçadas, 53% consomem e tentam reduzir, enquanto 15% não pretendem diminuir o consumo. Em relação à carne vermelha, 45% a consomem sem tentar reduzir. Por outro lado, 86,3% da população consome frutas, legumes e verduras.
Os jovens de até 24 anos se destacam como o grupo que mais consome alimentos associados ao aumento do risco de câncer sem intenção de reduzir o consumo: 32,3% em relação a ultraprocessados, 24,4% a bebidas adoçadas, 29,5% a embutidos e 49,1% a carne vermelha. No consumo de bebidas alcoólicas, substância associada a pelo menos 8 tipos de câncer, 50,1% não consomem. Entre os que bebem, 32,5% já tentaram reduzir o hábito. Jovens de até 24 anos lideram o consumo de álcool sem intenção de reduzir (16,9%), percentual que cai para 8,7% na faixa de 25 a 59 anos e 7,1% entre os maiores de 60 anos.
Sedentarismo e Desigualdade Social
Cinquenta e dois por cento dos entrevistados afirmam praticar atividade física, e 39% têm intenção de começar. Os mais ricos são os que mais reconhecem a importância da atividade física na prevenção de câncer. Cerca de 45% dos que recebem até R$ 2.000 associam sedentarismo ao risco, enquanto o percentual sobe para 59,6% entre os que ganham R$ 10 mil ou mais. Sobre o peso corporal, 48,8% consideram seu peso saudável. Entre os que reconhecem estar acima do peso, 31% adotam medidas para mudar a situação, mas o percentual cai para 22,9% entre pessoas com renda inferior a R$ 2.000 e supera 40% entre aqueles com renda acima de R$ 3.000.
Luciana Moreira e Luciana Sardinha, da Vital Strategies, destacam que os resultados são essenciais para orientar ações de comunicação e políticas públicas, direcionando campanhas e estratégias de prevenção para os riscos menos conhecidos pela população. A divulgação dos resultados visa ampliar o interesse público no tema, chamando a atenção para os fatores de risco associados ao câncer.
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