MOBILIDADE LIVRE

Tarifa Zero: pesquisa da UnB e UFRJ prevê economia bilionária para passageiros

Gráfico ilustrativo dos impactos econômicos e sociais da Tarifa Zero no transporte público em grandes cidades.
Representação gráfica do impacto da Tarifa Zero nas capitais. Foto: Juan Silva/Arte G1

Levantamento aponta R$ 45,6 bilhões anuais para usuários, superando programas sociais como o Bolsa Família. Debate sobre dignidade e controle social é ressaltado.

Uma economia potencial de R$ 45,6 bilhões por ano para os usuários de transporte público nas capitais e regiões metropolitanas. Essa é a principal conclusão de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado nesta terça-feira, 05 de maio de 2026. A pesquisa aponta que a implementação da Tarifa Zero não apenas aliviaria o orçamento familiar, liberando dinheiro para necessidades essenciais como alimentação e saúde, mas também funcionaria como uma poderosa ferramenta de distribuição de renda, dinamização econômica e redução de desigualdades sociais no Brasil.

Segundo o levantamento, a ausência da despesa com passagens permitiria que trabalhadores destinassem esses recursos para consumo em supermercados, farmácias e serviços locais, impulsionando a economia nas comunidades.

O trabalho, financiado pela Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero no Congresso Nacional e com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, faz parte da pesquisa mais ampla intitulada “Tarifa Zero e suas possibilidades de expansão no Brasil”.

Coordenado pelo professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política da UnB, o estudo detalha que os benefícios da medida transcendem a mera mobilidade urbana, configurando-se como um pilar para a dignidade social e a equidade.

Impacto Bilionário na Economia Nacional

Para chegar aos impressionantes números, os pesquisadores realizaram um cruzamento de dados robusto, utilizando informações da Pesquisa Nacional de Mobilidade (PEMOB 2024), do IBGE e de operadoras de transporte coletivo. A análise abrangeu sistemas de ônibus e metroferroviários nas 27 capitais e suas respectivas regiões metropolitanas, fornecendo uma visão abrangente do cenário nacional.

Ao incorporar a estimativa de R$ 14,7 bilhões referentes às gratuidades já existentes – destinadas a idosos, estudantes e pessoas com deficiência –, o potencial bruto de injeção anual na economia com a Tarifa Zero alcançaria a marca de R$ 60,3 bilhões. "O valor certamente é ainda maior, porque nosso estudo só olha para as 27 capitais e seus sistemas metropolitanos de transporte”, pontua Trindade.

A pesquisa ressalta a magnitude do impacto da Tarifa Zero ao compará-lo com programas sociais de grande escala. O valor anual que circularia na economia é superior ao desembolsado pelo Bolsa Família, que soma R$ 57,9 bilhões por ano aos beneficiários de capitais e regiões metropolitanas. Adicionalmente, supera a economia gerada pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que resulta em R$ 25,4 bilhões economizados pelos trabalhadores.

Conforme Trindade, o valor médio da passagem no país em 2024 girava em torno de R$ 4,50, segundo levantamento da Associação Nacional dos Transportes Urbanos. “As pessoas economizariam entre R$ 8 e R$ 10 por dia, considerando a ida e volta. Mas essa é apenas uma estimativa, porque houve aumentos expressivos no começo do ano”, acrescenta o professor.

Tarifa Zero: Um Debate sobre Dignidade e Liberdade

Além do expressivo impacto econômico, os pesquisadores enfatizam o caráter redistributivo da Tarifa Zero. O estudo demonstra que o custo do transporte afeta desproporcionalmente as famílias de baixa renda, tornando a gratuidade uma medida que beneficia em maior grau a população vulnerável, os moradores de periferias e a população negra, promovendo uma mobilidade mais equitativa.

O debate se estende a uma necessária mudança cultural sobre o direito fundamental à mobilidade urbana. “Está muito enraizado na nossa cultura social que, para as pessoas se locomovam pela cidade, elas têm que pagar a tarifa. A gente criou uma lógica onde você só pode circular se tiver dinheiro”, reflete Trindade.

Essa perspectiva começou a se transformar a partir de 2015, quando o transporte foi consagrado como direito social na Constituição Federal, por meio de uma emenda da deputada Luiza Erundina (Psol/SP), impulsionada pelas manifestações de junho de 2013. “A gente está vivendo um processo de mudança de chave no debate sobre o transporte público”, observa o pesquisador.

Entretanto, a resistência à política de Tarifa Zero persiste. Na análise de Trindade, essa oposição é alimentada por interesses de classe e pela busca por controle social.

"É algo similar ao debate sobre o fim da escala 6 por 1. As classes mais ricas não gostam da ideia de que as pessoas pobres tenham liberdade de circulação pela cidade. A tarifa é um instrumento de controle social, porque quando você cobra, você impede milhões de pessoas de circularem", afirma Trindade.

Financiamento e o Modelo Francês

Uma pesquisa anterior, divulgada em novembro de 2025, aprofundou as possíveis formas de financiamento da Tarifa Zero. A alternativa mais promissora apontada é a substituição do vale-transporte por uma contribuição empresarial, inspirada no eficaz modelo francês conhecido como Versement Mobilité.

Conforme a proposta, empresas em cidades com mais de 50 mil habitantes – um universo de cerca de 706 municípios – contribuiriam com um valor fixo mensal por funcionário. O modelo prevê a isenção para empresas com até nove empregados, o que, de acordo com o estudo, abrangeria cerca de 83% dos CNPJs do país.

Com uma contribuição estimada em aproximadamente R$ 250 por trabalhador, seria possível arrecadar cerca de R$ 80 bilhões por ano. Este montante seria suficiente para financiar integralmente a política de Tarifa Zero, eliminando a necessidade de novos impostos ou recursos adicionais do governo.

O estudo também compara essa proposta com uma alternativa de gratuidade focalizada apenas para a população de baixa renda. Nesse cenário, atender aproximadamente 24 milhões de pessoas inscritas no CadÚnico custaria cerca de R$ 58 bilhões anuais – montante que representa aproximadamente 75% do necessário para uma implementação universal.

Apesar do custo potencialmente menor da gratuidade focalizada, os pesquisadores salientam que a Tarifa Zero universal oferece um maior potencial de simplificação administrativa, inclusão social e uma redução mais efetiva das desigualdades no acesso ao transporte público.

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