INVESTIGAÇÃO AVANÇA

STF autoriza busca contra Ciro Nogueira em caso Banco Master

STF autoriza busca contra Ciro Nogueira em caso Banco Master

PF detalha "propinoduto" de R$ 300 mil mensais e compra subvalorizada de R$ 12 milhões. Decisão de André Mendonça aponta parceria entre senador e Daniel Vorcaro.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) nesta quinta-feira, 07 de maio de 2026. A medida, motivada por suspeitas de corrupção no escândalo do Banco Master, revela que o parlamentar do Centrão teria atuado como sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, estabelecendo um engenhoso esquema para recebimento de pagamentos suspeitos. Esta ação judicial de alto perfil lança luz sobre uma intricada teia de interesses financeiros na política, gerando profunda preocupação sobre a integridade das instituições públicas e o uso indevido de cargos para benefício pessoal.

Na representação da PF, citada por André Mendonça, os investigadores afirmam que a empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., identificada como “veículo patrimonial central do núcleo vinculado a Ciro Nogueira” e administrada pelo irmão do senador, Raimundo Nogueira, adquiriu 30% de participação societária da Green Investimentos S/A. Esta última seria controlada por Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro Daniel Vorcaro, que foi preso nesta quinta-feira.

O que mais chamou a atenção da PF foi que a empresa ligada a Ciro Nogueira teria desembolsado R$ 1 milhão por uma participação societária cujo valor de mercado alcançaria R$ 13 milhões. Para evidenciar a “subvalorização” do negócio, os investigadores citam uma troca de mensagens na qual Felipe Cançado Vorcaro informava a Daniel Vorcaro que eles receberiam R$ 2,4 milhões correspondentes a 20% da distribuição de dividendos de participação da Green e de outra empresa, a Trinity.

“Além da divergência substancial entre o valor de mercado e o valor efetivamente pago pela aquisição da referida participação societária, sinalizando uma vantagem negocial em favor da empresa adquirente na ordem de R$ 12 milhões, os investigadores verificaram, ainda, a existência de comando específico de Daniel Vorcaro e Felipe [Cançado Vorcaro] para que a participação societária envolvida no negócio ensejasse a percepção de dividendos ‘sem que a operação ingressasse no radar de eventuais mecanismos de fiscalização’”, detalha a decisão de André Mendonça, fundamentada na representação da PF.

Ainda conforme a PF, foi Felipe Cançado Vorcaro, então presidente da Green Investimentos, quem arquitetou o fluxo de pagamentos do grupo para a empresa de Ciro Nogueira por meio de uma outra companhia, a BRGD S.A. Em mensagens obtidas pela PF, o esquema é classificado como “parceria BRGD/CNLF”, que teria gerado, segundo a polícia, “pagamentos mensais em favor do senador” de R$ 300 mil, “com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil”.

Felipe Cançado Vorcaro afastou-se da presidência da Green Investimentos S.A. no dia seguinte à deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Na outra fase da operação, em janeiro de 2026, que culminou na prisão de Daniel Vorcaro, Felipe teria escapado dos agentes federais que o procuravam em uma mansão em Trancoso, na Bahia, utilizando um carrinho de golfe para evadir-se.

"Emenda Master" sob suspeita

A aquisição da participação societária teria ocorrido em abril de 2024, apenas quatro meses antes de Ciro Nogueira apresentar uma emenda à PEC nº 65/2023. Essa emenda visava ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A iniciativa ficou conhecida como “Emenda Master” porque, na visão de interlocutores do banco, “sextuplicaria” o potencial de negócios do Banco Master.

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, coincidindo com a primeira fase da Operação Compliance Zero, que prendeu Daniel Vorcaro pela primeira vez por suspeita de fraude bilionária contra o sistema financeiro. Atualmente, o FGC está previsto para pagar R$ 40 bilhões a 800 mil pessoas que tinham até R$ 250 mil investidos no Banco Master.

Essa conta seria significativamente maior se a emenda proposta por Ciro Nogueira tivesse sido aprovada. Segundo a PF, o texto da emenda foi elaborado pela assessoria do Banco Master e entregue em um envelope endereçado a “Ciro”, no endereço residencial do senador, que o apresentou ao Senado “de forma integral”. Em conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro, o banqueiro afirma que a emenda do presidente do PP “saiu exatamente como mandei”, levantando sérias questões sobre a imparcialidade do processo legislativo.

A defesa do senador

Por meio de nota, o advogado de Ciro Nogueira, Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, declarou que o senador “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. A defesa reiterou que Ciro Nogueira está “disposto a contribuir com a Justiça”.

Kakay acrescentou que “medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade”.

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