JOGO POLÍTICO MUDA

Senado altera jogo eleitoral com federação próxima a Flávio Bolsonaro

Senador Ciro Nogueira, presidente do PP, em meio a articulações políticas no Senado.
Ciro Nogueira. Foto: Jefferson Rudy/Senado.

Rejeição de Jorge Messias para o STF agrava tensões. Impacto em fundo eleitoral e tempo de TV/rádio para 2026.

A federação União Brasil-PP se aproxima de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), alterando profundamente o tabuleiro eleitoral com a corrida presidencial se intensificando. A movimentação, observada por governistas e oposicionistas nesta segunda-feira, 04/05/2026, intensificou a crise entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que teve um papel central na recente rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Essa reconfiguração partidária pode definir apoios e influenciar diretamente o futuro do cenário político nacional, a poucos meses das eleições de 2026.

A percepção de aliados do governo é que a atuação de Davi Alcolumbre para barrar o atual chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, minou as tentativas de aproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com as lideranças da federação União Brasil-PP. Diante deste novo cenário, dirigentes das siglas avaliam que o apoio a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é uma inclinação forte, embora a neutralidade ainda se configure como uma opção no contexto de alta polarização das pesquisas eleitorais.

Desde a votação que rejeitou Messias, Davi Alcolumbre nega qualquer articulação contra o governo, defendendo que agiu conforme seu papel institucional como presidente do Senado. Contudo, aliados de Luiz Inácio Lula da Silva apostam na recuperação da popularidade do presidente para convencer partidos de que sua reeleição representaria uma opção política mais estável e segura do que uma aliança com o grupo bolsonarista.

Mesmo com a negativa de Alcolumbre, membros do governo estudam maneiras de pressioná-lo, cogitando até iniciativas para desgastar sua imagem pública. No final do ano passado, uma reunião entre o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e Luiz Inácio Lula da Silva na Granja do Torto, para discutir neutralidade eleitoral – encontro noticiado pela Folha de S.Paulo e negado por Nogueira – sinalizava uma abertura que agora parece se fechar. A percepção atual entre dirigentes da federação é que o alinhamento com Flávio Bolsonaro se torna o desfecho mais provável, moldando o cenário pré-eleitoral de forma decisiva.

Antes de bater o martelo sobre o apoio, o ponto crucial de debate entre as siglas União Brasil e PP gira em torno do espaço político que ocupariam em um eventual futuro governo da família Bolsonaro. Vale recordar que, em 2019, após a eleição de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desempenhou um papel significativo ao apoiar a vitória de Davi Alcolumbre na presidência do Senado, um resultado que muitos consideraram surpreendente na ocasião.

Se a aliança com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) for confirmada para 2026, sua campanha obteria uma fatia consideravelmente maior do fundo eleitoral e um tempo expandido de propaganda em rádio e televisão, superando Luiz Inácio Lula da Silva. Os impactos dessa decisão reverberariam também em Minas Gerais, um dos maiores colégios eleitorais do Brasil, onde a disputa por apoios é intensa e crucial.

Nos círculos governistas, a desconfiança também paira sobre o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG), cujo nome Davi Alcolumbre defendia para o STF. Parte dos aliados de Luiz Inácio Lula da Silva avalia que Pacheco influenciou a derrota de Jorge Messias e agora questiona sua viabilidade como candidato ao governo mineiro, especialmente se contar com o suporte do Palácio do Planalto.

A dinâmica entre Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco e o governo federal tem sido marcada por uma série de oscilações e desgastes. Além da não indicação de Pacheco ao STF, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, secretário-geral do PSD, contribuiu para a tensão. Silveira, que antes era aliado de ambos os senadores, rompeu com eles em meio a disputas por espaços no governo, evidenciando as fissuras na base aliada.

Aliados de Rodrigo Pacheco criticam a permanência de Alexandre Silveira no PSD, mesmo após o partido decidir apoiar a candidatura do atual governador de Minas Gerais, Mateus Simões, um nome ligado ao ex-governador Romeu Zema (Novo) e, consequentemente, adversário político de Pacheco. As declarações públicas de Silveira a favor de Simões apenas intensificaram o desconforto e as tensões internas.

Existe a avaliação de que o governo federal incentivava Rodrigo Pacheco a disputar o governo de Minas Gerais, mas falhou em controlar a atuação de Alexandre Silveira, que integra a própria base. No Amapá, reduto político de Davi Alcolumbre, o PSD também desponta como um adversário significativo, com a filiação do ex-prefeito de Macapá Doutor Furlan, pré-candidato ao governo estadual. Essa movimentação ameaça a reeleição de Clécio Luís (União), um forte aliado do presidente do Senado, adicionando mais uma camada de complexidade ao cenário político regional.

Embora o mandato de Davi Alcolumbre no Senado se estenda até 2030, ele poderá enfrentar um cenário mais adverso na casa legislativa. A possível eleição de nomes como Lucas Barreto (PSD) e Rayssa Furlan (Podemos), que atualmente lideram as pesquisas no Amapá, pode resultar em novos colegas de bancada com posições políticas potencialmente desfavoráveis ao presidente do Senado.

Apesar das evidentes tensões, parte do PT avalia que um rompimento com Davi Alcolumbre não é oportuno neste momento. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso e aliado de Alcolumbre em seu estado, reitera que a relação com o Palácio do Planalto se mantém "institucional".

Davi Alcolumbre mantém uma influência considerável na estrutura do Poder Executivo. Indicações ligadas ao União Brasil, inclusive, passaram por sua articulação política, mesmo em momentos de ameaça de o partido deixar a base governista. Para salvaguardar esses espaços estratégicos, um acordo previu que os indicados próximos ao senador se desvinculariam formalmente de suas legendas de origem.

O presidente do Senado também desempenhou um papel ativo na definição de nomes para importantes ministérios, como Integração Nacional, Comunicações e Turismo – este último em conjunto com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Sua influência se estende a cargos estratégicos em órgãos como Correios, Codevasf, agências reguladoras e Telebras, evidenciando seu poder nos bastidores.

Mesmo sem um rompimento formal declarado, o governo aborda com extrema cautela a possibilidade de rever as indicações ligadas a Davi Alcolumbre. Embora aliados de Luiz Inácio Lula da Silva defendam uma reação mais incisiva, a avaliação predominante é que uma retirada imediata e em massa dos cargos poderia intensificar ainda mais o conflito político, gerando instabilidade desnecessária.

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