SAÚDE PÚBLICA EM FOCO

Sedentarismo se agrava no Brasil e impacta saúde pública, diz Genial/Quaest

Pessoas caminhando e correndo em um parque urbano, simbolizando a prática de atividade física e o desafio do sedentarismo no Brasil.
Pessoas se exercitam em área urbana, ilustrando o desafio do sedentarismo no país.

53% da população está inativa, com grupos vulneráveis mais afetados. Custo anual para saúde pode chegar a US$ 27 bilhões.

Um panorama preocupante da saúde pública nacional emergiu nesta quinta-feira, 30/04/2026, quando um levantamento recente da Genial Investimentos/Quaest revelou que mais da metade da população brasileira não pratica atividades físicas regularmente. A pesquisa, conduzida entre 6 e 9 de março com 2.004 brasileiros, desmascara a percepção de que a prática de exercícios é rotina para a maioria, um contraste que impacta diretamente a qualidade de vida e a dignidade de milhões de cidadãos, acendendo um alerta sobre a necessidade urgente de políticas públicas de acesso e incentivo à movimentação.

A pesquisa, que ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais por meio de entrevistas presenciais, ocorreu entre 6 e 9 de março. Sua amostra representou a população nacional, com margem de erro de dois pontos percentuais. Os resultados são claros: somente 47% dos entrevistados afirmam incluir exercícios em seu dia a dia, um indicador de que a inatividade domina a realidade de muitos.

Pessoas caminhando e correndo em um parque urbano, simbolizando a prática de atividade física e o desafio do sedentarismo no Brasil.

Mesmo entre os que se movem, a frequência varia significativamente. Treze por cento dos entrevistados se exercitam diariamente, e outros 13% praticam exercícios "quase todos os dias". Vinte e um por cento realizam atividades físicas apenas em alguns dias da semana. O ponto crucial, contudo, reside nos 53% que categoricamente declararam não praticar qualquer tipo de exercício, reforçando a magnitude do problema.

O retrato da inatividade física se agrava em grupos específicos, revelando desigualdades sociais e regionais. Na região Nordeste, por exemplo, 62% da população não se exercita. Mulheres (59%), pessoas com ensino fundamental completo (65%) e indivíduos com renda de até dois salários mínimos (64%) enfrentam barreiras ainda maiores. A inatividade também é alta entre 35 e 59 anos (57%) e para quem tem 60 anos ou mais (56%). Em contraste, aqueles com ensino superior (43%) e renda acima de cinco salários mínimos (38%) mostram níveis de sedentarismo consideravelmente menores, evidenciando que o acesso e as condições socioeconômicas desempenham um papel decisivo na saúde da população.

Esses achados não são isolados; eles ecoam tendências observadas em pesquisas prévias. A Vigitel, do Ministério da Saúde, por exemplo, apontou que, em 2024, 42,3% dos adultos nas capitais do Brasil praticavam atividade física, um avanço em relação aos 34,9% registrados dez anos antes, mas ainda longe do ideal.

Especialistas alertam que os números refletem fatores estruturais complexos, que transcendem a simples escolha individual. Bruno Gualano, professor e presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que o acesso a condições adequadas molda diretamente o comportamento da população.

Gualano contesta a ideia de que a inatividade seja sinônimo de preguiça. "Há um discurso, sobretudo nas redes sociais, de que quem não faz exercício físico é preguiçoso. Mas a questão é muito mais de falta de acesso. A literatura científica mostra que o contexto, o ambiente, molda a adesão ao exercício. Se você mora numa região que tem parque, praça, mais iluminação, calçadas, a sua chance de ser ativo é maior. As condições de segurança, por exemplo, para se exercitar na rua, são ainda mais importantes no contexto do gênero", explica o professor, sublinhando a dimensão social da saúde.

Complementando essa visão, Pedro Henrique Deon, professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), enfatiza que a rotina exaustiva da população, marcada por limitações de tempo e excesso de cansaço, representa um entrave significativo. "No Brasil, isso aparece de forma ainda mais clara quando a gente vê que a prática é menor em grupos socialmente mais vulneráveis, como pessoas com menor escolaridade e menor renda. Então, não é só uma escolha individual", argumenta Deon, reforçando a complexidade do problema.

Globalmente, a inatividade física também figura como um grave problema de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde estima que 31% da população adulta mundial — um alarmante total de 1,8 bilhão de pessoas — não alcança os níveis mínimos recomendados de atividade física. Esse índice, que já preocupa, cresceu cinco pontos percentuais entre 2010 e 2022, indicando uma deterioração contínua dos hábitos de vida.

Para reverter esse quadro, a entidade recomenda que adultos se dediquem a 150 a 300 minutos semanais de atividade física moderada, ou 75 a 150 minutos de exercícios de maior intensidade. Uma dica prática para avaliar a intensidade é verificar a capacidade de manter uma conversa: se for possível, o exercício é moderado. Se a inatividade persistir e crescer, a projeção sombria é que, até 2030, 35% da população adulta global estará aquém dos níveis recomendados. O impacto econômico dessa tendência é igualmente alarmante, com custos estimados em cerca de US$ 27 bilhões anuais para os sistemas de saúde entre 2020 e 2030.

A pandemia de COVID-19 também deixou sua marca, influenciando drasticamente os hábitos da população. Deon observa uma dualidade: "Depois da pandemia, houve uma mudança de comportamento no cuidado com a saúde. As pessoas passaram a falar mais sobre prevenção, qualidade de vida, saúde mental e bem-estar. Isso foi positivo. Só que, ao mesmo tempo, a pandemia também deixou uma herança de rotina mais sedentária, mais tempo sentado e mais dificuldade de retomar hábitos regulares", pondera, destacando os desafios contemporâneos para a saúde.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário