RISCO GLOBAL
Sant'Anna: EUA são cruciais no "cerco" chinês a Taiwan
Analista da CNN Brasil detalha as complexidades geopolíticas e o jogo de influência de Pequim na Ásia-Pacífico.
O cenário geopolítico na Ásia-Pacífico vive um debate intenso sobre o futuro de Taiwan. Analistas, como Lourival Sant'Anna da CNN Brasil, explicam que a possibilidade de uma ação chinesa contra a ilha, embora não seja de ocupação territorial clássica, ganha contornos complexos após a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping. Um movimento dessa magnitude reverberaria globalmente, afetando desde a economia vital dos semicondutores até a autonomia da região.
Lourival Sant'Anna, renomado analista de internacional da CNN Brasil, destaca que a questão transcende uma invasão militar direta. O papel dos Estados Unidos, por exemplo, surge como um fator decisivo para o desfecho de qualquer cenário. "Com exceção de Taiwan e de ilhas artificiais e de disputa que tem sobre arquipélagos com o Japão e com as Filipinas, a China não tem pretensões de ocupar e de colonizar os territórios", explicou Sant'Anna, reforçando que a estratégia chinesa foca mais na expansão de poder econômico e político.
A "muralha marítima" e as zonas de influência
Taiwan, assim como o Japão e a Península da Coreia, está inserida na chamada "primeira cadeia de ilhas", uma série estratégica que se estende até o Havaí. Lourival descreve essa formação como "a muralha da China marítima", uma barreira protetora que, sob a perspectiva chinesa, defenderia o país de adversários pelo mar, tal qual a Grande Muralha o fez por terra. Para a China, a região da Ásia-Pacífico deveria naturalmente estar sob sua liderança.
Essa visão se alinha, segundo o analista, a uma perspectiva atribuída a Trump: a de que as três potências nucleares dividiriam o mundo em esferas de influência. O Leste Europeu para a Rússia, o Leste Asiático e o Mar do Sul da China para a China, as Américas para os Estados Unidos, e o Oriente Médio como uma zona de constante disputa.
Semicondutores: o ponto nevrálgico e o cronograma eleitoral
A questão dos semicondutores surge como um obstáculo inegociável. "Os Estados Unidos não têm como abrir mão de Taiwan para a China neste momento", enfatiza Lourival. A ilha é o principal polo produtor global desses componentes essenciais para a tecnologia moderna.
Adicionalmente, um cronograma político crucial se aproxima: em janeiro de 2028, Taiwan realizará eleições. A China, nesse ínterim, estaria buscando influenciar o processo para atrair a ilha à sua órbita, buscando evitar um conflito armado.
Antes da cúpula com Trump, o regime chinês recebeu representantes do Kuomintang, partido de oposição em Taiwan. Lourival Sant'Anna relembra que o Kuomintang foi o partido de Chiang Kai-shek, que, em 1948, perdeu a guerra civil contra os comunistas na China e se refugiou na ilha de Formosa. Com o passar do tempo, o partido teria mudado sua orientação e se aproximado do regime chinês.
O modelo Hong Kong e a estratégia do cerco gradual
O analista traça um paralelo com os eventos de Hong Kong durante o primeiro mandato de Donald Trump. Naquela ocasião, após a China impor a Lei de Segurança Nacional, o governo americano revogou o status comercial especial de Hong Kong. Essa medida, contudo, acabou por consolidar o domínio chinês sobre o território, com um efeito oposto ao esperado por Washington.
"Foi, no fim, politicamente, isso teve o efeito contrário", avaliou Sant'Anna.
Xi Jinping, sugere Lourival, possivelmente recorda desse episódio e pode replicar a estratégia em Taiwan: um bloqueio naval inicial para sufocar o comércio, seguido do reconhecimento americano da perda do status comercial autônomo da ilha. "Xeque-mate, fato consumado. Taiwan entra para a órbita da China", resume o analista, indicando que os Estados Unidos, bem como a Europa, talvez não teriam desejo ou condições políticas e militares de reagir a um cerco dessa natureza.
A estratégia chinesa: Go, não xadrez
Para desvendar a lógica estratégica de Pequim, Lourival Sant'Anna evoca uma analogia famosa, atribuída ao diplomata Henry Kissinger em seu livro sobre a China: os chineses não jogam xadrez. No xadrez, o objetivo é derrubar o rei diretamente, alcançando uma vitória clara.
Eles jogam Go, um jogo oriental de cerco e asfixia gradual. "Na maioria das vezes, no Go, não se sabe quem ganhou. É inconclusiva a partida. Não tem um vencedor. Mas tem asfixia, tem o cerco. Isso é muito mais chinês", conclui o analista, ilustrando a sutileza e a paciência da estratégia de poder de Pequim, que ameaça minar a autonomia de Taiwan sem um conflito aberto.
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