PERIGO NO CAFÉ
Relatório da Coffee Watch alerta para uso massivo de pesticidas na produção mundial de café, expondo trabalhadores
Relatório "Poison in Your Coffee" revela que milhões de trabalhadores rurais no Brasil e em outros países estão expostos a agrotóxicos perigosos, com substâncias proibidas na União Europeia. O Brasil é o maior produtor mundial de café e central no debate.
{"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"A organização Coffee Watch lançou um alerta contundente: milhões de trabalhadores rurais envolvidos na produção global de café estão expostos a pesticidas potencialmente perigosos. O relatório, intitulado "Poison in Your Coffee" (Veneno no seu café), aponta que, embora a presença de resíduos químicos na bebida consumida diariamente desperte preocupação, a situação dos trabalhadores na origem da cadeia produtiva é a "verdadeira tragédia". Como maior produtor e exportador mundial, o Brasil ocupa posição central neste debate, com trabalhadores rurais frequentemente aplicando pesticidas sem equipamentos de proteção adequados e com substâncias proibidas na União Europeia sendo autorizadas."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O estudo, publicado nesta terça-feira, 23/06/2026, reúne centenas de pesquisas científicas e evidencia que o café está entre as culturas agrícolas mais dependentes de pesticidas em diversos países. A publicação detalha que 159 substâncias ativas foram identificadas para o cultivo, incluindo compostos classificados como potencialmente cancerígenos, neurotóxicos ou tóxicos para a reprodução. Segundo a Coffee Watch, entre 59% e 60% dos pesticidas utilizados na cafeicultura são proibidos na União Europeia pelos riscos considerados excessivos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Entre os produtos mencionados estão o clorpirifós, proibido na União Europeia desde 2020 por possíveis efeitos sobre o desenvolvimento neurológico infantil, e o imidacloprido, inseticida associado ao declínio de polinizadores como as abelhas. A servidora Etelle Higonnet, diretora da Coffee Watch e coautora do estudo, enfatiza: "Há resíduos de pesticidas em aproximadamente uma de cada cinco xícaras consumidas pelos consumidores. Mas a verdadeira tragédia é o envenenamento dos trabalhadores"."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A cadeia global do café envolve cerca de 25 milhões de produtores e aproximadamente 100 milhões de trabalhadores. Em muitas regiões, o acesso a treinamento e equipamentos de proteção é insuficiente, resultando em exposição frequente a produtos químicos. Intoxicações agudas podem causar sintomas como náuseas, vômitos, tontura e problemas respiratórios. A longo prazo, o relatório aponta que cerca de 14% dos pesticidas usados na cafeicultura são classificados como cancerígenos, enquanto quase dois terços apresentam potencial toxicidade reprodutiva. Pesquisas também associam a exposição prolongada a doenças neurodegenerativas, como Parkinson, além de problemas de fertilidade e efeitos no desenvolvimento infantil.  No contexto brasileiro, estudos citados pela Coffee Watch indicam que trabalhadores rurais aplicam pesticidas sem proteção adequada. Pesquisas em regiões cafeeiras de Minas Gerais revelam casos recorrentes de intoxicação e exposição ocupacional a produtos perigosos. Diversos pesticidas autorizados no Brasil são proibidos na União Europeia por serem altamente tóxicos para seres humanos e a biodiversidade. Além disso, pesquisas em Minas Gerais detectaram resíduos de dezenas de pesticidas em cursos d'água próximos a áreas de produção, levantando preocupações ambientais e sobre o abastecimento de água local."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A expansão da cafeicultura também gera preocupações ambientais. Um levantamento da Coffee Watch aponta que o Brasil perdeu cerca de 737 mil hectares de cobertura florestal associados à produção de café entre 2002 e 2023, principalmente no Cerrado. Mesmo para o consumidor final, a preocupação persiste: entre 2020 e 2024, pesticidas foram a principal categoria de risco identificada pelo sistema europeu de alerta rápido para alimentos no setor cafeeiro. Dados da PAN Europe mostram que 23% das amostras de café avaliadas na Europa continham resíduos de pesticidas proibidos pela União Europeia, muitas vezes em combinação, cujos efeitos cumulativos são pouco compreendidos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O relatório questiona a eficácia de alguns selos de sustentabilidade, afirmando que certificações ambientais e sociais, embora importantes, não garantem a ausência de pesticidas nem condições de trabalho dignas para todos. "As exigências variam muito entre os diferentes sistemas de certificação, o que dificulta a compreensão por parte do consumidor", explica Higonnet. Apesar do cenário preocupante, a Coffee Watch aponta para soluções viáveis, como sistemas agroflorestais e práticas agroecológicas, que reduzem a dependência de pesticidas, preservam a biodiversidade e melhoram a qualidade do solo. "O café orgânico existe. As soluções existem. A questão agora é saber se o setor está disposto a adotá-las em larga escala", conclui a organização."}}]},
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