IMPACTO E MUDANÇA
Quase 60% dos brasileiros reduziram compras internacionais após "taxa das blusinhas"; Lula decide pôr fim à cobrança
Levantamento da CNDL revela que 59% dos consumidores frearam gastos com importados entre junho de 2024 e junho de 2025; presidente Luiz Inácio Lula da Silva revoga imposto de 20% sobre compras de até US$ 50, mas medida provisória depende de aval do Congresso e já gera forte reação do setor produtivo nacional.
Quase 60% dos brasileiros reduziram drasticamente suas compras em sites internacionais ou as abandonaram completamente entre junho de 2024 e junho de 2025, aponta recente levantamento da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas). Esta mudança no comportamento do consumidor, atribuída à polêmica “taxa das blusinhas”, que incidia 20% sobre importações de até US$ 50, ganhou um novo capítulo político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu pôr fim a esta cobrança, num movimento que, para muitos, busca reverter a insatisfação popular e fortalecer sua base eleitoral, mas que já enfrenta forte resistência do setor produtivo nacional.
Os dados da CNDL são claros: 59% dos brasileiros diminuíram ou pararam de comprar em plataformas estrangeiras no período analisado. Desse total, impressionantes 18% afirmaram que cessaram completamente suas aquisições em sites de outros países. A cobrança de 20% sobre importações de até US$ 50 entrou em vigor em 1º de agosto de 2024, alterando significativamente a dinâmica de consumo.
Apesar da redução expressiva, 96% dos brasileiros ainda realizaram compras em sites internacionais de junho de 2024 a junho de 2025, mesmo com a presença da “taxa das blusinhas”. Contudo, o percentual de consumidores que compraram em plataformas estrangeiras caiu de 97,6% para 95,8% entre 2024 e 2025, uma queda de quase 2 pontos percentuais.
Em contraste, o percentual de brasileiros que fizeram compras em sites nacionais registrou um declínio ainda maior, de 18 pontos percentuais no mesmo período, passando de 89% para 70,9%.
A pesquisa da CNDL foi conduzida de 13 a 25 de junho de 2025, com 1.094 entrevistas para mapear o comportamento de compra online nos 12 meses anteriores. As perguntas sobre sites internacionais foram direcionadas aos 800 entrevistados que confirmaram ter realizado compras do tipo. A margem de erro estimada é de 2,96 e 3,46 pontos percentuais, respectivamente. O documento completo pode ser acessado em PDF (2 MB).
O Fim do Imposto
O presidente Lula assinou a medida provisória que revoga a “taxa das blusinhas” em uma reunião de gabinete fechada, sem a presença de jornalistas e fora de sua agenda pública oficial. A decisão é vista como parte de uma estratégia eleitoral do governo para uma possível campanha a um 4º mandato presidencial. A medida assinada, porém, não interfere na cobrança de ICMS, imposto estadual que continua a incidir sobre essas importações.
A medida provisória tem validade de até 120 dias, exigindo a aprovação do Congresso Nacional nesse período para se tornar definitiva. Caso contrário, a MP perde a eficácia e o imposto de 20% retorna. Durante o recesso parlamentar de julho, o prazo para de contar. No entanto, com as eleições de outubro se aproximando, o Congresso geralmente adia votações importantes no 2º semestre, gerando incerteza sobre o futuro da medida.
Curiosamente, a “taxa das blusinhas”, agora alvo de críticas de Lula e de parte de seus aliados, foi defendida e implementada pela própria equipe econômica do governo e contou com o apoio de membros do Planalto para entrar em vigor, conforme apurado pelo Poder360.
Reação da Indústria
A decisão do governo Lula desencadeou uma reação imediata e contundente de entidades representativas da indústria e do varejo, além de plataformas de comércio internacional.
Em nota (íntegra – PDF – 77 kB), a CNI (Confederação Nacional da Indústria) declarou que a revogação representa uma “vantagem concedida a indústrias estrangeiras em detrimento do setor produtivo nacional”. A entidade alerta que a medida impactará especialmente micro e pequenas empresas, podendo resultar em perda de empregos no país.
A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) classificou o fim da cobrança como “extremamente equivocada”, argumentando que a medida aprofunda a desigualdade tributária entre as empresas brasileiras e as plataformas internacionais.
“É inadmissível que empresas brasileiras arquem com elevada carga tributária, juros reais altíssimos e custos regulatórios enquanto concorrentes estrangeiros recebem vantagens ainda maiores para acessar o mercado nacional”, reiterou a Abit, destacando a injustiça competitiva.
A associação também ressaltou que a decisão pode comprometer a arrecadação pública. Dados da Receita Federal indicam que, de janeiro a abril de 2026, o imposto sobre importações de até US$ 50 gerou R$ 1,78 bilhão, um aumento de 25% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
A Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil) manifestou seu “repúdio com veemência” ao término da tributação. Para a entidade, a medida configura um “grave retrocesso econômico e um ataque direto à indústria, ao varejo nacional e aos 18 milhões de empregos gerados no Brasil”, além de poder “penalizar as empresas brasileiras, especialmente as micros e pequenas, que produzem, empregam e sustentam a arrecadação do país”.
A Abvtex defendeu a implementação de medidas compensatórias urgentes para prevenir o fechamento de empresas e a perda de postos de trabalho. A íntegra da nota está disponível em PDF (106 kB).
A Frente Parlamentar Mista em Defesa da Propriedade Intelectual e Combate à Pirataria também se posicionou contra a decisão.
“Não existe competitividade quando o empresário brasileiro paga impostos altos e o produto importado entra sem tributação. Isso prejudica empregos, produção nacional e o comércio formal”, afirmou o presidente da frente, deputado Júlio Lopes (PP-RJ).
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