MAIO LARANJA: SINAIS DE ALERTA

Psicóloga Amanda Palácio alerta para sinais de abuso sexual infantil e reforça importância do acolhimento no Maio Laranja

Psicóloga Amanda Palácio falando sobre abuso infantil.
A campanha Maio Laranja busca conscientizar e combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Psicóloga Amanda Palácio, em entrevista à Band RN, detalhou a importância do diálogo, prevenção e acolhimento para proteger crianças e adolescentes contra o abuso e a exploração sexual. A especialista enfatizou a necessidade de escuta sem julgamentos e orientação sobre limites corporais.

O combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes exige diálogo, acolhimento e prevenção dentro das famílias, escolas e redes de apoio. O alerta foi feito pela psicóloga Amanda Palácio durante entrevista à Band RN nesta sexta-feira, 21 de Maio de 2026, dentro da campanha Maio Laranja.

Segundo a especialista, os casos de abuso sexual infantil ‘sempre aconteceram’, mas permanecem, muitas vezes, em silêncio, principalmente porque costumam ocorrer em ambientes próximos da vítima. ‘Casos de abuso e exploração sempre aconteceram, mas na maioria das vezes é silencioso, porque não acontece em contextos que são muito distantes da família, do que a criança vive ali. Muitas vezes acontece de pessoas próximas mesmo, o agressor, o violador, ele é uma pessoa próxima’, afirmou.

Maio Laranja: psicóloga alerta para sinais de abuso sexual infantil

Amanda destacou que sentimentos como medo, vergonha e culpa dificultam que crianças e adolescentes revelem a violência sofrida. Por isso, segundo ela, o acolhimento é fundamental no momento em que a vítima tenta falar sobre o assunto. ‘A primeira coisa é a gente entender que para a criança falar o que está acontecendo, ela precisa se sentir acolhida. A criança ou o adolescente já está, por si só, permeado por muitos medos, vergonha, culpa também pelo que aconteceu’, disse.

Ela explicou ainda que o trauma interfere diretamente na organização emocional e na memória da vítima, o que pode fazer com que os relatos sejam fragmentados ou tardios. ‘O cérebro da criança e adolescente sob efeito, a partir de um trauma, não está com a memória boa, não organiza muito bem os pensamentos, então podem vir falas fragmentadas, pode vir uma revelação tardia, e ele não vai falar se ele não se sentir acolhido e seguro’, afirmou.

A psicóloga orientou pais, mães, professores e responsáveis a evitarem falas que culpabilizem a vítima. Segundo ela, frases como ‘você deveria ter me dito’ ou ‘por que você não falou?’ podem intensificar o sofrimento emocional. ‘Essas frases potencializam aquele sofrimento que a criança está sentindo, tem que ter muito cuidado da forma de abordar’, declarou.

Amanda ressaltou que o acolhimento deve considerar a faixa etária e o nível de desenvolvimento da criança ou adolescente. ‘É diferente quando a gente conversa com uma criança de 3, 4 anos para um adolescente de 15 anos. A gente precisa ter um acolhimento diferenciado de acordo com a faixa etária’, explicou.

A psicóloga também abordou a importância da prevenção dentro de casa e afirmou que conversar sobre limites do corpo e sexualidade não significa ‘sexualizar’ crianças. ‘A gente chama de fazer uma psicoeducação. Falar sobre o tema não significa que a gente vai sexualizar a criança ou vai estimular algo sexualizado nela’, afirmou.

Segundo ela, é importante ensinar desde cedo que o corpo da criança deve ser respeitado e que determinadas partes íntimas só podem ser tocadas em situações específicas de higiene e cuidado. ‘É importante que a criança saiba que o seu corpo precisa ser respeitado, e que nós temos partes íntimas, que elas só podem ser tocadas por outras pessoas em momentos de higiene e em momentos de cuidado’, disse.

Amanda orientou ainda que crianças sejam incentivadas a procurar adultos de confiança caso sintam desconforto com algum toque ou situação. ‘Ela precisa entender isso. Ela falar sobre isso não é algo ruim. Esconder, sim, gera sentimentos ruins’, afirmou.

No caso dos adolescentes, a psicóloga defendeu conversas mais abertas sobre relacionamentos abusivos, exposição nas redes sociais e compartilhamento de imagens íntimas. ‘Na adolescência, a gente começa a viver os relacionamentos amorosos, então ter cuidado com relacionamentos abusivos, pressão emocional dos nossos parceiros ou parceiras, o cuidado com a exposição, a tela, a rede social principalmente, as questões das fotos, com nudez’, destacou.

Amanda reforçou que a maior parte das violações ocorre dentro do círculo de convivência da vítima, muitas vezes envolvendo familiares próximos. ‘Essas violações acontecem de pessoas próximas, às vezes é tio, é tia, é pai, avô, é parente, até mais próximo dentro do núcleo familiar’, afirmou.

Ela disse que o adulto responsável deve escutar a criança sem julgamentos e acreditar no relato apresentado. ‘É olhar para a criança e acreditar no que ela está falando, não importa da forma como ela fala’, disse.

A especialista também explicou que mudanças de comportamento podem indicar sofrimento emocional e devem ser observadas por famílias e escolas. ‘Uma criança que é mais expansiva, que é comunicativa, prefere estar mais em casa, prefere não sair, evita determinadas pessoas, a criança pode ficar mais agressiva, a criança pode ter dificuldades para dormir, acordar com pesadelos’, relatou.

Apesar disso, ela ponderou que esses sinais não confirmam, isoladamente, um caso de abuso. ‘Esse sinal de alerta, é importante ressaltar que eles não confirmam que de fato o abuso aconteceu, mas é um sinal de sofrimento e que precisa ter atenção’, explicou.

Amanda também falou sobre o papel das escolas no acolhimento e na condução de situações envolvendo violência sexual. Segundo ela, as instituições costumam ter protocolos internos para lidar com os casos e devem evitar expor a vítima. ‘É muito importante que seja priorizada a discrição, evitar perguntas, interrogatórios e dar detalhes para terceiros, para pessoas que não estão envolvidas ali sobre a situação’, afirmou.

A psicóloga defendeu ainda que as crianças sejam ensinadas a impor limites físicos desde cedo, inclusive em situações socialmente naturalizadas, como abraços e demonstrações de afeto. ‘Quando ela diz ‘não, eu não quero abraçar você’, ‘eu não quero abraçar o meu tio’, é importante que a gente vá psicoeducando essa criança a dizer o não’, disse. Segundo Amanda, essa construção ajuda a criança a compreender que pode recusar situações desconfortáveis e buscar ajuda. ‘Isso vai fazendo a criança entender que ela pode dizer não, e isso pode ser um fator de proteção lá na frente’, declarou.

Nos casos em que a violência sexual é confirmada, a orientação é buscar apoio psicológico imediato e acionar a rede de proteção. ‘Precisa de ajuda especializada’, disse.

Amanda lembrou que Natal possui delegacia especializada e que o Conselho Tutelar também integra a rede de suporte. ‘Existe hoje uma rede de suporte que pode ajudar esse pai a conduzir em vários âmbitos que são necessários’, afirmou.

A psicóloga também direcionou uma mensagem para adultos que sofreram abuso sexual na infância e podem reviver traumas durante a campanha Maio Laranja. Ela ressaltou que crianças vítimas de abuso não possuem compreensão sobre a gravidade da situação no momento em que ela ocorre. Amanda concluiu afirmando que ‘nunca é tarde para procurar ajuda’.

O Maio Laranja é a campanha anual de conscientização e enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. O mês foi escolhido em alusão ao 18 de Maio, instituído como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil pela Lei Federal 9.970/2000.

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