TENSÃO NA BOLÍVIA

Protestos generalizados paralisam a Bolívia e pressionam governo Paz

Manifestantes bolivianos em bloqueio de estrada, com veículos parados ao fundo e fumaça em protesto.
Imagem ilustrativa dos protestos e bloqueios de estradas na Bolívia.

Apoio de Evo Morales intensifica mobilização. País sofre com falta de alimentos e combustível.

A Bolívia vive um cenário de grave tensão social e humanitária. Manifestantes, incluindo apoiadores do ex-presidente Evo Morales e diversos sindicatos, intensificaram nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, as ações que há quase duas semanas bloqueiam estradas cruciais. A mobilização, inicialmente motivada pela insatisfação com as medidas de austeridade do governo Rodrigo Paz e o aumento do custo de vida, provocou uma alarmante escassez de alimentos, combustível e suprimentos médicos em todo o país, impactando diretamente a vida e a dignidade dos cidadãos bolivianos.

Caminhões de carga essenciais permanecem parados nas rodovias, interrompendo o abastecimento e o acesso a serviços básicos. A crise é tão aguda que pacientes não conseguem chegar a hospitais, resultando em mortes e levando a Argentina a enviar uma aeronave militar com alimentos, atendendo a um pedido de socorro da própria Bolívia.

As manifestações, que se iniciaram com greves no começo de maio, rapidamente evoluíram para um movimento nacional abrangente. Sindicatos de trabalhadores, mineiros, profissionais do transporte e grupos rurais uniram-se na pressão contra o governo do presidente Rodrigo Paz. Eles exigem a reversão das políticas de austeridade e soluções eficazes para o custo de vida crescente, com alguns setores até pedindo a renúncia do mandatário.

Analistas apontam que a agitação transcendeu as queixas pontuais, transformando-se em um sentimento antigovernamental generalizado, refletindo uma profunda preocupação com a direção econômica do país.

O centro das reivindicações reside nas crescentes pressões econômicas. Professores clamam por salários mais dignos e mais recursos para a educação, enquanto sindicatos do transporte lançaram greves por tempo indeterminado devido à escassez de combustível e à insegurança no abastecimento. Paralelamente, grupos indígenas e rurais se opõem às reformas agrárias que, em sua visão, beneficiam apenas grandes proprietários de terras. Mesmo após a revogação de uma controversa lei agrária neste mês pelo governo, os protestos persistiram, evidenciando a complexidade do descontentamento.

Rodrigo Paz, que assumiu a presidência em novembro e herdou uma economia já fragilizada, defende os cortes de gastos e a redução dos subsídios aos combustíveis como medidas indispensáveis para estabilizar as finanças públicas. Seu governo prepara um pacote de reformas a ser enviado ao Congresso, que prevê o levantamento gradual dos controles de preços dos combustíveis e a implementação de ações para impulsionar a produção energética doméstica e atrair investimentos.

Em uma tentativa de aliviar as tensões, o governo tem buscado negociações e oferecido aumentos salariais. Simultaneamente, mobilizou cerca de 3.500 membros das forças de segurança para desobstruir as vias. As autoridades informaram que aproximadamente 57 pessoas foram presas. O governo atribui à oposição e aos aliados de Evo Morales a responsabilidade por incitar os bloqueios, que, segundo ele, já contribuíram para pelo menos três mortes, incluindo pacientes que não conseguiram acessar unidades de saúde.

Evo Morales, que liderou a Bolívia de 2006 a 2019, manifestou apoio aos protestos, caracterizando-os como uma resposta às adversidades econômicas e à perseguição política. Apoiadores de Morales se reuniram em grande número após a decisão de um juiz, no início deste mês, que considerou o ex-presidente em desacato por não comparecer a uma audiência em um caso de tráfico. Morales nega veementemente qualquer irregularidade. “Enquanto as demandas estruturais, como combustível, alimentos e inflação, não forem atendidas, a revolta não será interrompida”, escreveu ele na rede X.

Até o momento, a reação do mercado financeiro tem sido contida, em parte devido à pouca negociação dos títulos soberanos da Bolívia. O prêmio que os investidores exigem para deter a dívida boliviana em comparação com títulos semelhantes do Treasury dos EUA registrou queda em maio, atingindo o patamar mais baixo desde 2020, conforme dados da LSEG. Contudo, analistas alertam para a escalada dos riscos.

“A Bolívia está imersa em um período de estresse social e político, à medida que uma crescente greve nacional se soma a protestos em massa e bloqueios generalizados de estradas”, pontuou o JPMorgan em nota aos clientes.

Bloqueios de estradas são, historicamente, uma tática recorrente de manifestantes na Bolívia. Durante o governo do ex-presidente Luis Arce, paralisações semelhantes, lideradas por facções leais a Morales, bem como por grupos rurais e de mineração, já haviam, por vezes, paralisado as principais rotas de transporte e causado prejuízos bilionários. Analistas afirmam que o presidente Paz enfrenta o imenso desafio de estabilizar a economia enquanto tenta construir novas alianças políticas e sociais em um cenário altamente polarizado.

“Não há soluções fáceis ou rápidas à vista”, concluiu o economista Gonzalo Chávez.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário