DEBATE ELEITORAL INTENSO
Pré-candidatos à Presidência dividem-se sobre Urnas Eletrônicas
Três dos doze postulantes ao Palácio do Planalto criticam o sistema de votação, defendendo o voto impresso; outros o consideram seguro, enquanto o TSE celebra 30 anos do Voto Eletrônico.
Em meio à celebração dos 30 anos da Urna Eletrônica no Brasil, o debate sobre sua segurança e transparência reacende a pauta política, revelando divergências significativas entre os Pré-candidatos à Presidência da República para as eleições deste ano. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conduz nesta segunda-feira, 04 de maio de 2026, um evento comemorativo sob a liderança da ministra Cármen Lúcia, três dos doze postulantes ao cargo máximo do Executivo Federal expressam críticas ao sistema e defendem a implementação do voto impresso. Essa polarização ressalta a complexidade de garantir a plena confiança dos eleitores no processo democrático, um pilar fundamental para a estabilidade do país.
A confiança do cidadão no voto é a essência de uma democracia robusta. Quando surgem questionamentos sobre a ferramenta que registra essa vontade popular, a própria legitimidade do processo eleitoral pode ser abalada. Embora o sistema eletrônico tenha sido aprovado em diversas auditorias e testes públicos de segurança, sem comprovação de fraudes ao longo de seus 30 anos de uso no Brasil – iniciados em 1996 em projeto piloto e estendidos a todo o país a partir de 2000, agilizando a apuração e combatendo fraudes do voto em papel –, a desconfiança persiste em parte do eleitorado e entre alguns líderes políticos.
O Poder360 levantou as posições de cada Pré-candidato à Presidência da República por meio de publicações em redes sociais, declarações à mídia ou contato direto com suas equipes, oferecendo um panorama completo sobre o que pensam acerca das Urnas Eletrônicas.
Leia o que pensam os 12 Pré-candidatos à Presidência:
Aldo Rebelo (DC)
Aldo Rebelo, em entrevista ao Poder360, defendeu a manutenção das Urnas Eletrônicas, mas pontuou que sempre existiu no Brasil uma desconfiança sobre a segurança do sistema eletrônico. Ele esclareceu que essa percepção não indica uma insegurança sobre o processo eleitoral como um todo, mas especificamente sobre as urnas. O Pré-candidato argumentou que a vulnerabilidade é inerente a qualquer sistema eletrônico. Para ele, a resposta a essa questão não deve ser a proibição do debate, mas sim a implementação de medidas que reduzam a vulnerabilidade, aumentem a proteção e minimizem os riscos. Rebelo defende a adoção de "alternativas que compatibilizem o voto eletrônico com outro sistema".
Augusto Cury (Avante)
Em nota enviada ao Poder360, o Pré-candidato Augusto Cury considerou as Urnas Eletrônicas "seguras" e afirmou ter "confiança no sistema". "Ao mesmo tempo, reconheço que milhões de brasileiros ainda se sentem inseguros. Por isso, não vejo problema em estudar mecanismos adicionais de transparência, como amostragens auditáveis, desde que não comprometam o sigilo do voto nem a eficiência do processo", declarou.
Cabo Daciolo (Mobiliza)
Cabo Daciolo, em 2018, enquanto candidato à Presidência, solicitou ao TSE a anulação do 1º turno das eleições, alegando, sem apresentar provas, a existência de "várias fraudes". Três anos depois, em 2021, Daciolo foi intimado a depor no TSE no inquérito que investiga a disseminação de informações falsas sobre fraudes nas urnas. Na ocasião, ele afirmou: "Temos várias denúncias de fraudes das Urnas Eletrônicas. Em todo o território nacional, as pessoas iam votar e quando chegavam lá para votar para presidente não concluía. Quando tem fragilidade nas Urnas Eletrônicas, é necessário, em caso excepcional, que o TSE faça votação em cédulas".
Edmilson Costa (PCB)
Questionado sobre as Urnas Eletrônicas pelo Poder360, o Pré-candidato à Presidência pelo PCB, Edmilson Costa, disse que o método de votação é seguro. "As Urnas Eletrônicas brasileiras são altamente seguras, com uma tecnologia das mais avançadas do mundo", afirmou Costa.
Flávio Bolsonaro (PL)
Flávio Bolsonaro defende a impressão do voto da Urna Eletrônica, com o depósito automático dos papéis em uma urna de acrílico. A proposta visa permitir que, diante de acusações de fraude no sistema eletrônico, os votos em papel possam ser apurados manualmente. Em 08 de janeiro de 2021, o senador publicou no X que hackers já haviam invadido sistemas mais complexos.
Em outubro de 2022, antes do 2º turno das eleições presidenciais, Flávio afirmou em entrevista ao jornal O Globo que não havia registro de fraude nas Urnas Eletrônicas no 1º turno. Contudo, no decorrer da entrevista, ele modificou seu discurso, declarando que as Forças Armadas ainda estavam em fase de "coleta de informações" para um relatório que, posteriormente, o então Presidente Jair Bolsonaro anunciou que não seria publicado. Previamente, em 2018 e 2017, Flávio já havia expressado em redes sociais que não seria possível garantir a ausência de fraude nas Urnas Eletrônicas e que o voto impresso seria essencial para o "sepultamento" da velha política.
Hertz Dias (PSTU)
Hertz Dias afirmou que não existem motivos para questionar o resultado das Urnas Eletrônicas, mas que o principal problema do sistema eleitoral está antes delas, no controle exercido pelo "grande capital". Ele argumentou que "o problema do sistema eleitoral tem a ver com o total controle do grande capital sobre o pleito, começando por regras absolutamente antidemocráticas, que perpetuam sempre os mesmos partidos e os mesmos projetos, que mantém o status quo e o atual regime e sistema, impedindo novos projetos que contestem essa ordem capitalista." Segundo Dias, "a extrema direita questiona as Urnas Eletrônicas, não para "aperfeiçoar" o sistema eleitoral de forma a torná-la mais democrática, mas, ao contrário, como instrumento para impor um regime ainda mais antidemocrático, ou, na prática, uma ditadura".
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, classificou as críticas de Bolsonaro às Urnas Eletrônicas como "idiotice". Em 2021, o petista elogiou o Congresso por rejeitar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso, qualificando a tentativa como "a volta dos dinossauros". Curiosamente, em 2002, antes de ser eleito pela primeira vez, Lula havia defendido a adoção de mecanismos de verificação dos resultados das Urnas Eletrônicas, incluindo a impressão de comprovantes de voto para posterior conferência.
Renan Santos (Missão)
Renan Santos criticou nas redes sociais apoiadores e aliados do ex-Presidente Jair Bolsonaro que desconfiam das Urnas Eletrônicas. Em agosto de 2021, ele os chamou de "sabujos do voto impresso". Na época, Santos também escreveu que "capachismo no voto impresso" acabou com qualquer chance de reunificação da direita.
Romeu Zema (NOVO)
O Pré-candidato do NOVO, Romeu Zema, afirmou à CNN em 2021, em meio às críticas do então Presidente Jair Bolsonaro ao voto impresso, que é favorável ao voto eletrônico e contrário à impressão do comprovante. "Eu sou totalmente favorável ao voto que já me elegeu, que elegeu diversos governadores, ex-presidentes. Eu não imprimo a minha conta bancária, não imprimo o extrato do meu cartão de crédito e acho que 99% da população não faz isso, o meio digital veio pra ficar, existe auditoria digital. Então é o mundo moderno!", disse Romeu Zema.
Ronaldo Caiado (PSD)
Em 2018, ainda como senador, Ronaldo Caiado questionou a segurança do sistema do TSE e das Urnas Eletrônicas em Plenário, com a seguinte afirmação: "Só nós descobrimos algo que ninguém consegue invadir, o software do Tribunal Superior Eleitoral. Imagina bem, eles já invadiram o Pentágono… Não consegue invadir o TSE?". Posteriormente, em 2025, Caiado mudou de opinião, declarando em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, que não há motivos para desacreditar as Urnas Eletrônicas. "Nós temos um sistema de segurança total. Ora, evoluir amanhã para que haja também impressão do voto é algo que pode. Não tenho nada contra esse fator complementar à Urna Eletrônica", disse Caiado. O Poder360 buscou a assessoria do Pré-candidato para esclarecer a mudança de posicionamento, e o texto será atualizado em caso de resposta.
Rui Costa Pimenta (PCO)
Em julho de 2022, antes das eleições presidenciais, o Pré-candidato do PCO, Rui Costa Pimenta, afirmou que o melhor voto é no papel e disse que não há como auditar as urnas. Esta afirmação é desmentida pelo TSE. "Nós achamos que o melhor modelo é do voto em papel. Você tem o voto lá, você pode contar a qualquer hora. Qualquer um pode contar os votos. Agora se eu achar que alguma coisa incorreta aconteceu nas eleições, eu não tenho como auditar essa Urna Eletrônica, o cidadão não consegue", disse em entrevista ao jornal O Liberal em 2022.
Samara Martins (UP)
A Pré-candidata à Presidência pela UP, Samara Martins, disse ao Poder360 que o problema do sistema eleitoral não está nas Urnas Eletrônicas, que ela considera confiáveis. Martins defende ampliar seu uso para consultas populares, como plebiscitos sobre temas econômicos e sociais, para aumentar a participação direta da população nas decisões políticas. "O atual processo eleitoral tem vários problemas, mas não consideramos que, entre eles, esteja a Urna Eletrônica. Consideramos, inclusive, que ela deveria ser mais utilizada. Não apenas para eleger parlamentares, mas em plebiscitos para decidir temas como o orçamento público, a legislação trabalhista, o aumento do salário mínimo, entre outras decisões. Com tamanha tecnologia, a Urna Eletrônica poderia ser utilizada com mais frequência, chamando o povo a participar das decisões de tudo o que é fundamental na política, não somente a votar de dois em dois anos", afirmou Samara Martins.
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