FUTURO EM JOGO

Prates: Brasil tem 2 anos para evitar abismo social da IA

Prates: Brasil tem 2 anos para evitar abismo social da IA

Avanço da tecnologia ameaça 25% dos empregos globais; economia brasileira, com foco em serviços, é altamente vulnerável.

O Brasil precisa agir agora para se adaptar à Inteligência Artificial e evitar que o país se torne uma 'Arábia Saudita da computação' em apenas dois ou três anos, alertam especialistas nesta terça-feira, 19 de maio de 2026. A urgência reside em um momento crítico onde a tecnologia redefine o mercado de trabalho global, exigindo reformas profundas na educação, legislação trabalhista e sistema tributário. Caso contrário, a concentração de renda e o impacto social podem ser severos, ameaçando a dignidade de milhões de trabalhadores.

Um alerta sombrio ilustrado na capa de The Economist, com figuras humanas caindo em um redemoinho, levanta uma questão que antes parecia hiperbólica: como nos preparamos para o 'apocalipse de empregos' gerado pela Inteligência Artificial? A publicação, conhecida por sua seriedade, revela que sete em cada dez americanos já acreditam que a IA dificultará a busca por trabalho, e quase um terço teme pela própria vaga. O que era um debate técnico agora move-se para o campo político, refletindo uma preocupação social crescente.

Historicamente, revoluções tecnológicas não geraram desemprego em massa prolongado. A própria Revolução Industrial, muitas vezes citada como um cataclismo operário, teve sua 'pausa de Engels' mais ligada a guerras, tarifas e explosões populacionais do que à mecanização em si. Especialistas apontam que o desafio não está na tecnologia, mas na forma como a transição é governada e gerida.

Contudo, a história pode não ser um guia confiável desta vez. Os avanços da IA surpreendem até os mais céticos. Uma análise empírica de universidades americanas revela um dado inquietante: a taxa de emprego em tempo integral para graduados em áreas como ciência da computação, engenharia de software e sistemas de informação – campos tradicionalmente promissores e expostos à IA – caiu de quase 70% para 55% em três anos. Profissionais de filosofia e engenharia civil, por outro lado, permaneceram praticamente inalterados. Esta é a primeira evidência concreta de que a Inteligência Artificial já impacta a base profissional, precisamente nas áreas consideradas o futuro do trabalho.

Para o Brasil, outro ponto crucial é a distribuição dos ganhos gerados pela IA. Se a tecnologia transferir a maior parte da renda do trabalho para o capital, os Estados Nacionais enfrentarão uma erosão de sua base fiscal. Isso ocorre justamente no momento em que precisarão de mais recursos para gerenciar as transformações sociais e econômicas decorrentes da Inteligência Artificial.

Debates incluem a tributação de lucros excessivos, impostos sobre terras e recursos naturais utilizados por data centers, heranças mais elevadas e até a nacionalização parcial de empresas de IA. Não se trata de um retorno ao socialismo nostálgico, mas de um pragmatismo que reconhece que a concentração de renda em níveis inéditos pode gerar instabilidade social e política. A história recente mostra que o 'China shock', que resultou na perda de cerca de 2 milhões de empregos americanos entre 1999 e 2011, um número aparentemente modesto, foi um fator para a eleição de Donald Trump e o aumento de tarifas. Pequenas alterações no mercado de trabalho de colarinho branco podem ter impactos continentais.

No Brasil, persiste a ilusão de imunidade, ancorada em dados conjunturais positivos. Em 2025, o mercado de trabalho registrou 103 milhões de ocupados, com desemprego em torno de 5,5% e renda real em patamar recorde. Embora verdadeiros, esses números podem ser enganosos. Por trás dessa estabilidade cíclica, a economia de serviços do país é fortemente dependente de setores como call centers, atendimento administrativo, jurídico básico, contabilidade e redação publicitária. Essas são, precisamente, as funções mais vulneráveis à Inteligência Artificial generativa. A OIT estima que 25% dos empregos globais estão ameaçados, e não há motivos para acreditar que o Brasil seja uma exceção a essa tendência global.

A ação imediata é crucial em três frentes. Na educação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) clama por uma atualização urgente. Projetos em tramitação na Câmara dos Deputados para incluir temas como Inteligência Artificial, letramento algorítmico e cidadania digital como obrigatórios não podem permanecer engavetados. O essencial não é apenas ensinar a operar a ferramenta, mas sim capacitar para pensar com ela e, acima de tudo, apesar dela. Isso implica valorizar leitura aprofundada, raciocínio matemático, escrita argumentativa, ética aplicada e ciências experimentais. Os dados dos Estados Unidos mostram que profissionais de áreas que demandam julgamento humano contextualizado foram os menos afetados.

Paradoxalmente, a formação de humanistas pode se tornar a política industrial mais estratégica da próxima década. Instituições como SENAI, SENAC e a rede de Institutos Federais devem ser reestruturadas para oferecer requalificação contínua, por meio de módulos curtos. A experiência da Dinamarca demonstra que políticas ativas de mercado de trabalho são eficazes em reduzir o tempo de desemprego e, a longo prazo, se tornam autossustentáveis.

No âmbito da legislação trabalhista, o cenário é de desafio e oportunidade. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), concebida para o operário de Volta Redonda dos anos 1940, já não abrange nem mesmo o entregador de aplicativo, muito menos o redator que a Inteligência Artificial pode substituir.

É imperativo, portanto, fortalecer o seguro-renda, seguindo o modelo de 'flexicurity' escandinavo, e regular o trabalho plataformizado sem anular a flexibilidade desejada por muitos. Além disso, a introdução cuidadosa de mecanismos de aviso prévio coletivo para empresas que implementarem IA em larga escala é essencial. Há uma simpatia crítica pela iniciativa do Senado, no Projeto de Lei 2338, de reintroduzir salvaguardas trabalhistas mínimas que foram removidas durante a tramitação. Sem essas garantias, a legislação protegerá apenas dados pessoais, negligenciando a vida real daqueles que constroem seu sustento através do trabalho.

No campo da regulação e tributação, o Projeto de Lei 2338, aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e com votação adiada para fevereiro de 2026 na Câmara, representa um avanço importante, inspirado no AI Act europeu, mas precisa de celeridade. Contudo, o debate ainda carece de foco na tributação adequada.

Tributar lucros excessivos, terras e recursos naturais empregados por data centers pode reter parte da riqueza que migrará do trabalho para o capital. O Brasil possui uma vantagem comparativa singular: a capacidade de fornecer energia limpa, abundante e de baixo custo para os data centers que impulsionarão a IA global. A região Nordeste, liderada por estados como Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e Piauí, é o epicentro dessa oportunidade. É crucial não repetir o erro histórico de exportar apenas o insumo bruto. Devemos exigir industrialização local, transferência de tecnologia, uma oferta pública integrada de energia, conectividade e talento, além de uma tributação inteligente sobre a renda gerada. A omissão nos levará a ser a 'Arábia Saudita da computação': ricos nos indicadores macroeconômicos, mas empobrecidos na vida real da população.

A Inteligência Artificial não é uma onda passageira, mas uma maré transformadora. O sucesso ou o colapso de uma sociedade frente a essas profundas transições tecnológicas não depende da velocidade da inovação, mas da robustez de suas instituições. O Brasil dispõe de uma janela limitada, talvez de apenas dois ou três anos, para implementar reformas que antes pareciam secundárias, mas que agora são essenciais para sua própria existência. Aguardar por evidências conclusivas, como adverte The Economist, é a certeza de que será tarde demais. A ação precisa começar imediatamente.

Jean Paul Prates é sócio da Altiva Inteligência Estratégica. Foi senador da República e presidente da Petrobras.

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