SAÚDE PÚBLICA

Por que sua caneta emagrecedora pode não funcionar? Cientistas explicam

Caneta de semaglutida ou tirzepatida, como Ozempic e Wegovy, utilizada para tratamento da obesidade.
Ilustração de caneta aplicadora de medicamento para perda de peso. Foto: Tatsiana Volkava/GettyImages

Um em cada dez pacientes não atinge a perda de peso esperada com semaglutida e tirzepatida. Conitec rejeitou incorporação ao SUS em 2025.

Milhões de pessoas que buscam na ciência um auxílio para a perda de peso enfrentam um desafio crescente: medicamentos como Ozempic e Wegovy, popularmente conhecidos como "canetas emagrecedoras", não demonstram a mesma eficácia para todos os usuários. Levantamentos científicos recentes, atualizados nesta segunda-feira, 27/04/2026, revelam que cerca de um em cada dez pacientes pode não alcançar a redução de peso esperada nos primeiros meses de tratamento. Esta variação, que se intensifica após a quebra da patente da semaglutida em março e diante das discussões sobre acesso no Sistema Único de Saúde (SUS), gera frustração e eleva o debate sobre a personalização da saúde, reforçando a complexidade da obesidade e a necessidade de acompanhamento médico rigoroso para ajustar estratégias e sustentar resultados, uma vez que 5% a 10% dos pacientes não respondem adequadamente, segundo especialistas.

A taxa de não resposta, ou seja, a parcela de pacientes que não obtém o resultado desejado, varia significativamente na literatura científica. O ensaio clínico STEP 1, publicado em 2021 no The New England Journal of Medicine, apontou que aproximadamente 14% dos participantes tratados com semaglutida não perderam ao menos 5% do peso corporal. Em outro estudo de referência, o SURMOUNT-1, uma pesquisa internacional com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, a taxa de não resposta foi de 9,1% entre os participantes que receberam a dose de 15 mg. Para dosagens de 10 mg e 5 mg, os percentuais foram de 11,1% e 14,9%, respectivamente, demonstrando a importância da dose na eficácia do tratamento.

A variabilidade na resposta é esperada, assim como em diversos outros tratamentos médicos. "Cada pessoa responde de um jeito ao medicamento", explica o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita. Ele complementa: "Podemos afirmar que 5% a 10% dos pacientes não apresentam uma boa resposta a este tipo de tratamento".

A eficácia do tratamento também está diretamente ligada ao ajuste progressivo da dose, uma estratégia fundamental para mitigar efeitos colaterais e aprimorar a tolerância do organismo. Em certas situações, pode ser preciso reduzir a dosagem temporariamente ou progredir de forma mais gradual. Por esse motivo, os pacientes jamais devem interromper o uso da medicação sem orientação profissional, sendo crucial manter um acompanhamento médico contínuo para adequar a estratégia e garantir a manutenção do peso perdido a longo prazo, protegendo a saúde e o investimento no tratamento.

Por que o tratamento não funciona para todos?

A complexidade da não resposta ao tratamento é multifatorial. A literatura científica aponta uma intrincada combinação de fatores biológicos, clínicos e comportamentais que elucidam por que uma parte dos pacientes não alcança os resultados esperados. "Na prática clínica, observamos que pacientes com diabetes geralmente apresentam uma resposta menos favorável em termos de perda de peso, quando comparados a indivíduos sem a condição, possivelmente devido à maior resistência à insulina", conjectura Rosenbaum.

Um estudo relevante, publicado na Diabetologia em 2024, analisou dados de 4.467 adultos com diabetes tipo 2 que utilizavam liraglutida, semaglutida ou dulaglutida. O resultado foi que apenas 14% desses pacientes conseguiram, simultaneamente, melhorar de forma expressiva o controle glicêmico e perder ao menos 5% do peso corporal. Os dados indicam que fatores como um peso inicial mais elevado, idade, tempo de duração do diabetes e a função renal do indivíduo podem exercer influência direta nos resultados do tratamento.

A dosagem correta se mostra como outro ponto crucial. Um ensaio publicado em 2025 no The Lancet demonstrou que a semaglutida de 7,2 mg superou a dose padrão de 2,4 mg, utilizada para emagrecimento, na redução do peso corporal em adultos com obesidade e sem diabetes. Após 72 semanas de acompanhamento, a perda média atingiu 18,7% com a dose mais elevada, em contraste com 15,6% observados com a dose padrão. Os participantes que receberam 7,2 mg também apresentaram uma maior probabilidade de alcançar perdas de 20% e até 25% do peso inicial.

Rosenbaum explica que, "em geral, a dose é aumentada de forma gradual para otimizar a tolerância. Contudo, muitos pacientes manifestam mais efeitos colaterais durante esse processo e, infelizmente, acabam descontinuando a medicação. Nesses cenários, pode ser prudente retornar temporariamente à dose anterior ou progredir mais lentamente", pondera o endocrinologista, sublinhando a importância da individualização do tratamento.

A farmacocinética, que descreve como o organismo absorve, distribui e metaboliza o medicamento, também desempenha um papel determinante. Em um estudo de 2021, divulgado na Cell Reports Medicine, pesquisadores evidenciaram que a resposta clínica à semaglutida está primordialmente ligada aos níveis da droga em circulação no sangue, independentemente da via de administração (oral ou injetável). A pesquisa também indicou que um peso corporal mais elevado está associado a uma menor exposição ao medicamento, o que contribui para compreender a variação na resposta individual.

A interação com outras medicações é um fator que pode interferir na eficácia. As diretrizes da Sociedade de Endocrinologia, uma renomada comunidade global de médicos e cientistas, aconselham a reavaliação de fármacos que sabidamente favorecem o ganho de peso. Sempre que viável, a recomendação é substituí-los por alternativas neutras ou que possam auxiliar na perda de peso. A lista de exemplos inclui insulina, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, glicocorticoides e contraceptivos injetáveis, ressaltando a complexidade da gestão medicamentosa para pacientes com obesidade.

Além disso, um possível componente genético contribui para essa variabilidade. Um estudo recém-publicado na Nature, envolvendo 27.885 indivíduos em tratamento, identificou uma variante no gene do receptor de GLP-1 associada a uma maior eficácia terapêutica. A pesquisa também revelou conexões entre outras variantes genéticas e um risco aumentado de náuseas e vômitos, particularmente em relação à tirzepatida. Esses achados indicam que as diferenças genéticas podem impactar tanto a resposta ao tratamento quanto a ocorrência de efeitos adversos, abrindo novas perspectivas para abordagens terapêuticas mais personalizadas no futuro, aumentando a esperança por tratamentos mais assertivos.

O que fazer quando o tratamento não funciona?

Quando a perda de peso esperada não é alcançada, a primeira ação essencial é uma revisão completa da abordagem terapêutica. Conforme o consenso da Sociedade de Endocrinologia, o passo inicial consiste em verificar se o ajuste da dose foi realizado de forma correta, se a dosagem atingiu o nível recomendado e se a continuidade do uso foi mantida sem interrupções. Este processo cuidadoso é vital para realinhar as expectativas e o curso do tratamento.

Simultaneamente, torna-se imperativo avaliar fatores clínicos e comportamentais que podem comprometer a resposta ao tratamento. Isso inclui aspectos como dieta, consumo de álcool, qualidade do sono, níveis de estresse, presença de comorbidades — especialmente doenças endócrinas — e o uso de outras medicações que podem favorecer o ganho de peso. "Quando nos alimentamos, ocorre a liberação de hormônios associados à saciedade e à diminuição do apetite. Entretanto, alguns pacientes não experimentam essa resposta fisiológica, e o impulso de comer pode estar mais vinculado a fatores emocionais, conhecidos como hedônicos", detalha Rosenbaum. "Esses indivíduos, frequentemente, não respondem tão bem aos tratamentos convencionais".

Somente após essa revisão abrangente aplica-se a chamada regra de resposta mínima. Se o tratamento é considerado eficaz, a recomendação é mantê-lo, sempre com acompanhamento periódico para garantir a segurança e implementar estratégias eficazes para a sustentação da perda de peso a longo prazo. No entanto, quando a resposta se mostra insuficiente, a estratégia deve ser ajustada, o que pode incluir o reforço das mudanças no estilo de vida, um refinamento na dosagem do medicamento ou até mesmo a sua substituição por outra terapia mais adequada ao perfil do paciente.

O dilema do custo-benefício e o acesso

Em face de tratamentos de alto custo, como os que envolvem semaglutida e tirzepatida, a distinção entre pacientes que respondem bem e aqueles que obtêm benefícios limitados impacta diretamente a análise de custo-efetividade. Essa realidade tem levado diversos países a adotar critérios mais rigorosos para a indicação e o financiamento dessas terapias. No Reino Unido, por exemplo, o órgão regulador de tecnologias em saúde recomendou a semaglutida para sobrepeso e obesidade somente em situações específicas, estipulando um prazo máximo de uso de dois anos e a exigência de acompanhamento em um serviço multidisciplinar especializado. No Canadá, o reembolso público desses medicamentos também passou a ser condicionado a critérios clínicos e à implementação simultânea de medidas como dieta e atividade física, visando otimizar os resultados e o uso dos recursos.

No Brasil, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) no Sistema Único de Saúde (SUS) analisou, em agosto de 2025, um pedido da Novo Nordisk — a farmacêutica dinamarquesa responsável pelo desenvolvimento da liraglutida e da semaglutida — para incorporar esses medicamentos ao SUS no tratamento da obesidade. Contudo, a proposta foi rejeitada, primariamente devido ao alto impacto orçamentário e às incertezas sobre a real relação custo-benefício em larga escala, adiando o acesso público mais amplo a essas terapias.

Apesar da rejeição, o debate sobre o acesso a esses medicamentos permanece ativo. Em 2026, a Novo Nordisk anunciou um programa de acesso piloto, prevendo a oferta do Wegovy na rede pública de saúde no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. A iniciativa, segundo a empresa, visa coletar dados concretos sobre o impacto clínico, social e econômico da semaglutida em pacientes com obesidade grave. O foco está em atender populações mais vulneráveis e na potencial redução de complicações de alto custo, como internações e procedimentos cardiovasculares, buscando construir um caminho para uma futura incorporação mais sustentável.

"Ampliar o acesso no sistema público não alterará a proporção de pacientes que respondem ou não ao tratamento", salienta Rosenbaum, reforçando que "essa variação inerente existe tanto no setor público quanto no privado". Ele enfatiza a importância crucial de alinhar as expectativas dos pacientes desde o primeiro contato e de, sob nenhuma circunstância, interromper o uso da medicação sem o acompanhamento e a orientação de um profissional de saúde, garantindo assim a segurança e a eficácia possível do tratamento.

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