ALERTA DE SAÚDE PÚBLICA

Poluição do ar em São Paulo eleva risco de doenças renais, revela estudo da USP

Poluição do ar em São Paulo eleva risco de doenças renais, revela estudo da USP

Material particulado, oriundo da queima de combustíveis, pode quadruplicar internações por doença renal crônica. Limite da OMS é superado em mais de quatro vezes.

Um estudo inédito, apoiado pela FAPESP e pela Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO), revelou nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026, uma forte correlação entre a alta concentração de material particulado no ar da cidade de São Paulo e o aumento expressivo no risco de hospitalização por diversas doenças renais. A pesquisa, conduzida por equipes do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), demonstra que mesmo níveis considerados baixos de poluição podem comprometer severamente a saúde dos rins, evidenciando a urgência de medidas mais rigorosas para proteger a população e aliviar a sobrecarga no sistema de saúde.

O trabalho, publicado na revista Scientific Reports e que analisou dados de poluição e internações entre 2011 e 2021, estimou o risco de hospitalização por três condições renais. Os resultados apontam que homens, em diferentes faixas etárias, enfrentam um risco significativamente maior de precisar de internação.

A pesquisa destaca a gravidade da situação: mesmo a exposição a concentrações consideradas "baixas" – dentro do limite estipulado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) de 15 micrômetros por metro cúbico (μg/m3) de material particulado fino em 24 horas – já se mostra suficiente para elevar o risco de hospitalização em homens por injúria renal aguda. Para mulheres, neste cenário específico, o aumento de risco não foi observado.

“A exposição do paulistano a esse material chegou a alarmantes 65 μg/m3, mais de quatro vezes o máximo tolerável segundo a OMS. No entanto, mesmo concentrações dentro do limite ainda revelaram uma forte relação com internações por doenças renais”, alerta Iara da Silva, primeira autora do estudo e pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), atualmente em pós-doutorado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). “Esse resultado sublinha a necessidade urgente de intensificar políticas públicas para a redução da poluição do ar, protegendo a saúde de milhares de cidadãos.”

A pesquisa integra o projeto “A poluição do ar é o motor do envelhecimento renal prematuro”, iniciativa que conta com o apoio da FAPESP e da Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO), sob a coordenação de Lucia Andrade, professora da Faculdade de Medicina da USP. O trabalho também recebeu suporte da FAPESP através do projeto “Área Metropolitana de São Paulo: abordagem integrada mudanças climáticas e qualidade do ar” (Metroclima Masp), liderado por Maria de Fátima Andrade, docente do IAG-USP.

O material particulado fino, composto por partículas sólidas ou líquidas com menos de 2,5 micrômetros (μm) – o que equivale a um milímetro dividido por mil –, representa uma ameaça silenciosa. Os dados são contundentes: a exposição a essa poluição pode aumentar em até quatro vezes o risco de hospitalização por doença renal crônica, variando conforme a idade e o nível de exposição.

Para pacientes com doença renal crônica, a exposição prolongada ao nível mais alto registrado no estudo (65 μg/m3) elevou significativamente o risco para indivíduos entre 19 e 50 anos, tornando-se até 2,5 vezes maior para homens na faixa etária de 51 a 75 anos. A injúria renal aguda também se mostrou mais prevalente em homens entre 19 e 50 anos expostos a altas concentrações do poluente.

As glomerulopatias, que afetam as delicadas estruturas de filtração do sangue nos rins, atingem mais homens com menos de 40 anos, sobretudo aqueles expostos a concentrações entre 15 μg/m3 (o limite recomendado pela OMS) e 65 μg/m3 (o valor mais elevado encontrado na pesquisa). Além disso, essa mesma faixa de exposição elevou o risco cumulativo de hospitalização por nefropatia membranosa, uma forma de glomerulopatias, independentemente de idade e sexo, revelando a abrangência da ameaça.

“A hipótese central é que o material particulado que inalamos pode penetrar na corrente sanguínea e se acumular no tecido renal. Lá, é reconhecido pelo sistema imunológico como um invasor, desencadeando a produção de mediadores inflamatórios, fibrose e o envelhecimento precoce das células [senescência]”, detalha Iara da Silva. Essa reação do corpo contra um agente externo danifica progressivamente os rins, comprometendo sua capacidade vital de filtrar o sangue.

Em uma etapa anterior da pesquisa, o grupo comparou a resposta à injúria renal aguda em camundongos. Um grupo foi exposto ao ar de São Paulo, enquanto outro respirava o mesmo ar após passar por filtros purificadores. “Nos animais expostos ao material particulado, observamos uma doença renal mais severa. Houve uma diminuição drástica da filtração glomerular, maior inflamação renal, mais vias de necroptose [morte celular], além de marcadores de senescência e fibrose. Em longo prazo, essa condição tem uma grande probabilidade de evoluir para doença renal crônica”, explica a pesquisadora, sublinhando a gravidade das consequências.

Para as pesquisadoras, os dados são alarmantes e impactam diretamente a dignidade e a qualidade de vida dos indivíduos, além de gerarem custos exorbitantes para a saúde pública. Doenças renais, que poderiam ser evitadas ou ter sua severidade diminuída com menores níveis de poluição, levam a desfechos dramáticos. Em situações críticas, os pacientes são submetidos à hemodiálise – um processo que filtra o sangue fora do corpo – e, em muitos casos, à longa e angustiante espera por um transplante de rim.

O grupo de pesquisa brasileiro e neerlandês já planeja a próxima fase do estudo, que acompanhará pacientes transplantados, comparando os resultados de saúde em diferentes níveis de exposição ao material particulado. Esse acompanhamento trará ainda mais dados para reforçar a urgência do tema.

“Embora existam políticas públicas para a redução da poluição do ar, elas evidentemente não têm sido suficientes. É imperativo que avancemos para um novo modelo de desenvolvimento, que não dependa da queima de combustíveis fósseis – o maior responsável não só pela poluição do ar, mas também pelo aquecimento global”, conclui Iara da Silva. A chamada é clara: a saúde dos rins e do planeta exige uma mudança imediata e profunda.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário