PODER SOB MIRA

Polícia Federal expõe esquema que atinge cúpula política e financeira

Foto de Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil, e Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, em imagem relacionada à investigação de fraudes financeiras e políticos.
Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro - Metrópoles

R$ 970 milhões de fundos de pensão do Rio de Janeiro em risco, com ex-ministros e um Senador investigados.

A Polícia Federal desvendou um intrincado esquema de fraudes financeiras e tráfico de influência que reverberou nos corredores do poder e nos mercados, culminando na prisão do proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro, e na liquidação da instituição financeira. O processo, agora sob a condução rigorosa do Ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal, expõe as complexas interligações entre interesses bancários e a cúpula política do país. As investigações, que ganharam novos contornos nesta sábado, 09/05/2026, revelam como a atuação de figuras como o ex-Chefe da Casa Civil e Senador Ciro Nogueira visava a beneficiar o banco em troca de pagamentos, com potencial de gerar enormes prejuízos a fundos de pensão e, por extensão, à aposentadoria de milhares de brasileiros.

As apurações indicam que Ciro Nogueira, presidente do Progressista e Senador pelo Piauí, que liderou a Casa Civil no governo Jair Bolsonaro entre agosto de 2021 e dezembro de 2022, recebia uma mesada que variava entre R$ 300 mil e R$ 500 mil de Daniel Vorcaro. O objetivo seria moldar o processo político aos interesses do Banco Master. Uma de suas propostas, não aprovada, visava elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a responsabilidade do Fundo Garantidor de Créditos. Essa manobra teria concedido mais margem para o banco comercializar títulos fraudulentos, cujos prejuízos seriam absorvidos por outras instituições financeiras – uma astúcia bancária encoberta por articulações político-partidárias que agora está sob o escrutínio da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal.

O escândalo envolve também o Banco Regional de Brasília (BRB), que teria sido contaminado pelas práticas do Banco Master. Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, que sonhava com uma trajetória ilibada no mercado financeiro da Faria Lima, assumiu a instituição após uma série de prisões de dirigentes, prometendo saneá-la. Contudo, o BRB, conhecido por ser a "tesouraria" do governo do Distrito Federal e por agradar o governador e seus aliados, mudou drasticamente sua estratégia sob a gestão de Costa. A instituição investiu pesadamente em patrocínios como a camisa do Flamengo e cartões de crédito temáticos, buscando um sucesso rápido e alavancado.

Mesmo diante de alertas contundentes do Banco Central sobre os riscos e as armadilhas de negócios perigosos, o BRB aportou recursos no Banco Master. A Polícia Federal aprofundou-se nas complexidades dessa relação, expondo figuras de destaque da política nacional, incluindo o Senador do Piauí, em uma investigação que já causa desconforto até mesmo entre Ministros do Supremo Tribunal Federal. No universo financeiro, a camaradagem cede lugar aos interesses, e pessoas influentes obtiveram ganhos substanciais com a condução dos negócios do Banco Master, pautada pela postura impetuosa e debochada de Daniel Vorcaro, com afagos milionários que se estenderam por diversos níveis da esfera política.

A captação de recursos do Banco Master dependia fortemente de seus contatos políticos, atraindo investimentos de fundos de pensão de funcionários públicos em 18 cidades brasileiras. O Instituto de Previdência e Aposentadoria do Rio de Janeiro é o mais impactado, com R$ 970 milhões aplicados no banco. O Conselho Consultivo do Banco Master era um desfile de nomes proeminentes da política. Ricardo Lewandowski, após deixar o STF em agosto de 2023, assumiu um assento no colegiado, que deixou em abril de 2024 para se tornar Ministro da Justiça. Foi justamente o Ministério da Justiça que expediu a ordem de prisão de Daniel Vorcaro, detido enquanto tentava fugir do país em seu jato Falcon Dassault.

Durante o período de Lewandowski no conselho, seu filho, Enrique Lewandowski, auxiliou a instituição, sendo posteriormente substituído por Viviane Bari. Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula e ex-ministro da Fazenda de Michel Temer, também foi contratado por Vorcaro como consultor. O comitê contava ainda com Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula, e Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique. Guido Mantega, inclusive, articulou uma audiência de Vorcaro com o presidente Lula no Palácio do Planalto.

As investidas do Banco Master e de seu controlador em busca de complacência nos Três Poderes e na Faria Lima eram tão amplas que a operação para prender Daniel Vorcaro e decretar a liquidação da instituição chegou a ser considerada impossível. Contudo, a Polícia Federal agiu com eficiência e rapidez. O processo está agora sob a responsabilidade do Ministro André Mendonça, cuja conduta indica total rigor na apuração dos fatos e na atribuição de responsabilidades aos acusados. Esta linha de investigação, se levada às últimas consequências, promete desmantelar carreiras tanto na direita quanto na esquerda, e atingir nomes influentes no governo e na oposição. Paulo Henrique Costa, afastado do cargo e preso, ameaça com uma delação premiada, repetindo a ironia de sua saída anterior do BRB, desta vez, porém, direto para trás das grades. Ainda não há decisão final sobre os acusados, e o processo segue em andamento.

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