VIOLÊNCIA NA USP

PM desocupa Reitoria da USP com violência, denunciam alunos

PM desocupa Reitoria da USP com violência, denunciam alunos

Estudantes relatam "corredor polonês" e "trauma psicológico" após ação da Polícia Militar neste domingo, 10 de maio de 2026. Reitoria da USP havia acionado SSP para desocupação.

A Reitoria da USP solicitou à Secretaria de Segurança Pública (SSP) a desocupação do saguão do prédio universitário, ocupado por estudantes desde a quinta-feira, 7 de maio de 2026. Em resposta, a Polícia Militar executou a ação na madrugada deste domingo, 10 de maio de 2026, culminando em relatos de violência e trauma psicológico entre os estudantes que protestavam por melhores condições e salários para os servidores. A intervenção policial, classificada como "absurdamente violenta" por Rael Brito de Paula, um dos alunos presentes, levanta sérias questões sobre o diálogo democrático e a segurança no ambiente acadêmico.

O movimento estudantil, que ocupava o espaço desde 7 de maio de 2026, reivindicava melhorias ligadas à vida acadêmica e aos salários dos servidores. Segundo o estudante Rael Brito de Paula, a mobilização transcorria de forma pacífica, com programação cultural, política e assembleias democráticas, sem qualquer sinal de violência ou ameaça por parte dos estudantes.

No entanto, a calma foi quebrada por volta das 04h15, quando a Tropa de Choque da Polícia Militar cercou o prédio enquanto os estudantes dormiam. Conforme o relato, o grupo foi empurrado para o saguão e teria sido alvo de agressões. "Foi um processo absurdamente violento", desabafou Rael. Ele detalhou o uso de cassetetes e bombas de efeito moral, além da formação de um "corredor polonês" na saída do prédio para agredir os alunos. Os impactos foram graves: estudantes sofreram fraturas e sangramentos, uma aluna desmaiou, e todos carregam o "trauma psicológico de acordar no meio da noite com uma violência completamente descabida."

O DCE (Diretório Central dos Estudantes) se pronunciou, repudiando a ação e responsabilizando o reitor Aluísio Segurado e seu chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas. "Aluísio, Edmilson e o conjunto da Reitoria escolheram ignorar as reivindicações por melhores políticas de permanência de dezenas de milhares de estudantes e reprimir alunos e alunas que sustentam cotidianamente o ensino, a pesquisa e a extensão dentro da universidade, tudo isso em pleno Dia das Mães, 10 de maio de 2026", afirmou o DCE, criticando a falta de diálogo e a precarização da educação.

Em nota oficial, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) apresentou uma versão diferente dos fatos. A pasta confirmou a desocupação pela Polícia Militar neste domingo, 10 de maio de 2026, com cerca de 50 policiais envolvidos, mas afirmou que a ação foi "concluída sem registro de feridos". A SSP ressaltou que toda a operação foi filmada por câmeras portáteis dos policiais e que as imagens serão anexadas aos registros da ocorrência. Após a desocupação, uma vistoria teria constatado danos ao patrimônio público, como portão derrubado, portas de vidro quebradas, carteiras escolares danificadas e avarias em mesas e catraca de entrada. A secretaria também informou a apreensão de "entorpecentes, armas brancas e objetos contundentes, como facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes". Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial por dano ao patrimônio público e alteração de limites, sendo liberadas após qualificação. A Polícia Militar garantiu que "eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas".

A Universidade de São Paulo (USP), em seu comunicado oficial, lamentou os acontecimentos da manhã de 10 de maio de 2026. A instituição explicou que informou a SSP sobre a ocupação em 7 de maio de 2026 para adoção de protocolos de proteção, mas a desocupação pela Polícia Militar ocorreu "sem comunicação prévia à Reitoria". A USP afirmou que repudia a violência e que a Reitoria manteve-se aberta ao diálogo durante todo o período, tendo atendido diversos itens da pauta e constituído grupos de trabalho para outros pontos. Contudo, as tratativas chegaram a um limite devido à insistência em reivindicações que não poderiam ser atendidas e à presença de "pessoas externas à comunidade acadêmica". A Reitoria reiterou sua disposição para um novo ciclo de diálogo, desde que haja a "manutenção do direito de ir e vir em todos os espaços da Universidade".

Os estudantes aprovaram a paralisação em 14 de abril de 2026, inicialmente em apoio à mobilização de servidores contra uma gratificação exclusiva para professores. Após avanços salariais para os servidores, que encerraram sua paralisação, os estudantes decidiram manter a greve, concentrando-se em suas próprias demandas. Entre 150 e 200 alunos se revezaram na ocupação, organizando uma agenda cultural e democrática.

A principal reivindicação estudantil é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), considerado insuficiente. Atualmente, o programa oferece entre R$ 335 (para residentes em moradia estudantil) e R$ 885 (auxílio integral). A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE, elevando o auxílio integral para R$ 912 e o parcial para R$ 340. Os estudantes, no entanto, defendem um valor de R$ 1.804, equivalente ao salário mínimo paulista, uma "reivindicação antiga", segundo Dany Oliveira, estudante de Artes Cênicas.

A Reitoria realizou três rodadas de negociação com os estudantes, mas encerrou as conversas unilateralmente após a rejeição de sua proposta, gerando grande insatisfação. Além do PAPFE, os alunos criticam problemas estruturais como a gestão do restaurante universitário, conhecido como "bandejão", a moradia estudantil e a situação do Hospital Universitário (HU), que, segundo os manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.

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