MERCADO DE PONTOS

PL das milhas avança na Câmara e abre brecha para empresas em recuperação

Avião da 123 Milhas estacionado em um aeroporto
Avião da companhia 123 Milhas posicionado em pátio de aeroporto — Juca Varella/Agência Brasil

Proposta aprovada pelos deputados permite que intermediadoras sem solidez financeira continuem operando, gerando alertas sobre segurança do consumidor.

Um projeto de lei (PL) aprovado de forma relâmpago pela Câmara dos Deputados no dia 13/08, e que segue agora para análise no Senado, flexibiliza as regras para a operação de empresas intermediadoras de milhas. A medida permite que companhias que estejam em recuperação judicial, tenham pendências financeiras com consumidores ou careçam de comprovação de liquidez continuem atuando no mercado secundário de pontos.

A decisão impacta diretamente a proteção do consumidor, ao possibilitar que empresas envolvidas em crises bilionárias, como o grupo 123Milhas — que inclui a HotMilhas e a MaxMilhas —, mantenham suas atividades sem a necessidade de demonstrar solidez financeira. Essas empresas enfrentam processos de recuperação judicial desde 2023, com dívidas que superam R$ 2,5 bilhões, deixando milhares de clientes sem o pagamento pelas milhas cedidas.

O texto, que tramita sob regime de urgência, veta que companhias aéreas utilizem métodos biométricos, como reconhecimento facial, para confirmar acessos em seus programas de milhagem. O argumento de quem defende a medida é evitar obstáculos à comercialização de pontos, mas a alteração facilita o acesso de terceiros às contas dos clientes, uma prática comum nas intermediadoras.

O PL 3083/2026, de autoria do deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO), foi aprovado rapidamente, sem passar por quatro comissões temáticas. Enquanto o projeto cria requisitos rigorosos para os chamados "operadores independentes de liquidez", ele deixa o mercado secundário — onde atuam empresas como a 123Milhas — sem exigências de capital social mínimo, reserva de liquidez ou supervisão por órgãos de controle.

Questionado sobre as brechas, o deputado Ricardo Ayres afirmou que o projeto estabelece critérios mais severos para o operador oficial e que o texto poderá ser aperfeiçoado pelo Senado Federal. "Se os senadores entenderem que são necessárias garantias adicionais, esses pontos poderão ser debatidos", declarou à coluna.

O impasse reflete uma disputa entre a segurança digital das companhias aéreas, como a Latam, que utiliza a biometria para evitar fraudes, e o modelo de negócio das intermediadoras, que culpam essas proteções pela perda de margem operacional.

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