ALERTA DIGITAL URGENTE

PF e MJSP: IA impulsiona quase metade dos golpes no Brasil

Representação gráfica de segurança cibernética e inteligência artificial.
Polícia Federal alerta para o crescimento de fraudes digitais impulsionadas por IA.

Deepfakes crescem 830% entre 2024 e 2025, colocando o País na liderança da América Latina. Especialistas como Vinicius Albino, Fabro Steibel e Julia Baroli Sadalla compartilham estratégias para proteção.

A Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em um alerta contundente nesta terça-feira, 28 de abril de 2026, revelaram que a inteligência artificial impulsiona quase metade das fraudes financeiras no Brasil. Este cenário alarmante, com o uso de deepfakes crescendo 830% entre 2024 e 2025 e colocando o País na liderança desse tipo de crime na América Latina, exige atenção urgente de cada cidadão para proteger sua dignidade e patrimônio. Dados recentes da Polícia Federal indicam que 42,5% das fraudes financeiras no Brasil hoje são executadas com ferramentas de inteligência artificial. Isso significa que criminosos utilizam vídeos e áudios falsos, gerados por IA, para enganar vítimas e subtrair bens. Além disso, o Brasil figura entre os maiores produtores globais de malware, programas projetados para roubar dados bancários de clientes, conforme a própria PF. O Ministério da Justiça e Segurança Pública aponta uma clara sofisticação nas ações criminosas. Há um uso crescente de engenharia social avançada (phishing, vishing, smishing) e uma escalada da IA na criação de identidades sintéticas, falsificação de documentos e, claro, deepfakes. Criminosos não atuam isoladamente; as redes se internacionalizaram. Eles adotam processos complexos para escoar e lavar o dinheiro ilícito, utilizando criptoativos, pagamentos de contas e casas de apostas não autorizadas. Essa teia inclui até o aliciamento de colaboradores em instituições financeiras e o recrutamento de terceiros para a abertura de contas laranjas. Diante da ousadia e do impacto devastador na vida das pessoas, os crimes cibernéticos tornaram-se prioridade para a Polícia Federal. O número de operações contra fraudes saltou de aproximadamente 300 em 2022 para mais de mil anualmente desde 2024. A Operação Fake PF, deflagrada este ano, desarticulou uma associação que explorava o brasão e distintivos da Polícia Federal para aplicar golpes virtuais, abordando empresários com falsos favorecimentos e ameaças. A IA e o machine learning são cruciais para automatizar ataques e conferir realismo às fraudes. A Serasa Experian revela que o Brasil enfrenta uma tentativa de fraude digital a cada 2,2 segundos. Somente no ano passado, foram cerca de 14 milhões de tentativas, com 11 milhões já consolidadas até setembro. Em deepfakes de vídeo e imagem, criminosos criam conteúdos falsos com figuras públicas ou pessoas comuns para endossar produtos inexistentes ou solicitar doações. Softwares avançados não só trocam rostos, mas sincronizam movimentos labiais com precisão. Na clonagem de voz, a IA replica a fala de familiares, usando-a em ligações para solicitar Pix urgentes sob pretextos emocionais, como acidentes ou sequestros. As vozes são frequentemente captadas em redes sociais. A inteligência artificial também fabrica documentos falsos com realismo impressionante, como CNHs e comprovantes bancários ou de residência, facilitando a abertura de contas e a obtenção de empréstimos em nome das vítimas. Para o phishing, modelos de linguagem de grande escala (LLM) eliminam erros gramaticais, gerando mensagens altamente persuasivas e personalizadas. Em 2025, a Polícia Federal e a Associação das Empresas de Cartões de Crédito e Serviço (Abecs) assinaram um acordo de cooperação técnica. Essa parceria conecta bancos, credenciadoras e fintechs à Plataforma Tentáculos, uma ferramenta de inteligência e base de dados nacional da PF, criada para centralizar, investigar e combater fraudes bancárias eletrônicas no Brasil. Ela funciona por meio de parcerias com o setor financeiro para receber denúncias e cruzar dados automaticamente, utilizando IA para identificar quadrilhas. O objetivo principal do acordo é a cooperação para a promoção de projetos e ações de interesse comum no combate a fraudes e golpes. A parceria se concentra em crimes cibernéticos que envolvem contas de depósito, poupança, contas de pagamento e cartões de crédito e débito, de instituições associadas à Abecs. Além disso, busca-se a criação de uma rede nacional de investigação para aprimorar o combate a esses crimes. Com a entrada da Abecs no projeto, mais de 90 empresas desse segmento poderão compartilhar os dados das ocorrências de fraudes e golpes com a Polícia Federal.

Estratégias de prevenção e combate

Outra iniciativa estratégica é a Aliança de Combate a Fraudes Digitais Bancárias, estabelecida em agosto de 2024 entre o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Esta aliança também visa usar recursos de IA para prevenção e combate a esses crimes. O MJSP destaca que o desafio vai além do pequeno fraudador; é enfrentar organizações criminosas que exploram a capacidade de multiplicação e ocultação do ambiente digital. Dados da Aliança revelam que 51% dos brasileiros foram vítimas de alguma fraude em 2024. Os números são subnotificados, pois muitos não denunciam por vergonha ou descrença na recuperação do prejuízo. Apenas a Febraban registrou 295.167 ocorrências de fraudes bancárias entre 2023 e 2025, com um aumento progressivo:
  • 2023: 74.375 ocorrências
  • 2024: 90.987 ocorrências
  • 2025: 119.711 ocorrências
Somente em janeiro de 2026 foram mais 10.094 casos. Chama a atenção que a maior parte das vítimas possui curso superior ou pelo menos o segundo grau completo, sendo pouco significativo o número de vítimas com baixa escolaridade. O uso de canais digitais para transações bancárias cresceu nos últimos anos: atualmente, 8 em cada 10 transações são por meio digital. Das ocorrências de fraudes, 129 mil foram praticadas com emprego de ligação telefônica, enquanto aplicativos de mensagens foram usados em 125 mil casos. No período, houve 1.582 casos de sites falsos. Em 2024, o prejuízo estimado com fraudes aumentou 80% em relação a 2023, chegando a R$ 52 bilhões. Os crimes mais recorrentes no ano foram clonagem ou troca de cartão (44%), golpe da falsa central (32%) e pedido de dinheiro por suposto conhecido (31%).

Principais golpes aperfeiçoados com IA:

  • Conta ‘Segura’: Criminoso se apresenta como autoridade policial, informando sobre suposta investigação e induzindo a vítima a transferir o saldo da conta corrente para uma “conta segura”. A voz pode ser manipulada por LLM.
  • Sextorsão: Chantagem com ameaça de divulgação de conteúdo íntimo, muitas vezes manipulado com IA, para obter pagamentos via Pix ou criptoativos.
  • Falsa Central: Criminoso imita voz de representante de instituição financeira (com IA) para alertar sobre compras indevidas ou cadastros incorretos, induzindo a instalação de aplicativos maliciosos ou a digitação de senhas.
  • Cobrança Falsa: Golpista se passa por representante de empresa ou instituição, apresentando suposta dívida e oferecendo desconto para quitação imediata.
  • Falsa Taxa de Entrega: Mensagens falsas solicitam pagamento de taxa para liberar encomendas, direcionando para páginas falsas produzidas com IA.
  • Falso Advogado: Criminoso identifica processos da vítima, finge ser advogado e induz transferências para quitar falsas taxas processuais ou receber precatórios/heranças. Vozes e fotos podem ser alteradas por IA.
  • Golpe da aposentadoria: Golpista se passa por funcionário de instituição ou órgão público, alegando direito a benefício e solicitando dados ou transferências.
  • Plataforma Falsa de Reclamação: Criminoso usa informações públicas de sites de reclamação para contatar a vítima, prometendo ressarcimento mediante o pagamento de uma falsa taxa de serviço.
  • Falso investimento: Criminoso atrai investidores por sites ou perfis falsos, usando comprovantes forjados e vídeos manipulados para prometer ganhos rápidos e induzir aplicações ou pagamentos de taxas.
  • Falso Leilão: Criação de sites de leilões falsos. Após o lance, a vítima recebe termo de arrematação com instruções de pagamento, mas o contato com o “responsável” desaparece após a transação.
  • Falso Perfil Virtual: Criminoso copia foto de perfil e se passa pela vítima em outro número, solicitando dinheiro ou informações confidenciais a amigos e familiares.
  • Falso Programa de Pontos: Vítima acessa página falsa para resgate ou negociação de pontos de fidelidade, realizando transações em favor do criminoso.
  • Falso Sequestro: Criminoso informa falsamente o sequestro de um parente próximo. Com IA, um comparsa imita a voz do familiar para exigir pagamento de resgate.
  • Golpe do Pix: Criminoso faz um Pix para a vítima, alega engano e pede a devolução para outra chave, para depois usar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) e estornar o valor original.
  • Golpe do Amor: Usando perfil falso e fotos manipuladas por IA, criminoso cria laços afetivos com a vítima para convencê-la a realizar transferências de valores.
  • Golpe do Falso Boleto: Criminoso envia boleto adulterado em nome de instituição ou loja, que é pago em conta distinta da original.

Como se proteger de golpes com o uso de IA?

“A IA é a forma mais barata e fácil de aplicar golpes em grande escala, tornando textos, áudios e websites mais convincentes”, explica Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) do Rio. Ele ressalta que a proteção não é contra a IA em si, mas contra os golpes que se tornaram mais sofisticados e numerosos com a tecnologia. As dicas de especialistas para evitar ser vítima são:
  • 1. Verifique a identidade por outro canal: Ao receber ligações, vídeos ou mensagens de familiares, empresas ou bancos, desligue e retorne usando o número oficial, mesmo que a chamada aparente ser legítima. Criar senhas verbais com amigos e familiares é uma medida eficaz, especialmente contra golpes como o falso sequestro, potencializado pela IA.
  • 2. Ative a autenticação em dois fatores: Este recurso reduz significativamente invasões em e-mails, redes sociais, aplicativos bancários e WhatsApp. É crucial evitar expor dados sensíveis como CPF e endereço.
  • 3. Revise permissões de aplicativos e configurações de privacidade: Limitar o acesso à localização, contatos, microfone e câmera reduz a coleta excessiva de dados por terceiros.
  • 4. Monitore sinais de fraude e aja rápido: Movimentações bancárias estranhas, tentativas de login, chips sem sinal e cobranças indevidas exigem reação imediata. “Proteção de dados hoje não é luxo. É autoproteção patrimonial, reputacional e até emocional”, afirma Julia Baroli Sadalla, professora de Direito da Universidade Santo Amaro (Unisa) e pesquisadora da PUC-SP. Comunique o banco o quanto antes, pois quanto mais rápido, maiores as chances de ressarcimento.
  • 5. Desconfie de novas contas para pagamento: Pedidos de pagamento para contas ou chaves Pix antes desconhecidas devem levantar suspeitas. Para se proteger, não faça depósitos solicitados por WhatsApp que não tenham sido previamente combinados em consulta formal. Ao contratar um profissional, discuta sempre como os pagamentos serão feitos para evitar surpresas.
Se, mesmo com todos os cuidados, o golpe acontecer, reúna provas, registre boletim de ocorrência, avise o banco ou a plataforma envolvida e troque senhas imediatamente.

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