VOTO IDEOLÓGICO MINIMIZA

Pesquisa revela: apenas 14% dos brasileiros votam por ideologia; foco está em propostas e vida cotidiana

Urna eletrônica em destaque com a bandeira do Brasil ao fundo.
Pesquisa sobre decisão de voto no Brasil aponta que ideologia tem baixo peso para a maioria dos eleitores.

Levantamento aponta que maioria dos eleitores prioriza boas propostas e fatores do cotidiano. Sociólogo Fábio Gomes explica a mudança de expectativas e a influência das experiências concretas na decisão eleitoral.

Apesar do ambiente de forte polarização política observado no Brasil nos últimos anos, a identificação ideológica tem peso reduzido na decisão de voto da maioria dos eleitores. Uma pesquisa apresentada no livro "A Vida Antes do Voto – Reputação, bem-estar e decisão eleitoral no Brasil", do sociólogo Fábio Gomes, presidente do Instituto Informa, aponta que apenas 14,5% dos brasileiros afirmam escolher seus candidatos principalmente pelo posicionamento ideológico.

O levantamento revela que 55,6% dos entrevistados declaram votar em candidatos que apresentem boas propostas, independentemente de seu alinhamento com a esquerda ou a direita do espectro político. Este resultado reforça a percepção de que fatores ligados à vida cotidiana tendem a exercer influência maior sobre o comportamento eleitoral do que a identificação partidária ou ideológica.

Urna eletrônica em destaque com a bandeira do Brasil ao fundo.
Pesquisa sobre decisão de voto no Brasil aponta que ideologia tem baixo peso para a maioria dos eleitores.

Na obra, Fábio Gomes identifica oito aspectos considerados centrais na avaliação que os brasileiros fazem de governos e candidatos: geração de emprego e estabilidade econômica, educação pública de qualidade, saúde eficiente e humanizada, infraestrutura e serviços básicos, qualidade de vida, planejamento de longo prazo, segurança pública e combate à corrupção. Para o pesquisador, esses elementos ajudam a compreender mudanças recentes no comportamento do eleitorado e a oscilação do apoio político a diferentes governos.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o sociólogo afirma que o desgaste enfrentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em regiões e segmentos que historicamente lhe deram sustentação política não deve ser interpretado necessariamente como uma mudança ideológica do eleitorado.

"Isso não necessariamente representa uma mudança ideológica do eleitorado, mas uma transformação de expectativas. À medida que determinadas demandas foram atendidas, outras passaram a ganhar prioridade", explica Gomes.

Na avaliação do pesquisador, essa dinâmica ajuda a entender por que governos que desfrutam de ampla popularidade podem perder apoio entre seus próprios eleitores e por que crises políticas nem sempre produzem os efeitos esperados pela situação ou oposição. Segundo ele, a decisão de voto está cada vez mais ligada às experiências concretas vividas pela população do que às narrativas construídas no debate político.

Fábio Gomes também relaciona essa lógica a episódios recentes da política nacional. Para ele, discussões envolvendo o caso do Banco Master e as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros ilustram uma disputa entre governo e oposição pela responsabilização dos problemas, mas não necessariamente determinam o comportamento do eleitor.

Nesse cenário, o pesquisador avalia que a principal disputa eleitoral tende a ocorrer menos entre campos ideológicos tradicionais e mais entre candidatos capazes de convencer a população de que compreendem e apresentam respostas para os problemas concretos enfrentados no dia a dia dos brasileiros.

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