ELEIÇÕES EM FOCO

Percepção de guerra nos EUA impacta decisões de Trump, aponta especialista

Donald Trump em discurso público.
Presidente Donald Trump durante coletiva de imprensa.

Professor de Relações Internacionais da UFRJ, Fernando Brancoli, avalia que receio com resultados em novembro influencia a retórica presidencial sobre o conflito no Oriente Médio.

A percepção da população norte-americana sobre a guerra no Irã tem influenciado diretamente a postura do presidente Donald Trump diante do conflito no Oriente Médio. É o que avalia Fernando Brancoli, professor de Relações Internacionais da UFRJ, em entrevista ao CNN Prime Time. A decisão sobre a abordagem presidencial reflete o receio de impactos negativos nas eleições de meio de mandato, que ocorrem no final do ano, com mais de 80% dos americanos manifestando-se contrários à guerra. Essa conjuntura política desfavorável pode afetar o desempenho dos republicanos.

O especialista ressaltou que o conflito já começa a impactar a economia dos Estados Unidos, com alta no preço do diesel e perspectivas de aumento da inflação e dos alimentos. "No final do ano tem eleição aqui nos Estados Unidos para a chamada midterm election, e os próprios republicanos estão com receio de que isso vai transbordar de alguma maneira para o processo eleitoral", afirmou Brancoli.

Declarações de Trump geram desconfiança

Brancoli também comentou sobre as seguidas declarações de Trump afirmando estar próximo de um acordo com o Irã — contabilizadas em mais de 37 ocasiões, segundo levantamento da própria CNN. Para o especialista, as afirmações variam por horas ou até minutos, o que dificulta identificar uma política coerente dos Estados Unidos em relação ao Irã. "O Irã vem afirmando que não tem, nesse momento, uma negociação chegando a um final", destacou.

"Me parece um pouco o Trump tentando criar uma agenda positiva", acrescentou, lembrando que a expectativa inicial era de que a guerra durasse duas ou três semanas, mas o conflito já se estende por meses, com o Estreito de Ormuz ainda fechado.

Irã demonstra resiliência inesperada

Na avaliação de Brancoli, do ponto de vista humanitário, a guerra é um desastre, com mortes de civis apanhados no fogo cruzado. Além disso, o especialista destacou que o Irã demonstrou uma resiliência muito além do esperado. "Todas as expectativas dos Estados Unidos numa guerra contra o Irã eram de que essa guerra duraria semanas", disse. "O Irã demonstrou uma capacidade de responder aos ataques de maneira bastante potente". O professor mencionou ainda que, mesmo após a morte de sua liderança máxima em um ataque, o regime iraniano não colapsou, não houve revoltas nas ruas e o governo se manteve coeso. "O Irã sai dessa guerra conseguindo mandar uma mensagem de que é um país resistente, de que é um país que consegue negociar", concluiu.

Israel e a complexidade das negociações

Outro ponto abordado por Brancoli foi o papel de Israel no processo de negociação. Segundo ele, uma das questões mais complexas em rodadas anteriores de negociação era justamente a situação do Hezbollah ao sul do Líbano. Israel argumentava que eventuais ataques ao grupo não fariam parte de um possível cessar-fogo entre Irã, Israel e Estados Unidos. O Irã, por sua vez, exige que qualquer acordo envolva necessariamente o Líbano.

"A guerra entre Israel, o Irã e os Estados Unidos envolve também gente no Líbano, no Iêmen, aliados dos norte-americanos na Jordânia, na Arábia Saudita", enumerou o especialista, ressaltando a grande quantidade de atores envolvidos no conflito. Para Brancoli, essa complexidade torna a paz ainda distante: "Pode ser que a gente anuncie nas próximas horas o início de um acordo entre o Irã e os Estados Unidos para, horas depois, Israel atacar o Hezbollah e o acordo voltar atrás."

China adota postura ambígua diante do conflito

Ao analisar o papel da China no contexto geopolítico, Brancoli descreveu o impacto sobre Pequim como ambíguo. Por um lado, a China havia se beneficiado da compra de petróleo iraniano com grandes descontos, em razão das sanções norte-americanas ao Irã. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, essas relações econômicas se reduziram consideravelmente. Por outro lado, o especialista citou um velho adágio geopolítico: "Você não deve interromper quando o seu inimigo está fazendo um erro."

Brancoli apontou ainda que a duração prolongada da guerra levou os Estados Unidos a retirar tropas e material bélico da Coreia do Sul, o que beneficiou indiretamente a China. Houve também indícios, segundo ele, de compartilhamento de imagens de satélites chinesas com os iranianos durante o conflito.

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