ROTA DA COCAÍNA

PCC e 'Ndrangheta desvendam nova rota global do tráfico na América do Sul

Vista aérea de Porto Bolívar no Equador, um dos novos entrepostos do tráfico de cocaína.
Vista aérea de Porto Bolívar, no Equador, um dos novos entrepostos do tráfico internacional.

Bilhões movimentados em esquema que une PCC, 'Ndrangheta e máfia dos Bálcãs, transformando portos na América do Sul e Europa em centros de distribuição global de cocaína.

Uma vasta e complexa rede de tráfico internacional de drogas, que conecta o Primeiro Comando da Capital (PCC) do Brasil, a máfia italiana 'Ndrangheta e grupos dos Bálcãs, foi desvendada por investigações conjuntas da Polícia Federal (PF) brasileira e da Direção Distrital Antimáfia (DDA) de Turim, Itália. As operações Conexão Paraíba e Samba revelaram, nesta domingo, 17 de maio de 2026, um esquema bilionário que desviou o fluxo de exportação de cocaína para a Europa, Ásia e Oceania através de portos na América do Sul, como Equador, Uruguai e Panamá, demonstrando a crescente sofisticação e o impacto devastador do crime organizado nas fronteiras globais e na segurança das comunidades.

No centro desta rede criminosa, traficantes ligados ao PCC, à 'Ndrangheta e à máfia dos Bálcãs adotaram portos estrategicamente localizados fora do Brasil. Porto Bolívar, no Equador, entre as cidades de Machala e Guayaquil, emergiu como um dos maiores entrepostos do tráfico internacional de cocaína. Por ali, transitam 80% das 6 milhões de toneladas de bananas exportadas pelo país, uma fachada perfeita que permitiu a substituição do tradicional porto de Santos como principal ponto de saída da droga.

As investigações revelaram que, além do Equador, o PCC utilizou portos no Uruguai, Panamá e Suriname para embarcar drogas. No Brasil, o foco se deslocou para o Nordeste, com Pecém (CE), Natal (RN) e Recife (PE) sendo usados para evadir a fiscalização intensificada nas regiões Sul e Sudeste, que inclui Itajaí (SC), Paranaguá (PR) e Santos. Este cenário foi meticulosamente construído a partir de mensagens, documentos, áudios e depoimentos coletados na Operação Conexão Paraíba, no Brasil, e na Operação Samba, conduzida pela DDA de Turim, na Itália.

No Brasil, o Ministério Público Federal denunciou 16 indivíduos, entre os quais Demétrio Oliveira Batista, de 55 anos, e Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33 anos. Ambos também são oficialmente investigados na Itália ao lado do mafioso Vincenzo Pasquino, cuja colaboração premiada foi fundamental para desvendar os detalhes do consórcio entre o PCC e a 'Ndrangheta. O relatório final da Operação Conexão Paraíba imputou 13 acusações aos brasileiros por crimes como organização criminosa, associação para o tráfico, favorecimento, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, revelando a complexidade das operações ilícitas.

Apesar das tentativas do Estadão de contatar as defesas dos acusados sem sucesso, sabe-se que os brasileiros negaram as acusações na Justiça, com seus advogados alegando nulidades processuais. Demétrio e Nicholas são os primeiros brasileiros ligados ao PCC enquadrados na lei antimáfia italiana pelo crime de associação para o tráfico internacional de drogas, com o agravante do Artigo 416 bis do Código Penal Italiano, reservado às atividades mafiosas. As rotas uruguaia e equatoriana foram estratégicas para as operações conjuntas entre Demétrio, Nicholas e seus parceiros italianos, marcando um novo patamar de atuação do crime organizado na América do Sul.

Montando uma base de operações em João Pessoa, os criminosos controlavam os carregamentos. Um exemplo foi o envio de 102 quilos de cocaína do Porto Bolívar até Gioia Tauro. O navio, que partiu na noite de 29 de novembro de 2020, transferiu a carga para outra embarcação no Porto de Rodman, no Panamá, antes de ser apreendida em uma fiscalização aduaneira na Itália em 23 de dezembro daquele ano. "Meu velho, graças a Deus o material chegou. Não vieram 150 peças. Chegaram cem. Vão entregar US$ 190 mil no Equador”, detalhou Nicholas em uma mensagem para Demétrio, revelando a comunicação direta e os lucros astronômicos do esquema.

Em outra ocasião, os brasileiros coordenaram o envio de 22,5 quilos de cocaína de Montevidéu para Gênova, na Itália, igualmente apreendida, assim como um terceiro carregamento de 440 quilos que partiu do Brasil para o porto de Algeciras, na Espanha. Nestas operações, a PF e a DDA de Turim identificaram a atuação de Christian Sambati, amigo de Pasquino, que chegou a ser enviado ao Equador para supervisionar a operação. Em 2025, Nicola Gratteri, procurador distrital antimáfia de Nápoles, já havia confirmado a mudança de rota dos grupos mafiosos de Santos para os portos equatorianos, o que apenas reforça a gravidade da situação.

A análise das mensagens trocadas pelos acusados revelou também a participação da máfia dos Bálcãs na aliança. Em 15 de outubro de 2020, Nicholas Charles mencionou um trabalho com traficantes albaneses e a necessidade de um doleiro para recolher dinheiro, indicando planos de enviar drogas para Hamburgo, na Alemanha. No dia seguinte, ele repassou a Pasquino uma conversa com Demétrio sobre esses albaneses. Segundo a PF, o grupo do PCC tinha três carregamentos simultâneos: um para a máfia italiana (Gioia Tauro), outro para os albaneses (sem previsão de envio) e um terceiro com destino à Austrália, evidenciando a amplitude global do esquema.

As mensagens do PCC e a corrupção policial

Para a PF, a organização criminosa utilizava um aplicativo de mensagens criptografadas, o Sky-ECC, criando “um novo grupo a cada envio de drogas” para discutir os detalhes do tráfico. Demétrio, por sua vez, arcava com as despesas dos parceiros italianos e albaneses em João Pessoa, enviando a droga em contêineres de frutas para Gioia Tauro ou em refrigerados para Valência, na Espanha. Em uma das comunicações, o brasileiro revelou que os integrantes do grupo no Equador aguardavam “o melhor momento para inserir o entorpecente”, o que envolvia “monitoramento da polícia, uso de barcos velozes e armamento pesado para garantir a entrega das drogas”, segundo a PF.

Questionamentos sobre o momento ideal para o desembarque e as razões das perdas de carregamentos apreendidos pela polícia eram constantes. As mensagens também sugerem que parte da droga seria fornecida por um “pessoal ligado a André do Rap (André de Oliveira Macedo)”, um notório traficante do PCC, e que o grupo utilizava pistas de pouso clandestinas na Bolívia, Uruguai ou Equador para a logística inicial.

As evidências federais também apontam para a corrupção de policiais e agentes portuários no Brasil, Equador, Espanha e Uruguai. Em 2020, Nicholas e Demétrio negociaram o envio de uma tonelada de cocaína a Barcelona. Nicholas ofereceu-se para ir à cidade como garantia pessoal, “assegurando que a retirada da droga seria feita por uma esquadra de cinco policiais, garantindo a segurança da operação”, um fato que “mostrou a confiança e o comprometimento de Nicholas com a operação”, conforme o relatório da PF. Situação semelhante foi observada no Equador: “Lá todo mundo comprado, polícia, porto, tudo...”, confessou Demétrio a um comparsa, revelando que trabalhava com a 'Ndrangheta e com um “albanês forte”, com quem enviou drogas para Hamburgo e Inglaterra.

A expertise de Demétrio lhe conferia grande credibilidade entre os grupos italianos e albaneses, facilitando a coordenação das operações. O esquema teria movimentado impressionantes R$ 4,8 bilhões entre 2018 e 2024 através de sete empresas, com uma única empresa registrando R$ 1,2 bilhão entre agosto de 2022 e maio de 2023. Os lucros e custos eram divididos, exemplificado por Nicholas Charles questionando Pasquino sobre um pagamento de US$ 6 milhões pelo transporte de um carregamento para Gioia Tauro, na Itália.

Para aumentar a capacidade logística, o grupo chegou a comprar o navio cargueiro Srakane, de bandeira panamenha, no início de junho de 2020. No entanto, problemas financeiros e o não pagamento de salários à tripulação levaram à autuação pelo Ministério Público do Trabalho em 8 de junho de 2020. Demétrio não conseguiu saldar as dívidas, e o navio foi abandonado no Porto de Santos, onde permaneceu até 2025, um indicativo das complexidades e desafios enfrentados até mesmo por essas redes criminosas.

Organograma do consórcio global

A sociedade entre o PCC e a 'Ndrangheta, conforme a PF, envolvia traficantes albaneses, sérvios e australianos. Um organograma detalhado, parte da Operação Conexão Paraíba, identificou quatro brasileiros como fornecedores, incluindo Demétrio e Caio Bernasconi Braga, conhecido como o Fantasma da Fronteira. Outros quatro homens, entre eles Nicholas, eram gerentes operacionais do esquema. Demétrio era ligado ao PCC não só por sua atuação, mas também por ser cunhado de Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, o segundo na hierarquia da facção, preso na Operação Conexão Paraíba. Bernasconi foi detido em 2023, assim como Nicholas na Espanha, embora este último tenha sido colocado em liberdade e esteja foragido, com prisão decretada novamente pela Operação Conexão Paraíba.

A 'Ndrangheta contava com seis membros na sociedade com o PCC, incluindo os mafiosos Rocco Morabito, Vincenzo Pasquino, Christian Sambati, Giuseppe Grillio, Domenico Vitale e Cesare Antonio Arcorace. Além deles, o organograma listava traficantes albaneses e australianos. As defesas dos italianos, de Bernasconi e de Carambola não foram localizadas pela reportagem. A complexidade dessa aliança revela um cenário global onde o crime organizado opera com uma coordenação assustadora, adaptando-se e explorando vulnerabilidades para expandir seu domínio e seus lucros ilícitos, desafiando as autoridades em diversas jurisdições.

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