CONTROLE INTERNO
Paulo Gonet esvazia rede de e-mails críticos no MPF
Portaria 266, de 30 de abril, provoca debandada de mais de 700 membros de lista anterior.
A cúpula do Ministério Público Federal enfrenta um turbilhão de críticas após a instituição de uma nova e-mail lista interna, que restringe o debate entre procuradores. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, por intermédio do vice-procurador-geral Hindemburgo Chateaubriand Pereira Diniz Filho, assinou a Portaria 266 em 30 de abril, definindo rígidas normas para a comunicação oficial. A medida, que já surtiu efeito com a debandada de membros de uma lista anterior mais livre, é vista como uma tentativa de silenciar as vozes críticas sobre a gestão e decisões importantes, como a potencial delação premiada de Daniel Vorcaro, gerando profunda preocupação sobre a autonomia e a liberdade de expressão dentro da instituição nesta quarta-feira, 06/05/2026.
Anteriormente, a “Rede Membros” permitia que procuradores e assistentes de todo o país trocassem informações e opiniões sobre temas da carreira, funcionando como um fórum aberto. Nas últimas semanas, contudo, esse espaço se tornou palco de intensas discussões. O motivo principal foi a iminência da entrega da delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, que poderia implicar ministros do Supremo Tribunal Federal, próximos à cúpula da PGR. Diante de sinais de que a Procuradoria-Geral poderia não denunciar os potenciais delatados, a insatisfação cresceu.
Além disso, a rede interna também abrigou questionamentos sobre outras decisões da administração do MPF, como o controverso debate a respeito do fim dos chamados “penduricalhos”, benefícios adicionais à remuneração. Essa efervescência de opiniões refletia uma insatisfação generalizada com a direção da instituição.
Fontes indicam que, pelo menos, quatro procuradores foram encaminhados à Corregedoria do órgão após manifestarem críticas ao comando do MPF na “Rede Membros”. Um dos casos mais emblemáticos teria mencionado o uísque Macallan, servido em um encontro de autoridades em Londres, do qual participaram o próprio Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Paulo Gonet. Essa referência sublinhou a percepção de uma proximidade incômoda entre a cúpula e figuras investigadas ou politicamente sensíveis.
Foi nesse cenário que o vice-procurador-geral da República, Hindemburgo Chateaubriand Pereira Diniz Filho, braço direito de Gonet na administração do MPF, baixou a Portaria 266 em 30 de abril. O documento criou a “Rede Institucional”, uma nova lista de e-mails para a comunicação interna, visando substituir a “Rede Membros”.
A nova portaria impõe severas restrições aos temas que podem ser debatidos. “As postagens do membro devem se limitar ao esclarecimento de dúvidas quanto à aplicação de normas ou atos institucionais, não se prestando ao envio de análises críticas ou de propostas alternativas acerca dos atos editados”, afirma o texto. Essa cláusula, na prática, proíbe explicitamente qualquer manifestação de opinião ou crítica construtiva, sufocando o diálogo.
A portaria também serve como um alerta claro: “A Corregedoria do MPF acompanhará o eventual descumprimento das regras de uso”, sinalizando possíveis punições para aqueles que ousarem desrespeitar os novos limites. Além disso, a participação na “Rede Institucional” é obrigatória, ao contrário da “Rede Membros” anterior, que era facultativa. Essa obrigatoriedade, combinada com a restrição de conteúdo, cria um ambiente de controle e vigilância.
A medida surtiu efeito imediato e visível. Desde a edição da portaria, a “Rede Membros” registrou uma drástica diminuição no número de integrantes, caindo de mais de 1.000 para menos de 300 nesta semana, conforme relatos de seus participantes. Esse esvaziamento expressa o descontentamento e a adaptação forçada dos membros às novas regras.
Entre integrantes do MPF, a avaliação é de que há uma clara tentativa de calar a classe. A gestão Gonet é percebida por parte dos procuradores como “sem rumo” e “subserviente ao STF”, de acordo com uma fonte, o que reforça a leitura de que a portaria visa conter opositores internos e evitar constrangimentos públicos.
Em contrapartida, Gonet e Hindemburgo, ao serem procurados, defenderam a criação da lista institucional. A justificativa oficial é a de segmentar e garantir a efetividade da entrega de mensagens administrativas. Alegam que o grande volume de e-mails na lista antiga fazia com que muitos servidores bloqueassem o recebimento, perdendo informações relevantes para a gestão. A cúpula, assim, insiste que a medida é puramente técnica e funcional.
*Com informações de CNN
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