DECISÃO POLÊMICA
Partido Democrata divulga relatório sobre derrota de Kamala para Trump, mas rejeita suas conclusões
Direção do partido se distancia de análises sobre a derrota de Kamala Harris para Donald Trump em 2024, apesar de publicá-las.
Um comitê nacional do Partido Democrata decidiu, nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026, divulgar um relatório sobre a derrota de Kamala Harris para Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos de 2024. A decisão de tornar público o documento, que ocorreu após meses de pressão de integrantes da legenda, veio acompanhada de um gesto incomum: a própria direção democrata tratou de se distanciar publicamente das conclusões apresentadas no texto. A medida é vista como uma tentativa de gerenciar as expectativas internas e a opinião pública às vésperas das eleições legislativas de novembro.
O relatório, descrito como uma autópsia da derrota eleitoral, aponta que os democratas perderam espaço para os republicanos, entre outros motivos, devido a uma "incapacidade persistente ou falta de disposição para ouvir todos os eleitores". A análise sugere ainda que a legenda teve desempenho fraco entre homens, eleitores sem diploma e votantes irregulares — grupos que vêm migrando para os republicanos nos últimos anos. Segundo o documento, Kamala Harris teria ignorado a "América rural" e não conseguido atacar Trump com "poder de fogo" suficiente.
A divulgação acontece a menos de seis meses das eleições legislativas de novembro, nas quais os democratas esperam aumentar o número de assentos no Congresso, diante da queda de popularidade de Trump. O partido, no entanto, continua em busca de uma mensagem unificadora para a disputa presidencial de 2028.
O documento foi publicado pelo Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês) em uma "reviravolta extraordinária", segundo o jornal The New York Times. O presidente do partido, Ken Martin, havia anteriormente desdenhado do documento, classificando-o como incompleto e impreciso.
Em comunicado divulgado junto ao relatório, Martin afirmou que o texto não atende aos seus padrões, mas que decidiu torná-lo público para restaurar a confiança dentro do partido. O documento tem 192 páginas e traz, no topo de cada uma delas, um aviso de que o "conteúdo reflete as opiniões do autor, não do DNC". Há também observações adicionadas pela direção do partido apontando supostas imprecisões e conclusões apresentadas sem provas.
O relatório foi escrito pelo consultor democrata Paul Rivera e concluído no fim do ano passado. O texto vinha sendo mantido em sigilo, o que gerou irritação entre integrantes da legenda. Inicialmente, Martin havia prometido divulgar o material, mas mudou de ideia em dezembro, alegando não querer estimular disputas internas e troca de acusações sobre a derrota de 2024, preferindo focar no futuro do partido.
Nesta quinta-feira, contudo, Martin reconheceu que a decisão de manter o relatório em segredo produziu o efeito contrário, ampliando as críticas à sua liderança devido a uma suposta falta de transparência. "Por isso, peço sinceras desculpas", escreveu em comunicado.
Pesquisas recentes mostram insatisfação entre eleitores do partido, apesar das perspectivas favoráveis para os democratas nas eleições legislativas. Um levantamento do The New York Times em parceria com o Siena College apontou frustração disseminada entre diferentes alas democratas.
O relatório critica a interpretação de que seriam necessárias apenas mudanças pequenas na estratégia do partido, classificando-a de "negacionista em sua essência". Segundo a análise, o Partido Democrata "oscilou entre estagnação e retrocesso" desde a vitória de Barack Obama em 2008.
A análise também atribui parte da responsabilidade à Casa Branca de Joe Biden. O relatório conclui que o então presidente falhou em preparar Kamala Harris para sucedê-lo enquanto ela atuava como vice-presidente, deixando-a em posição fragilizada quando o então presidente desistiu da candidatura à reeleição de forma abrupta, em julho de 2024.
Relatórios desse tipo são comuns na política americana. Democratas e republicanos costumam encomendar análises internas após derrotas importantes, ouvindo líderes partidários, ativistas e doadores para identificar erros de estratégia, comunicação e mobilização.
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