IMPRENSA VITAL
ONU alerta para cenário crítico da Liberdade de Imprensa
Mensagem do secretário-geral António Guterres destaca impunidade e impactos na verdade; Brasil avança em ranking.
A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um alerta grave sobre a escalada de riscos enfrentados por jornalistas em todo o mundo, que vão desde censura e vigilância até assédio e assassinatos, nesta domingo, 03/05/2026. A mensagem, proferida no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, sublinha como a segurança dos profissionais e o acesso à informação fidedigna estão sob ameaça crescente, impactando diretamente a dignidade humana e a coesão social ao minar a verdade e a confiança pública.
Em sua declaração, o secretário-geral António Guterres afirmou que a atividade jornalística atravessa um momento de pressão sem precedentes. Ele destacou o aumento acentuado de jornalistas mortos nos últimos anos, muitos deles deliberadamente visados em zonas de conflito. Guterres denunciou ainda que 85% dos crimes cometidos contra profissionais da imprensa não são investigados nem resultam em condenação, um nível de impunidade que ele classificou como “inaceitável”.
O líder das Nações Unidas ressaltou o sacrifício pessoal de jornalistas, que colocam a própria segurança em risco para relatar fatos e buscar a verdade. Essa busca ocorre tanto em cenários de guerra quanto em contextos onde autoridades e grupos de poder tentam evitar fiscalização pública e escrutínio. Guterres adicionou que fatores como crises econômicas, novas tecnologias e a manipulação de informações têm ampliado a pressão sobre a liberdade de imprensa globalmente, aprofundando a desconfiança social e fragilizando a coesão entre sociedades.
Segundo o secretário-geral, ataques ao jornalismo dificultam a prevenção e a resolução de crises, ao comprometerem a circulação de informações verificadas e o acompanhamento de acontecimentos de interesse público. Ao final de sua mensagem, António Guterres defendeu a proteção dos direitos dos jornalistas e pediu a construção de um ambiente em que esses profissionais possam atuar com segurança e em que a verdade seja preservada como um pilar fundamental da democracia.
Violência online amplia riscos para mulheres jornalistas
Além das ameaças físicas e institucionais, profissionais da imprensa, especialmente as mulheres, enfrentam um aumento alarmante da violência digital. Dados do relatório "Ponto de Virada: Impactos, Manifestações e Reparação da Violência Online na Era da Inteligência Artificial" mostram que, desde 2020, delegacias e postos policiais em todo o mundo passaram a receber o dobro de denúncias relacionadas à violência contra mulheres que atuam no jornalismo.
O estudo, financiado pela União Europeia e encomendado pela ONU Mulheres, revela a profundidade do problema: 12% das entrevistadas relataram ter sofrido compartilhamento não consensual de imagens pessoais, incluindo conteúdos íntimos ou sexuais. Outras 6% afirmaram ter sido vítimas de "deepfakes", enquanto quase uma em cada três recebeu mensagens com investidas sexuais não solicitadas. A pesquisa conclui que esses ataques são frequentemente deliberados e coordenados, visando silenciar mulheres em espaços públicos e comprometer sua credibilidade profissional e reputação pessoal.
Os impactos dessa violência digital já se manifestam no comportamento das vítimas. O levantamento indica que 41% das mulheres entrevistadas afirmaram praticar autocensura nas redes sociais para evitar abusos, e 19% disseram restringir sua atuação profissional como consequência direta da violência online. Entre jornalistas e profissionais da mídia, esses índices são ainda mais altos: 45% relataram autocensura nas redes sociais no último ano (um aumento de 50% em relação a 2020), e quase 22% disseram limitar conteúdos ou posicionamentos no trabalho. Uma em cada quatro jornalistas foi diagnosticada com ansiedade ou depressão associadas à violência digital, e quase 13% relataram diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático.
O relatório também aponta fragilidade na proteção legal. Com base em dados do Banco Mundial, menos de 40% dos países possuem legislação específica para proteger mulheres contra assédio cibernético e perseguição online. Essa lacuna jurídica deixa cerca de 1,8 bilhão de mulheres e meninas sem o respaldo necessário para sua segurança e dignidade.
Kalliopi Mingeirou, chefe da Seção de Fim da Violência contra as Mulheres da ONU Mulheres, declarou que o avanço da Inteligência Artificial tem tornado o abuso online mais acessível e nocivo. Ela enfatizou que esse cenário contribui para a erosão de direitos em um contexto de retrocessos democráticos e misoginia em rede, exigindo respostas urgentes de sistemas legais, plataformas digitais e instituições para reverter essa tendência preocupante.
Brasil passa EUA em ranking de Liberdade de Imprensa pela 1ª vez
Em um contraponto aos desafios globais, o Brasil registrou um avanço significativo no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, publicado na quinta-feira, 30 de abril de 2026, pela organização RSF (Repórteres Sem Fronteiras). O país subiu para a 52ª posição no ranking deste ano, ultrapassando, pela primeira vez, os Estados Unidos, que ocupam o 64º lugar.
Dentre as 180 nações avaliadas, o Brasil avançou impressionantes 58 posições desde 2022, quando ocupava o 111º lugar. Em relação a 2025, os brasileiros subiram cinco posições, saindo do 63º lugar e superando os americanos pela primeira vez desde a criação do índice, em 2002.
Os Estados Unidos, por sua vez, registraram outra queda pelo quarto ano consecutivo, indo da 42ª posição em 2022 para a atual 64ª. Segundo a organização, Washington caiu nos indicadores de Segurança e de Contexto Político. O documento da RSF afirma que "O presidente dos EUA, Donald Trump, transformou seus repetidos ataques à imprensa e aos jornalistas em uma política sistemática."
A melhora brasileira é atribuída à implementação de protocolos que investigam crimes contra profissionais de imprensa e ao fato de não haver registros de assassinatos de jornalistas no país desde 2022. A facilitação do acesso à informação no Brasil também é apontada como um fator para a melhoria na posição, assim como o fim de hostilidades do governo contra a imprensa do país, que ocorria no período anterior a 2023.
Apesar da melhora, o Brasil ainda é avaliado como um país em condição problemática, que deve aprimorar quesitos políticos, econômicos e sociais para garantir uma liberdade de imprensa plena. Em primeiro lugar no índice apareceu a Noruega, celebrada por seu "mercado de mídia dinâmico, uma emissora pública forte, setor privado diversificado e editoras com independência editorial". Em contraste, a Eritreia ocupa a pior posição, mantendo controle total da mídia, sem veículos independentes e com vigilância constante sobre jornalistas, muitos dos quais estão aprisionados.
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