PACOTE RURALISTA CRITICADO

ONGs criticam aprovação de projetos da bancada ruralista que fragilizam fiscalização e biomas

Deputada Sonia Guajajara em pronunciamento sobre a votação de projetos da bancada ruralista.
Sonia Guajajara, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas, se manifestou contra o pacote de projetos.

Entidades socioambientais denunciam que medidas aprovadas na Câmara dos Deputados, articuladas pelo presidente Hugo Motta, causam danos ambientais irreversíveis e comprometem metas internacionais do Brasil.

Uma rede de entidades socioambientais, liderada pelo Observatório do Clima, manifestou profunda crítica à aprovação de um conjunto de projetos de lei, apelidado de “Semana do Agro”, na Câmara dos Deputados. Na quarta-feira, 20 de maio de 2026, as organizações divulgaram um manifesto denunciando que as votações em massa foram articuladas entre a Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) e o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Segundo as entidades, as medidas representam danos irreversíveis ao meio ambiente e colocam em xeque as metas ambientais internacionais assumidas pelo Brasil.

Durante dois dias, os deputados aceleraram a análise e aprovação de propostas que alteram significativamente a fiscalização ambiental e os regimes de proteção territorial. Entre os projetos mais preocupantes estão o PL 2.564/25, que dificulta a fiscalização do setor, e o PL 364/19, que flexibiliza a proteção de formações vegetais não florestais. Adicionalmente, foi aprovado o PL 2.486/26, que reduz o status de proteção da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, convertendo parte de sua área em Área de Proteção Ambiental (APA), abrindo caminho para a propriedade privada e o uso agropecuário.

A deputada federal Sonia Guajajara (Psol-SP), ex-ministra dos Povos Indígenas, também se manifestou enfaticamente contra o pacote nesta quinta-feira, 21 de maio. Em suas redes sociais, classificou a articulação do Congresso como “inaceitável”, alertando para a destruição da natureza e a violação de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Ela assegurou que a bancada de seu partido atuou ativamente contra a proposta, defendendo que o futuro do país não deve ser comprometido por interesses destrutivos.

Sonia Guajajara em pronunciamento sobre votação de projetos da bancada ruralista

IMPACTO NOS BIOMAS

Malu Ribeiro, diretora de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, detalhou o impacto do PL 364/19, estimando que ele retira a proteção de aproximadamente 48 milhões de hectares de campos nativos. A entidade alertou que essa medida coloca em risco: 50% do bioma Pantanal (7,4 milhões de hectares), 32% dos Pampas (6,3 milhões de hectares), 7% do Cerrado (13,9 milhões de hectares) e quase 15 milhões de hectares na Amazônia.

Clarissa Presotti, especialista do WWF-Brasil, considera as alterações na Flona do Jamanxim um precedente perigoso para a desproteção de áreas naturais no país. Segundo ela, a flexibilização sinaliza que práticas como grilagem e desmatamento ilegal dentro de unidades de conservação podem ser futuramente legalizadas através da titulação de terras.

SUPERPODERES E REPERCUSSÃO

O Observatório do Clima também expressou preocupação com a possível votação, prevista para a quinta-feira, 21 de maio, do PL 5.900/25, projeto que conferiria “superpoderes” ao Ministério da Agricultura. Mariana Lyrio, assessora de políticas públicas da rede, criticou o rito acelerado de tramitação sob a gestão de Hugo Motta, argumentando que essa ofensiva prejudica a reputação e a inserção do próprio agronegócio brasileiro nos mercados internacionais.

Representantes do Greenpeace e da Arayara classificaram as aprovações como um retrocesso democrático e ambiental. Segundo o monitoramento realizado pelas entidades, a pauta da Câmara priorizou, neste momento, interesses de financiamento de campanhas eleitorais em detrimento do cumprimento de metas climáticas assumidas pelo Brasil, como o desmatamento zero até 2030.

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