SAÚDE & CÂNCER
Oncologista Antonio Carlos Buzaid: "Ultraprocessados são cancerígenos"
Especialista que tratou Ana Maria Braga assume novos centros e critica atraso de terapias no SUS.
O renomado oncologista Antonio Carlos Buzaid emite um alerta crucial sobre a saúde pública no Brasil, defendendo que medidas estruturais de prevenção e o acesso equitativo a terapias modernas são pilares essenciais no combate ao câncer. A voz do especialista, que desde março assume a direção médica-geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis, em São Paulo, ecoa nesta quarta-feira, 29/04/2026, com foco na dignidade dos pacientes e na urgência de reavaliar hábitos e políticas para transformar a realidade da doença no País.
Com vasta experiência em instituições de renome como o Hospital Sírio-Libanês e a Beneficência Portuguesa de São Paulo, Buzaid é uma figura reconhecida na área, tendo inclusive liderado o tratamento da apresentadora Ana Maria Braga. Cofundador do Instituto Vencer o Câncer, ele reforça sua crença de que a luta contra a doença transcende o diagnóstico, exigindo um olhar atento à prevenção e à democratização de tratamentos avançados.
Para o especialista, a estratégia para reduzir a incidência de novos casos de câncer precisa ir além do diagnóstico precoce. "Não só rastreio, mas prevenção. A prevenção com vacina para HPV, contra o câncer do colo do útero, por exemplo. Rastreio já é tarde. Com o advento da vacina, principalmente a nonavalente, essa é uma doença que tem que ser extinta do planeta", defende Buzaid, destacando a importância de antecipar-se à doença.
O médico ressalta que, apesar dos avanços na medicina, o câncer ainda ceifa vidas e lidera causas de morte em diversas partes do País. Por isso, ele propõe políticas públicas mais contundentes: "Se eu fosse o governo, não só daria a vacina de graça. Eu pagaria uma ajuda de custo para que os adolescentes tomassem a vacina. Porque é muito mais caro você tratar um câncer do que dar uma vacina. Muita gente não entende o valor disso", critica, apelando por uma visão de longo prazo na saúde.
Além da imunização, Buzaid destaca a alimentação como um fator determinante na prevenção da doença. Ele estima que cerca de 30% dos casos de câncer globalmente possam estar diretamente ligados à dieta. "Sou um defensor agressivo da importância da dieta. A alimentação é provavelmente responsável por 30% dos cânceres no mundo", enfatiza, sublinhando o poder transformador de escolhas alimentares conscientes.
O oncologista também reforça a urgência de erradicar fatores de risco amplamente conhecidos. "Seria preciso banir o fumo completamente. O álcool também é cancerígeno", sentencia. Embora admita o consumo moderado em contextos sociais, ele pontua a importância de limites rigorosos: "Eu mesmo bebo um pouco: se tenho uma visita, abro um vinho, tomo uma taça. Sempre com muita, muita moderação", exemplifica.
Com veemência, o médico critica os alimentos industrializados. "Ultraprocessados são claramente cancerígenos também, deveriam, inclusive, ser banidos das escolas", declara, provocando um debate sobre a alimentação oferecida às novas gerações. Buzaid também evidencia o papel crucial da atividade física e de hábitos saudáveis para o equilíbrio do organismo. "Atividade física é assunto sério, deveria ser fomentada. Diminui o risco de câncer", defende.
O especialista esclarece que a influência desses hábitos se manifesta diretamente no sistema imunológico. "Não só a atividade, mas boas noites de sono e a redução de estresse reduzem os casos porque modulam o sistema imune", explica. Ele enfatiza a necessidade de um equilíbrio integral: "É importante trabalhar nessas quatro grandes esferas: dieta adequada, atividade física, sono reparador e manejo de estresse".
Buzaid ainda alerta para o impacto do açúcar e de aditivos na saúde intestinal. "O açúcar livre faz bactérias ruins crescerem no intestino e elas suprimem o sistema imune. E o sistema imune é modulado pela microbiota", explica. Quanto a adoçantes e carnes processadas, sua advertência é clara: "A carne processada tem nitritos e nitratos, que são provavelmente cancerígenos. E o adoçante porque mexe com microbioma". Ele revela usar estévia com moderação, mas ressalta que o consumo desses itens deve ser severamente limitado.
No que tange ao tratamento, o especialista critica veementemente a morosidade na chegada de novas terapias ao Brasil. Ele revela um atraso médio de seis meses a um ano em comparação com outros países, e lamenta que certos tratamentos sequer estejam disponíveis. A terapia celular TIL (linfócitos infiltrantes de tumor), por exemplo, crucial para casos de melanoma avançado, "cura 25% a 30% dos melanomas, quando a imunoterapia convencional não cura. E essa modalidade não existe aqui", denuncia, apontando uma lacuna que impacta diretamente a esperança de vida dos pacientes.
Buzaid reconhece que o custo exorbitante dessas tecnologias limita o acesso global; nos Estados Unidos, um tratamento pode superar US$ 1 milhão. Para mitigar as barreiras no Brasil, ele aposta incisivamente na pesquisa clínica. "No Instituto Vencer o Câncer, por exemplo, nós criamos 20 centros. Isso para que o paciente que não conta com seguro possa entrar num protocolo", detalha, oferecendo um caminho de esperança para aqueles sem recursos.
A disparidade no acesso se agrava na rede pública, onde "Não existe imunoterapia no SUS", afirma o oncologista, revelando uma realidade dolorosa para milhares de brasileiros. Ele usa o caso da apresentadora Ana Maria Braga para demonstrar o impacto salvador dessas terapias: "Ela está viva até hoje sem nenhum remédio porque recebeu uma combinação de quimio com imunoterapia". A expectativa é que biossimilares, mais acessíveis, possam democratizar o acesso futuramente, mas a previsão é de um atraso considerável: "Virão dez anos depois", lamenta.
Para o oncologista, o grande desafio reside em harmonizar custos e excelência no atendimento. "Numa medicina responsável, é possível manter o custo relativamente controlado e oferecer padrão-ouro", pondera. Contudo, Buzaid não hesita em expor as severas limitações do sistema. "Entristece o médico não poder oferecer aos seus pacientes o absoluto melhor", confessa, expressando a frustração de profissionais diante das barreiras que afetam a vida de seus pacientes.
A defesa irrestrita de Buzaid é clara: ampliar a prevenção, reduzir os fatores de risco e assegurar o acesso equitativo a tratamentos modernos são os pilares inegociáveis para frear o avanço do câncer e oferecer dignidade à vida no País.
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