GUERRA DE NARRATIVAS
Observatório Lupa revela campanha massiva de desinformação contra PL da Misoginia
Um novo estudo aponta que políticos de direita orquestram uma ofensiva digital para minar o Projeto de Lei 896/2023. O texto, que busca combater o ódio e a aversão às mulheres, já foi aprovado pelo Senado e agora está em tramitação na Câmara dos Deputados. Mensagens falsas exploram o medo e a polarização, distorcendo o debate sobre uma legislação crucial para a dignidade feminina.
Uma orquestrada campanha de desinformação nas redes sociais busca minar o Projeto de Lei 896/2023, o chamado PL da Misoginia, que visa combater o ódio e a aversão às mulheres. É o que revelou o Observatório Lupa em um estudo minucioso divulgado nesta domingo, 10 de maio de 2026, com dados coletados entre 24 de março e 30 de abril. Coordenada por políticos de direita, a ofensiva distorce um debate crucial para a dignidade feminina, empregando táticas de medo e informações falsas contra o projeto, já aprovado pelo Senado em março e agora em análise na Câmara dos Deputados. Se aprovado, o texto incluirá a "condição de mulher" na Lei do Racismo, prevendo penas de dois a cinco anos de prisão, além de multa, para práticas misóginas.
O levantamento do Observatório Lupa analisou mais de 289 mil publicações no X, 6,3 mil no Facebook, 2,9 mil no Instagram e mil no Threads, publicadas entre os dias 24 de março e 30 de abril de 2026. A partir desses dados, os pesquisadores identificaram picos de desinformação e padrões de comportamento que buscam confundir a opinião pública sobre a proposta legislativa. O PL 896/2023 define misoginia como “a conduta que exterioriza ódio ou aversão às mulheres”, um ponto central frequentemente ignorado ou deturpado nas mensagens falsas.
O principal ápice de engajamento da campanha de desinformação ocorreu em 25 de março, um dia após a aprovação da proposta no Senado. Este pico foi impulsionado por um vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que associou ao PL da Misoginia trechos de outro projeto de lei, o PL 4224/2024, da senadora Ana Paula Lobato, o qual não fazia parte do texto aprovado. A publicação de Ferreira alcançou ao menos 751 mil visualizações em apenas 24 horas antes de ser apagada e republicada sem o trecho enganoso.
Entre as principais narrativas falsas disseminadas, o estudo aponta que o projeto restringiria a liberdade de expressão e seria utilizado para “perseguir a direita”. Outra linha recorrente afirmava, de forma absurda, que perguntar a uma mulher se ela estava com TPM poderia levar alguém à prisão. Os autores do relatório destacam que "As publicações mais virais sobre o PL da Misoginia têm explorado, sobretudo, o medo como motor de engajamento."
Conteúdos inverídicos sugeriam, ainda, que a proposta provocaria “demissões em massa” de mulheres ou criminalizaria trechos da Bíblia. A pesquisa identificou o uso de inteligência artificial na criação de vídeos enganosos sobre as supostas consequências da legislação, como publicações alegando que empresários já estariam demitindo mulheres para evitar processos futuros.
Além de Nikolas Ferreira, o Observatório Lupa identificou outros atores influentes na circulação desses conteúdos, como o senador Flávio Bolsonaro (PL), o vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), o comentarista político Caio Coppola e a influenciadora Babi Mendes. O relatório também ressalta o crescimento de termos associados à cultura misógina "redpill", que retratam o projeto como uma ameaça injustificada aos homens. Menções irônicas a aplicativos de transporte, sugerindo medo de acusações falsas em interações cotidianas, também foram notadas.
Para os pesquisadores, essas postagens ignoram deliberadamente que a misoginia, no escopo da proposta, se relaciona a práticas discriminatórias que gerem “constrangimento, humilhação, medo ou exposição indevida” em razão do gênero. "Ao ignorar esse contexto, as postagens distorcem o debate e ampliam a desinformação", conclui o estudo. A propagação dessas falsidades não só deturpa o propósito de uma legislação essencial para a proteção das mulheres, mas também alimenta a polarização e a desconfiança em pautas de grande relevância social.
Com informações de Agencia Brasil
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