ALERTA CLIMÁTICO GLOBAL
NOAA prevê quase 100% de chance de El Niño a partir de setembro
Fenômeno pode gerar secas e enchentes extremas no Brasil. Intensidade para 2026-2027 ainda é incerta e objeto de especulações, alerta o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI).
Um novo ciclo do fenômeno El Niño tem alta probabilidade de desenvolvimento a partir de setembro de 2026, conforme indica a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) em suas projeções divulgadas neste domingo, 17 de maio de 2026. A instituição, referência global em prognósticos climáticos, revela chances de 60% de sua ocorrência já para o trimestre maio-junho-julho, elevando-se para mais de 90% na próxima primavera. Este cenário alerta para a necessidade de preparação diante dos potenciais impactos em comunidades e ecossistemas.
Entretanto, enquanto a confirmação da chegada do El Niño para a segunda metade do ano é praticamente certa, a intensidade do fenômeno para o período de 2026-2027 permanece um campo de incertezas e, por vezes, de informações sensacionalistas. Modelos climáticos de última geração permitem prever a evolução do El Niño com meses de antecedência e estimar anomalias de temperatura, possibilitando ações preventivas. Contudo, previsões de longo prazo, como as da intensidade para a primavera de 2026, podem apresentar imprecisões significativas.
A história por trás do El Niño
As primeiras observações do El Niño datam do século XIX, quando pescadores do norte do Peru e do Equador notaram, em épocas próximas ao Natal, um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial que afetava a pesca. Este fenômeno foi interpretado como um “sinal” e batizado em homenagem ao “El Niño” Jesus.
Mais tarde, na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker identificou a relação do fenômeno com as diferenças na pressão atmosférica e as mudanças nos ventos do Pacífico, que alteram as correntes oceânicas e a temperatura do mar. A partir de 1980, após o intenso El Niño de 1982-83, o tema ganhou vasta atenção científica.
O que é o El Niño e seus impactos globais
O El Niño é um fenômeno climático-oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas na região equatorial centro-leste. Ele faz parte do ciclo natural El Niño – Oscilação Sul (ENOS), cujo oposto é a La Niña, o resfriamento das águas superficiais no Pacífico tropical. O ENOS influencia o clima em todo o mundo, com efeitos distintos em cada região.
No Brasil, os impactos do El Niño incluem o aumento das chuvas no Sul e ao longo da costa do Peru e do Equador, secas na Amazônia e no Nordeste brasileiro, e maior frequência de ondas de calor no centro do Brasil. Globalmente, ele pode causar menor frequência de furacões no Atlântico Norte e aumentar as temperaturas gerais do planeta.
Grandes secas na Amazônia coincidiram com anos de El Niño, como em 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24. No entanto, é crucial notar que secas também ocorreram na ausência do fenômeno, como em 1963 e 2005 na Amazônia e em 2012 no Nordeste, relacionadas à variabilidade da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) no Atlântico tropical Norte. Isso ressalta a complexidade dos sistemas climáticos.
Previsões para 2026-2027: Entre a ciência e a especulação
A previsão atual aponta para um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Contudo, a precisão sobre sua intensidade ainda carece de dados conclusivos. Fontes oficiais indicam 25% de chance de um El Niño forte e outros 25% de um fenômeno muito forte – quando a temperatura do Pacífico central excede 2°C acima do normal.
O Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI), outra instituição de renome, alerta que as previsões feitas nesta época do ano carregam alta incerteza quanto à intensidade do ENOS. Será necessário aguardar até o próximo inverno de 2026 para obter projeções mais detalhadas e confiáveis sobre a força e os prováveis impactos do El Niño que se aproxima.
É vital compreender que o El Niño não causa desastres climáticos diretamente, mas altera a probabilidade de eventos extremos. Chuvas intensas ou ondas de calor podem ocorrer independentemente, mas o fenômeno pode amplificar chances e impactos, como visto em 2023 e 2024. Nesses anos, eventos combinados de calor e seca intensificaram incêndios na Amazônia e no Pantanal, e provocaram a morte de mais de 200 botos-cor-de-rosa por estresse térmico. No Sul do Brasil, inundações devastaram o Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no outono de 2024.
As notícias que circulam sobre secas severas e chuvas catastróficas na Região Sul para o próximo período, sem base em dados científicos confiáveis, são meras especulações e podem gerar alarde desnecessário. É imprescindível um monitoramento contínuo e a atualização de estudos, considerando a nova realidade das mudanças climáticas, para a compreensão e mitigação de riscos.
Os riscos de desastres não dependem apenas dos fatores climáticos extremos, mas também da exposição e vulnerabilidade da população, e da capacidade de proteção e ações de mitigação. A informação precisa e ética é a base para a preparação e resiliência das comunidades.
*Regina Célia dos Santos Alvalá é diretora do Cemaden.
*José Antônio Marengo é coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden.
*Marcelo Seluchi é doutor em Ciências Meteorológicas na Universidade de Buenos Aires.
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