CIÊNCIA E CLIMA
NASA utiliza avião da Guerra Fria para investigar tempestades geradas por incêndios
A missão INSPYRE emprega o jato ER-2, descendente do icônico U-2, para desvendar os mecanismos das nuvens pirocumulonimbus e aprimorar sistemas de previsão.
A NASA está utilizando uma versão modificada do avião espião U-2, tecnologia desenvolvida durante a Guerra Fria, para estudar um dos fenômenos meteorológicos mais complexos e desafiadores da Terra: as tempestades geradas por incêndios florestais. A aeronave, renomeada pela agência espacial como ER-2, foi adaptada para carregar um laboratório científico completo, substituindo funções militares por instrumentos de alta precisão dedicados a entender o comportamento das nuvens pirocumulonimbus.
O fenômeno, que ocorre quando o calor extremo de um incêndio eleva fumaça e gases à atmosfera, criando nuvens gigantescas capazes de produzir raios e tornados de fogo, foi investigado pela missão em julho, quando a aeronave sobrevoou incêndios florestais no norte do Oregon e no oeste do Canadá.
David A. Peterson, meteorologista do Laboratório de Pesquisa Naval e investigador principal do experimento INSPYRE, explica que essas colunas de fumaça atuam como chaminés. Ao atingirem altitudes elevadas, esses sistemas podem romper barreiras atmosféricas, transportando poluentes rapidamente através das correntes de jato — um efeito que Peterson compara à erupção de um vulcão.
A capacidade de voar a 20.000 metros de altitude torna o ER-2 um verdadeiro satélite controlável. Enquanto o jato monitora o campo elétrico e o tamanho da pluma de fumaça, a NASA opera simultaneamente um Gulfstream 5 dentro das nuvens. A integração desses dados é considerada essencial para que a equipe científica possa desenvolver ferramentas capazes de prever com precisão o comportamento desses incêndios.
A história da aeronave confunde-se com a geopolítica do século XX. O modelo original, apelidado de "Dama Dragão" ou "Dragon Lady", foi criado na década de 1950 para vigiar a URSS atrás da Cortina de Ferro. Embora o projeto tenha sofrido um revés em 1960, quando o piloto Francis Gary Powers foi abatido, a plataforma provou ser tecnologicamente robusta, servindo aos Estados Unidos em conflitos como a Crise dos Mísseis de Cuba, Vietnã, Iraque e Afeganistão. Hoje, sete décadas após seu primeiro voo, a "Dragon Lady" ressurge como uma aliada crucial no combate aos desastres ambientais modernos.
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