BATISMO DE FOGO

Mossoró rejeita ultimato de Lampião e celebra 99 anos da sua histórica resistência

Ilustração de cangaceiros sendo repelidos por cidadãos armados em uma rua de Mossoró.
Representação artística da resistência de Mossoró contra o bando de Lampião.

Em 13 de junho de 1927, a cidade potiguar ousou desafiar o "Rei do Cangaço", marcando um ponto de virada na sua invencibilidade e inspirando gerações.

Nesta sábado, 13 de junho de 2026, completam-se 99 anos desde que a cidade de Mossoró, a segunda maior do Rio Grande do Norte, enfrentou e repeliu o bando de Lampião, o mais temido cangaceiro do Nordeste. A decisão de resistir, tomada pelo então prefeito Rodolfo Fernandes, não apenas salvou a cidade do saque, mas se tornou um divisor de águas na história do cangaço, provando que a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, não era invencível. A coragem demonstrada naquele dia ecoa até hoje, mantendo viva a memória do "Batismo de Fogo" em escolas, cordéis, canções e tradições culturais.

A tensão começou em 13 de junho de 1927, quando o prefeito Rodolfo Fernandes recebeu um aviso: o bando de Lampião se aproximava com a exigência de 400 contos de réis para poupar Mossoró. Em uma resposta que desafiou a própria lenda do cangaceiro, Fernandes recusou o pagamento e declarou que a cidade não se renderia. E assim foi. Mossoró se preparou, montando trincheiras em pontos estratégicos, como em frente à Igreja de São Vicente.

Por volta das 17h30, a cidade, que havia parado em expectativa, foi tomada pelo som de um intenso tiroteio que durou cerca de duas horas. De um lado, aproximadamente 80 cangaceiros; do outro, mais de 200 homens determinados a defender seu lar. O confronto resultou na captura de José Leite de Santana, conhecido como Jararaca, um ex-soldado do Exército, e na morte de um de seus comparsas, Colchete, que tentava ajudar na fuga. Lampião, diante da resistência inesperada e das baixas, reuniu o que restava de seu bando e fugiu, nunca mais retornando à cidade.

Jararaca, após ser julgado pela população e levado à prisão em Mossoró, tornou-se figura de lendas. Há relatos de que teria sido arrastado para a capital, Natal, mas teria sido baleado e forçado a cavar a própria cova antes de ser enterrado vivo no cemitério São Sebastião. Até hoje, seu túmulo atrai visitantes no Dia de Finados, com a crença popular de que sonhar com ele pode revelar números da loteria.

A resistência de Mossoró marcou o início de uma nova era, tanto para a cidade quanto para a imagem de Lampião. A fama de invencibilidade do cangaceiro sofreu seu maior abalo, e o episódio se tornou um símbolo de valentia em todo o Nordeste. A relevância histórica inspirou a obra "Chuva de Bala no País de Mossoró", de Tarcísio Gurgel, encenada anualmente durante o Mossoró Cidade Junina, atraindo milhares de espectadores e mantendo a memória viva.

O cangaço, fenômeno social do sertão nordestino entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, se caracterizava por grupos nômades que praticavam saques e extorsões. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi seu nome mais proeminente. Mulheres, como Maria Bonita, também integraram os bandos. A trajetória de Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando chegou ao fim em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, em Sergipe, onde foram executados por uma volante policial.

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