LUTADORA INESQUECÍVEL
Morre Marcelly Malta Lisboa, referência da luta trans no Brasil
Morre aos 75 anos Marcelly Malta Lisboa, fundadora da ONG Igualdade e pioneira na defesa dos direitos LGBTQIA+ no Rio Grande do Sul e no Brasil. Sua luta por dignidade e inclusão deixa um legado permanente.
A ativista Marcelly Malta Lisboa, uma das principais referências na luta pelos direitos da população LGBTQIA+ no Rio Grande do Sul e no Brasil, faleceu neste sábado, 04/07/2026, aos 75 anos. A notícia foi confirmada pela ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, entidade que Marcelly fundou no fim da década de 1990.
Nascida em março de 1951, em Mato Leitão, Vale do Rio Pardo (RS), Marcelly dedicou sua vida à defesa dos direitos humanos, da saúde e da cidadania da população trans. Sua trajetória incluiu a participação ativa na formulação de políticas públicas voltadas ao combate à violência e à promoção da inclusão social.
Em nota, a ONG Igualdade celebrou o legado da ativista, descrevendo-a como "uma mulher travesti de coragem, força e dignidade. Uma guerreira incansável na luta pelos direitos da população trans e travesti do Brasil, que deixou sua marca por meio da resistência, do acolhimento e da defesa de uma sociedade mais justa e igualitária."
Marcelly, que possuía comorbidades e estava hospitalizada nos últimos dias, faleceu em sua residência, em Porto Alegre. O velório está programado para ocorrer neste domingo, 05/07/2026, das 7h às 12h, na Casa dos Conselhos, na capital gaúcha.
Marco histórico para pessoas trans
Em 2011, quando liderava o Conselho Municipal de Direitos Humanos de Porto Alegre, Marcelly obteve na Justiça o direito à retificação de seu nome no registro civil. Essa conquista representou um avanço significativo para a população trans, abrindo caminho para que outras pessoas buscassem o mesmo reconhecimento legal. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou essa prerrogativa, permitindo que pessoas trans alterassem nome e gênero diretamente no registro civil, sem necessidade de cirurgia ou decisão judicial.
Durante a ditadura militar, Marcelly enfrentou prisões, discriminação e diversas formas de violência, demonstrando sua resiliência e força em tempos adversos.
Atuação na prevenção ao HIV
Formada como auxiliar de enfermagem, Marcelly ingressou no serviço público em 1979. No início dos anos 1990, mudou-se para a Europa, período marcado pelo avanço da epidemia de HIV/Aids. Ao retornar ao Brasil, compartilhou conhecimentos sobre prevenção e tratamento do vírus com travestis em Porto Alegre, consolidando-se como liderança na área da saúde e dos direitos da população trans. Sua atuação no Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa) fortaleceu seu engajamento no movimento social, e ela também participou da formação de agentes e delegados da Polícia Civil.
Além de sua carreira na enfermagem, Marcelly trabalhou como profissional do sexo, afirmando em uma entrevista ao TravaTalk Podcast há um ano: “Não foi o Estado que me deu o que tenho, foi a prostituição”, evidenciando a importância de todas as vivências em sua trajetória de luta e sobrevivência.
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