SAÚDE E TRABALHO

Ministro Marinho mantém fiscalização contra burnout em empresas

Gráfico ou ilustração representando dados sobre saúde mental e afastamentos no trabalho.
Saúde mental no trabalho: o que mostram os dados — Foto: Arte g1

Afastamentos por esgotamento profissional cresceram 823% em 4 anos. Regras da NR-1 entram em vigor até 26 de maio.

Combate ao Esgotamento: Governo Mantém Fiscalização Rígida Contra Burnout

O Ministério do Trabalho e Emprego, por meio do Ministro Luiz Marinho, confirmou nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026, a manutenção do prazo para a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passará a fiscalizar e punir empresas por riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A medida, adiada no ano passado e agora com prazo final para 26 de maio, chega em um momento crítico, enquanto o Brasil vê um crescimento alarmante de 823% nos afastamentos por burnout em apenas quatro anos, evidenciando a urgência de proteger a saúde mental de milhares de profissionais.

Este aumento vertiginoso não é apenas uma estatística; ele reflete um cenário de sofrimento e esgotamento que atinge o coração da vida de milhares de brasileiros. Dados do Ministério da Previdência Social, obtidos com exclusividade, revelam que os benefícios por incapacidade temporária devido ao esgotamento profissional saltaram de 823 em 2021 para 7.595 em 2025, um salto de quase nove vezes. O Ministério Público do Trabalho (MPT) corrobora esse quadro, registrando um aumento de 438% nas denúncias relacionadas à saúde mental no ambiente laboral, passando de 190 para 1.022 no mesmo período. Em 2025, o país concedeu mais de meio milhão de licenças por transtornos mentais, superando o pico histórico de 2024 e consolidando uma crise que exige ação imediata.

A Crise Silenciosa: O Que Justifica o Aumento?

Para especialistas, os números alarmantes não apontam somente para uma explosão repentina de novos casos de adoecimento, mas para uma complexa combinação de fatores. O psiquiatra Arthur Danila, Coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida (PROMEV) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, identifica três fenômenos simultâneos: a piora real nas condições de trabalho, um maior reconhecimento do problema pela sociedade e mudanças na forma de registrar o sofrimento psíquico.

Danila descreve um ambiente de trabalho cada vez mais acelerado, conectado e competitivo, onde muitos profissionais enfrentam altas demandas, pressão incessante por resultados e pouca chance de recuperação entre as jornadas. Além disso, a "jornada expandida invisível" – a permanência em estado de alerta por meio de mensagens e e-mails fora do expediente – mina o descanso psicológico e corrói a fronteira entre vida profissional e pessoal.

"O trabalhador contemporâneo vive mais conectado, monitorado, competitivo e com menos previsibilidade. É uma combinação muito tóxica", explica o especialista. Essa vigilância contínua mantém o organismo em um modo de ameaça constante, deteriorando o sono, aumentando a irritabilidade e diminuindo a concentração.

Um marco importante foi a inclusão do burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022. Com essa mudança, o esgotamento profissional deixou de ser tratado como "estresse" genérico e passou a ser reconhecido como um fenômeno ocupacional diretamente ligado ao trabalho. Isso ajudou a delimitar melhor o conceito, caracterizado por exaustão intensa, distanciamento mental em relação às tarefas e redução da eficácia profissional.

O psiquiatra destaca que, embora haja uma redução parcial do estigma em torno da saúde mental, os casos chegam aos serviços de saúde com maior complexidade. Ele alerta contra a banalização do burnout, mas ressalta que tratá-lo como fragilidade individual é um erro ainda mais grave. "Muitos pacientes apresentam insônia persistente, crises de ansiedade, sintomas depressivos e prejuízo significativo na vida pessoal e familiar", detalha Danila, lembrando que o problema foi historicamente subnotificado, com muitos casos registrados de forma genérica como depressão ou ansiedade.

Quem Sente na Pele: Histórias Reais de Esgotamento

Por trás dos números, estão histórias de vida de profissionais que viram sua saúde mental ser corroída pelo ambiente de trabalho. Marcela Moreira, formada em física e com uma carreira promissora na área de dados em um banco, começou a sentir os sinais do esgotamento após anos de metas rígidas e pressão constante.

O ambiente corporativo, já estressante, se intensificou quando ela passou a lidar com demandas urgentes e cobranças diárias. "O trabalho exige que você esteja sempre se provando, aprendendo sozinho e entregando rápido. Isso vai se acumulando", relata. A exaustão se tornou tão normalizada que Marcela só percebeu a gravidade da situação quando amigos e familiares expressaram preocupação.

Entre os sintomas, ela descreve uma alternância entre apatia e picos de ansiedade. "Ou eu não conseguia me importar com nada, ou entrava em pânico. Não tinha meio-termo." Após um período de tratamento e afastamento, Marcela foi demitida. A experiência, embora dolorosa, trouxe um alívio paradoxal: "Foi um baque no ego, mas a sensação de alívio físico foi imediata. Era como se meu corpo entendesse que a pressão tinha acabado." Hoje, Marcela busca reorganizar a vida e alerta: "Não dá para tratar exaustão como algo normal. Eu precisei parar para perceber isso."

Outro relato é o da pedagoga e doutoranda Cristine Oittica, com 15 anos de experiência na educação pública. Ela começou a adoecer mentalmente após ingressar no terceiro setor, em 2022. Contratada como analista educacional, sentiu-se excluída e direcionada a tarefas operacionais, mesmo com sua vasta formação e experiência.

A falta de reconhecimento gerou um sentimento de frustração crescente. "Chegou um momento em que eu pensei: o problema sou eu. Comecei a trabalhar cada vez mais para tentar provar meu valor", conta Cristine. As jornadas prolongadas, a ausência de pausas reais e um ambiente de cobrança velada e competição interna a levaram à insônia severa, crises de ansiedade, exaustão extrema e isolamento social.

"A gente batia o ponto, mas nunca parava de trabalhar. O trabalho ocupava o almoço, o jantar, a viagem, a cabeça", desabafa. Apesar de buscar terapia e acompanhamento psiquiátrico, e de acionar canais internos da empresa por assédio e discriminação – denúncias que foram consideradas inconclusivas –, Cristine foi demitida após sucessivos afastamentos médicos. Seu caso, diagnosticado como transtorno de ansiedade generalizada, ilustra a dificuldade de vincular formalmente o adoecimento ao trabalho. "A mensagem que ficou é que tudo o que eu fiz não foi suficiente. Isso desmonta a pessoa", lamenta. Hoje, Cristine segue em tratamento, tentando reconstruir a vida profissional e pessoal.

O Amparo Legal: O Que a Legislação Diz Sobre Burnout?

A inclusão do burnout na CID-11 ampliou sua visibilidade, mas o reconhecimento jurídico no Brasil ainda exige a comprovação da relação entre o adoecimento e o trabalho. A advogada trabalhista Nathalia Sequeira Coelho explica que o impacto é mais interpretativo do que legal, exigindo a demonstração do vínculo entre a doença e as condições laborais.

Para que o burnout seja equiparado a um acidente de trabalho, garantindo direitos adicionais ao profissional, é fundamental reunir um conjunto robusto de provas. Isso inclui diagnóstico médico consistente, relatórios clínicos, possível afastamento previdenciário, perícia médica e evidências das condições de trabalho, como excesso de jornada, metas abusivas, cobranças desproporcionais, assédio moral, acúmulo de funções e registros como e-mails, controles de ponto e testemunhas.

A advogada ressalta que a Justiça do Trabalho analisa cada caso individualmente. Contudo, quando há um ambiente de trabalho comprovadamente adoecedor, os empregadores podem ser condenados a pagar indenizações por danos morais e, em alguns casos, materiais. O reconhecimento do vínculo pode ainda garantir estabilidade provisória, assegurando o emprego por 12 meses após o término do auxílio-doença acidentário (benefício B91).

Existem dois tipos principais de benefícios por incapacidade temporária relacionados ao adoecimento:

  • Benefício Comum (B31): Concedido sem vínculo direto comprovado com o trabalho.
  • Benefício Acidentário (B91): Concedido quando o adoecimento é reconhecido como relacionado ao trabalho, garantindo a estabilidade de 12 meses após o retorno e o depósito do FGTS durante o afastamento.

Nathalia destaca que o Judiciário tem demonstrado maior sensibilidade em casos de saúde mental, levando a um aumento da judicialização. No entanto, ela alerta que a cobrança por produtividade, embora não seja ilegal, torna-se abusiva quando ultrapassa limites saudáveis, expondo o trabalhador a humilhações, pressão excessiva ou desgaste contínuo.

Avanço Crucial: A Atualização da NR-1

Diante do alarmante cenário de adoecimento mental no trabalho, o governo federal avança com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incluirá os riscos psicossociais na fiscalização do ambiente laboral. Essa mudança significa que auditores do trabalho poderão fiscalizar e multar empresas que apresentem questões como metas excessivas, jornadas extenuantes, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais e falta de autonomia. Assim, a saúde mental passa a ter o mesmo peso de fiscalização que pontos como acidentes ou outras doenças ocupacionais.

O Ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, reforçou nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026, a decisão de não adiar novamente a entrada em vigor da NR-1, mantendo o prazo de 26 de maio. Ele afirmou que uma nova prorrogação só ocorreria com um consenso entre empresas e trabalhadores, algo que não existe atualmente. Essa postura é defendida por auditores fiscais e pelo MPT, que argumentam que as exigências não são novas e que um novo adiamento comprometeria a proteção à saúde dos profissionais.

Enquanto o debate persiste, o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais sublinha a urgência de medidas concretas. A efetivação da NR-1 é um passo vital para assegurar que as empresas assumam sua responsabilidade na criação de ambientes de trabalho saudáveis, protegendo a dignidade e o bem-estar de todos os brasileiros.

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