GOVERNO LULA
Mercado prevê juros altos a longo prazo diante de "pacote de bondades" do governo Lula
Medidas anunciadas somam R$ 190 bilhões, com parte significativa fora do limite de gastos fiscal, gerando desconfiança e projeções de juros elevados por década.
O governo Lula anunciou cerca de R$ 190 bilhões em benefícios diretos à população, em um conjunto de medidas conhecido como "pacote de bondades". Deste total, aproximadamente R$ 118 bilhões não serão contabilizados dentro do limite de gastos estabelecido pelo arcabouço fiscal, segundo levantamento da CNN baseado em estudo exclusivo para a XP Investimentos.
A estratégia de alocar gastos fora da contabilidade oficial, segundo a analista de Economia da CNN Lucinda Pinto, permite ao governo cumprir a meta fiscal sem reduzir despesas efetivas. "Cerca de 60% dos gastos que o governo está anunciando esse ano não vão ser contabilizados ali no arcabouço fiscal", afirmou Lucinda. Contudo, ela alertou que esse tipo de manobra contábil compromete a credibilidade do arcabouço fiscal. "Quando existe esse tipo de estratégia de fazer gastos fora da contabilidade oficial, fica bastante delicado você confiar naquele arcabouço", disse.
Itens como o aumento do programa Minha Casa Minha Vida e o programa Desenrola estão entre os não contabilizados como gasto, mas os recursos saem dos cofres públicos e impactam a dívida pública. Lucinda apresentou dados da curva futura de juros negociada na B3, que reflete as expectativas dos investidores para a taxa Selic. As projeções indicam que a Selic encerraria 2026 em 14,22% e subiria para 14,70% no ano seguinte. Embora haja queda nas projeções subsequentes, a taxa permaneceria acima de 14% ao longo dos próximos dez anos.
"Isso tem tudo a ver com esse cenário de fiscal descontrolado, de dívida pública em alta", afirmou a analista, lembrando que uma curva de juros tão elevada e prolongada foi observada anteriormente durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.
O especialista em contas públicas Murilo Viana avaliou que o cenário fiscal compromete a sustentabilidade das contas públicas a longo prazo. Para ele, o Brasil apresenta uma composição de despesa pública desfavorável, com pouco espaço destinado ao investimento público e um déficit nominal elevado em razão das despesas com juros. "A situação fiscal fica sem previsibilidade, sustentabilidade, quando a gente observa uma taxa de juros real de 8%, 9%, o que acaba levando a uma dinâmica de crescimento da dívida muito acelerada para os próximos anos", afirmou Murilo.
Lucinda reforçou que as taxas de juros futuras não são apenas instrumentos financeiros abstratos, mas sim a base para a construção de projetos de investimento de longo prazo por empresas, como a construção de fábricas.
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