FORÇA E HONRA
Maurílio Pinto: A memória do “Xerife” que transformou a polícia
Em 19 de maio de 2026, 8 anos de sua partida, familiares reafirmam valores e impacto na segurança do Rio Grande do Norte.
Maurílio Pinto de Medeiros, o inesquecível “Xerife” que marcou a segurança pública potiguar, deixou um legado duradouro de honestidade e dedicação que sua família celebra. Nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, completam-se oito anos de sua partida, em 19 de maio de 2018, quando faleceu em Natal devido a complicações de diabetes. Sua ausência ainda é sentida, mas o impacto de sua integridade e firmeza na atuação policial continua a inspirar não apenas seus descendentes, mas também a memória de uma época em que a luta contra o crime era conduzida com rigor e paixão. O exemplo do delegado aposentado ressoa fortemente, moldando uma nova geração de policiais na família Medeiros.
Ana Cláudia, a filha mais velha, hoje com 61 anos, aposentou-se do serviço público da Prefeitura do Natal logo após a perda do pai, direcionando seus cuidados à mãe, Dona Clarissa Medeiros, que faleceu em 2020. O que mais a entristece é a drástica redução dos encontros familiares que antes eram frequentes na casa dos pais, no bairro de Capim Macio, Zona Sul da capital. Após a partida da matriarca, esses momentos de união tornaram-se ainda mais raros, deixando um vazio afetivo.
Adriana Medeiros, de 59 anos, também aposentada da Polícia há nove anos, compartilha a mesma sensação de distanciamento. Atualmente, ela se dedica à sua vida pessoal, aos filhos e aos quatro netos. “Sinto muita falta das histórias sobre casos policiais que papai contava. Mesmo aposentado, permanecia muito ativo e sempre bem informado sobre tudo. Me entristece saber que meus netos não chegaram a conhecê-lo; ele estava tão animado com a chegada do primeiro bisneto menino — até então, só havia uma bisneta. Infelizmente, o menino nasceu poucos dias depois que ele se foi”, relembra Adriana, com um nó na garganta, evocando a dor da perda.
Após a venda da antiga residência da família, Ana Cláudia assumiu a responsabilidade pelo valioso acervo particular do pai: fotografias, objetos pessoais e recortes de reportagens que documentavam sua notável trajetória. Inicialmente, ela conseguiu manter tudo intacto em sua própria casa, recriando o escritório paterno. Hoje, concilia o tempo entre os cuidados com as filhas e netos, e viagens frequentes. Embora Maurílio sempre insistisse para que ela também seguisse a carreira policial, Ana Cláudia escolheu outro caminho. “Polícia nunca foi a minha praia. Tenho ótimas lembranças das nossas discussões, pois eu era a filha que mais discordava dele e defendia minhas ideias com firmeza. Mesmo assim, nossa ligação era de muito carinho e amor. Acho que era comigo que ele tinha ‘maior chamego’”, brinca ela, com um sorriso de saudade.
Para Cláudia, a dedicação absoluta que o pai devotou à família e à profissão fez dele um homem respeitado e admirado por todos. “Na polícia, ele sempre defendia a união da equipe e não cansava de cobrar dos governantes mais investimentos para a categoria, especialmente na modernização de equipamentos, armas e viaturas. Ele lutava pelo que acreditava, sempre buscando o melhor para sua equipe e para a segurança da população”.
Adriana complementa, destacando os valores inegociáveis herdados: honestidade, disciplina, dedicação e amor — preceitos que ele aplicava tanto na vida pessoal quanto na profissão. Uma lembrança que sempre lhe vem à mente é ver o pai chorar quando algum policial de sua equipe era ferido gravemente em serviço. “Isso mostrava o quanto ele se entregava de corpo e alma à profissão. Ele sempre dizia que o trabalho enobrece o ser humano e que quem faz o que gosta, não sofre com estresse”, recorda, revelando a profundidade do caráter de Maurílio.
A Luta Contra Facções Criminosas
Maurílio Pinto de Medeiros Júnior, que também se aposentou aos 53 anos como agente da Polícia Civil, exalta a postura firme do pai no combate ao crime organizado. “Ele acompanhava o crescimento das facções criminosas no país, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e garantia que, enquanto estivesse na ativa, esses grupos jamais se instalariam no Rio Grande do Norte. Durante os muitos anos em que comandou a Polícia Civil, jamais se deixou corromper. Quando morreu, deixou apenas um Honda Civic, uma casa e um exemplo enorme de integridade”, ressalta o filho caçula, orgulhoso da retidão paterna.
A Breve Aventura na Política
Mesmo com toda a intensidade da carreira policial, Maurílio resolveu, no final dos anos 1980, candidatar-se ao cargo de deputado estadual. Com uma campanha sob o slogan “O Xerife do Povo”, ele não obteve sucesso nas urnas, mas o resultado não o abalou. “Não esperávamos a derrota, pois sua votação foi muito expressiva aqui na capital. Se ele tivesse conseguido levar sua campanha para o interior do Estado, certamente teria vencido. Mas, no fundo, talvez não fosse feliz se tivesse sido eleito, pois não tinha vocação nenhuma para a política. Talvez por isso ele tenha se empenhado menos na campanha”, avalia Adriana, ponderando sobre os caminhos da vida.
Júnior concorda que o pai não se sairia bem como parlamentar, principalmente porque ele reprimia a ideia de “ficar devendo favores”. “Muitas pessoas diziam que bastava ele pedir um cargo ou uma indicação para ser Secretário de Segurança. Mas ele sempre respondia, sem hesitar, que jamais iria pedir nada a ninguém — fosse deputado, prefeito ou governador”, conta o filho, sublinhando a inabalável independência do pai.
Como forma de reconhecer toda a sua trajetória e trabalho em prol da segurança pública, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte instituiu, por meio do Decreto Legislativo nº 453/2018, a Comenda Maurílio Pinto de Medeiros. Essa honraria tem o objetivo de homenagear profissionais que se destacam por serviços relevantes prestados à segurança pública no estado, perpetuando seu nome e sua importância.
Uma Trajetória Brilhante na Polícia
Nascido na cidade de Pau dos Ferros em 24 de Agosto de 1941, Maurílio Pinto de Medeiros ingressou na polícia em 1º de Julho de 1964. Filho do Coronel Bento Manuel de Medeiros, Maurílio herdou do pai a inabalável dedicação à Segurança Pública. Sua jornada começou como motorista de viatura aos 16 anos, na cidade de Patu, antes mesmo de se tornar agente. Após se formar bacharel em Direito, em 1975, passou a exercer o cargo de coordenador de Polícia da Capital, destacando-se na realização de operações até então inéditas na história da polícia potiguar. Uma das mais célebres foi o caso do assalto ao Banco do Nordeste de Assu, que marcou a primeira perseguição aérea do Estado, culminando na prisão do foragido em Belém/PA.
A trajetória de Maurílio Pinto de Medeiros foi sempre marcada por êxito em seu trabalho de investigar e elucidar crimes diversos, desde assassinatos a sequestros. Apesar do caráter operacional que o tornou famoso, o “Xerife” também atuou em importantes funções administrativas, como subsecretário e secretário adjunto de Segurança Pública, onde fazia questão de comandar e acompanhar de perto as missões de captura de criminosos considerados de alta periculosidade. Ele se aposentou em 2011, deixando a titularidade da Delegacia Especializada de Capturas (Decap), após 47 anos de serviços inestimáveis prestados ao Rio Grande do Norte.
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