BRASIL E EUA

Marcos Troyjo aponta oportunidades perdidas nas relações Brasil-EUA e sugere diversificação

Marcos Troyjo, economista e ex-presidente do NDB (Banco dos Brics), em entrevista.
Marcos Troyjo, durante visita a sede do jornal digital Poder360, em Brasília.

Economista Marcos Troyjo avalia que, apesar do protecionismo americano, o Brasil pode expandir seu acesso a mercados globais e fortalecer laços comerciais, mas critica a falta de estratégia do país.

O economista Marcos Troyjo, 59 anos, avalia que o Brasil tem desperdiçado oportunidades significativas nas relações comerciais com os Estados Unidos. Em entrevista ao Poder360, Troyjo criticou as políticas protecionistas do presidente americano Donald Trump, mas destacou que essas medidas podem, paradoxalmente, abrir portas para o Brasil em mercados internacionais, desde que o país adote uma estratégia proativa.

Troyjo sugere que o Brasil negocie ativamente com os EUA para mitigar potenciais tarifas elevadas, como a proposta de até 37,5%, e, independentemente disso, reforce o intercâmbio comercial com a potência norte-americana. Para impulsionar o crescimento econômico, o economista defende a intensificação das trocas comerciais com outras nações, ressaltando que o Brasil apresentou exportações de 15,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, ocupando a 15ª posição entre os países do G20. As importações, por sua vez, somaram 12,9% do PIB, colocando o país em 16º lugar nesse ranking.

Marcos Troyjo, durante visita a sede do jornal digital Poder360, em Brasília.

Na visão de Troyjo, uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia dificultar o fortalecimento dessas relações comerciais com os EUA. Troyjo, que atuou em cargos importantes como secretário especial de Assuntos Internacionais do Ministério da Economia no governo de Jair Bolsonaro (PL) e presidente do NDB (Banco dos Brics), ressalta que países como Japão e China prosperaram ao priorizar o comércio exterior como motor de crescimento, enquanto o Brasil, por vezes, focou em estratégias mais fechadas e na substituição de importações.

O economista detalha que, embora os EUA importem um volume significativo (US$ 3,6 trilhões em PIB de US$ 31 trilhões), a participação do Brasil nesse mercado é modesta, apenas 1% (US$ 36 bilhões). Ele explica que as investigações iniciadas pelo USTR (Escritório Comercial dos Estados Unidos) podem resultar em tarifas sobre as exportações brasileiras, impactando setores específicos e consumidores. Troyjo enfatiza a necessidade de o Brasil lutar para evitar a adoção dessas tarifas, que não beneficiariam nem o Brasil nem os EUA, e critica o que considera um alarde exagerado por parte do governo brasileiro, que busca atribuir a culpa a um único candidato presidencial.

Apesar do cenário protecionista, Troyjo identifica vantagens comparativas para o Brasil em áreas como segurança alimentar e diversidade energética, além de ser um detentor de minerais críticos. Ele observa que, nos últimos quatro anos, o Brasil tem atraído um volume considerável de investimento estrangeiro direto. Contudo, ele alerta que as 'barbaridades macroeconômicas do atual governo' podem atrair investidores menos desejáveis. Por outro lado, um investidor com visão de longo prazo, focado em segurança alimentar e energia, pode encontrar no Brasil um destino atrativo, ocupando espaços antes disputados por outras nações.

O economista argumenta que tanto o Brasil quanto os Estados Unidos desperdiçam oportunidades na relação bilateral. Ele compara o Brasil a nações asiáticas que usaram o acesso ao mercado americano como trampolim para o crescimento. Apesar de o Brasil ser um destino de investimento direto americano e possuir potencial em pesquisa e desenvolvimento, o intercâmbio comercial permanece aquém do desejável. Troyjo recorda iniciativas como a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e a tentativa de adesão à OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que enfrentaram resistências. Atualmente, com metade das exportações brasileiras destinadas à Ásia, o país necessita ampliar seus fluxos comerciais com a Europa e os Estados Unidos, o que, segundo ele, seria viabilizado por uma mudança de governo no Brasil.

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