TARIFAS EM DISPUTA
Maioria de inscritos em audiência sobre tarifas dos EUA rejeita medida, mas impostos devem ser mantidos
Levantamento da CNI aponta que 66 dos 80 inscritos para audiência pública sobre investigação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil se manifestarão contra as novas tarifas, mas a expectativa é de que elas sejam mantidas.
A maior parte dos participantes inscritos para a audiência pública sobre a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil manifestará posição contrária à adoção de novas tarifas. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que, de 80 inscritos para falar, 66 se posicionarão contra a medida.
A audiência faz parte de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão responsável por formular e negociar a política comercial do país. A investigação se baseia na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao governo americano apurar práticas de outros países consideradas prejudiciais ao comércio, às empresas ou aos exportadores norte-americanos. Em 15 de julho de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, determinou a abertura deste processo, após mencionar a possibilidade de uma tarifa de 50% sobre importações brasileiras. Uma semana antes, ele já havia comunicado a intenção.
A tendência, segundo Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, é que as tarifas sejam mantidas. Ela projeta que, embora possam ocorrer ajustes pontuais durante a conclusão do processo, eles serão marginais e não alterarão a direção da política comercial adotada pelos Estados Unidos. A CNI considera a relação comercial entre Brasil e EUA pautada pela complementaridade e o país norte-americano registra superávit comercial com o Brasil.
Os demais participantes da audiência, que representam setores norte-americanos como etanol, siderurgia, pecuária e madeira, apoiam a aplicação das tarifas. O levantamento da CNI foi realizado com base em dados públicos do USTR.
Caso a proposta seja implementada, a CNI projeta que 31,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos passarão a ser tributadas em 37,5%, um aumento de 27,5 pontos percentuais em relação aos atuais 10%. Estima-se que um volume de US$ 15 bilhões em exportações possa ser afetado se uma tarifa de 25% for aplicada, de acordo com a Câmara Americana de Comércio para o Brasil.
A indústria brasileira mantém a estratégia de demonstrar os efeitos negativos das tarifas, não só para o Brasil, mas também para empresas e setores da própria economia norte-americana. Diversos segmentos dos EUA já expressaram preocupação com os impactos das medidas em seus negócios. A CNI defende que a negociação é o melhor caminho para evitar prejuízos mútuos, argumentando que as medidas propostas carecem de justificativa econômica.
No governo brasileiro, a expectativa é de que não haja uma reversão completa das tarifas. Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmam, sob reserva, que o governo tentará esgotar as negociações, apresentando dados e argumentos técnicos. No entanto, a avaliação é de que a decisão do USTR possui motivações políticas, e que, na melhor das hipóteses, pode haver alguma exceção ou redução de taxa, mas não o cancelamento da medida. Uma linha de diálogo entre os governos deve ser mantida, com reuniões entre representantes dos presidentes.
Integrantes do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) consideram que os documentos do USTR evidenciam o caráter político da investigação, e não técnico ou comercial. Segundo relatos, os documentos recebidos pelo Itamaraty em julho de 2025 são praticamente idênticos aos da recomendação final de junho de 2026. Isso indicaria que os argumentos técnicos apresentados pelo Brasil ao longo do último ano foram desconsiderados, como os dados sobre a queda no desmatamento no governo Lula em comparação com o governo Bolsonaro. Uma delegação brasileira chegou a ir a Washington para apresentar dados, mas a diplomacia entende que seus questionamentos foram ignorados.
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