SAÚDE FEMININA

Lipedema: Cirurgiã plástica desmistifica e classifica como doença no SPIW

Lipedema: Cirurgiã plástica desmistifica e classifica como doença no SPIW

Consenso global mostra que ausência de protocolo universal dificulta tratamento; médicos alertam para "superdiagnóstico".

O lipedema, condição crônica que provoca acúmulo assimétrico de gordura, é uma doença e não um biotipo. Esta tese crucial, que impacta diretamente a dignidade e a qualidade de vida de milhares de mulheres, foi defendida pela cirurgiã plástica Juliana Tenório nesta quinta-feira, 14/05/2026, durante o painel "Além da Estética: As Novas Fronteiras da Cirurgia Plástica na Era da Tecnologia" no São Paulo Innovation Week (SPIW). A discussão sobre a verdadeira natureza do lipedema busca combater o subdiagnóstico e os tratamentos inadequados, que geram frustração e constrangimento para quem vive com a condição.

Caracterizado pelo acúmulo de tecido adiposo principalmente em nádegas, quadris e pernas – mas também podendo afetar os membros superiores –, o lipedema poupa tronco, mãos e pés, distinguindo-se claramente da obesidade comum. A confusão entre as condições tem levado muitas pacientes a tratamentos ineficazes e à falsa crença de que a falta de resultados é uma falha pessoal, e não do diagnóstico ou da abordagem terapêutica.

Juliana Tenório, participante do festival global de tecnologia e inovação realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, ressaltou que, apesar de o lipedema ter sido descrito em 1940, ainda existe um grande desconhecimento sobre o quadro. Isso resulta em um preocupante "superdiagnóstico", onde muitas mulheres são rotuladas erroneamente, e em profissionais que oferecem tratamentos caros e sem respaldo científico, prometendo soluções "inovadoras".

É vital compreender que, embora o lipedema e a obesidade possam coexistir, eles são diferentes. A gordura do lipedema apresenta fibroses e nódulos característicos, o que a distingue da gordura da obesidade e exige abordagens terapêuticas específicas.

Tratamento e a busca por um protocolo

Apesar de uma dieta saudável e exercícios físicos serem fundamentais, eles frequentemente não são suficientes para melhorar a aparência e os sintomas do lipedema. Nestes casos, é preciso complementar o tratamento com medidas como a terapia descompressiva, que inclui meias compressivas e drenagem linfática.

Em situações mais graves, após esgotar as opções de tratamento conservador, a cirurgia de lipoaspiração nos membros afetados pode ser indicada. Contudo, o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), alertou, em entrevista ao Pulsa, sobre os riscos: "Vemos casos leves indo para procedimentos que podem ser perigosos".

Não há, até o momento, um protocolo consolidado para o tratamento da condição. O Consenso da Aliança Mundial de Lipedema, ratificado por 71 especialistas de 19 países e publicado em janeiro na revista Nature Communications, enfatiza que "ainda não foi estabelecido um regime terapêutico universalmente aplicável para o lipedema". O documento aponta que, embora diversas intervenções mostrem potencial de alívio, a qualidade das evidências varia e a heterogeneidade dos estudos dificulta a comparação.

Como não existe cura para o lipedema, as intervenções terapêuticas visam aliviar os sintomas e retardar sua progressão. Atualmente, nenhum medicamento é aprovado especificamente para o tratamento da condição, focando-se, na maioria dos casos, no manejo do sobrepeso ou da obesidade, que podem agravar o quadro.

Médicos consultados pelo Pulsa também criticam a proliferação de protocolos que incluem radiofrequência, ultrassom, laserterapia, ledterapia, ozonioterapia e plataformas vibratórias. Esses métodos carecem de literatura científica robusta que comprove sua eficácia na melhoria dos sintomas do lipedema.

Estadão Conteúdo

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